FlatOut!
Image default
Car Culture

A origem do título e do roteiro de “Velozes e Furiosos”

Oficialmente “Velozes e Furiosos” (The Fast and The Furious, 2001) foi inspirado na história real de Rafael Estevez, um descendente de dominicanos que fazia parte de uma gangue de corredores de rua de Nova York nos anos 1990.

O que pouca gente sabe, é que “Velozes e Furiosos”, ou “The Fast and The Furious”, é o nome de um filme lançado em 1954. Os produtores de Velozes e Furiosos de 2001 tiveram até mesmo que comprar os direitos de uso do título para poder batizar seu filme com este nome.

Mas, diferentemente do que se imagina, “Velozes e Furiosos” de 1955 não fala sobre gangues de rachadores, nem de um tira infiltrado em corridas ilegais para conseguir um flagrante. Na verdade, as tramas não têm nada a ver entre si. Ou melhor, quase nada, por que nos dois filmes sobram carros e corridas.

Encontrei “Velozes e Furiosos” de 1954 pela primeira vez em 2014, por acaso, quando procurava “Velozes e Furiosos 3: Desafio em Tóquio” no Netflix. Foi quando lembrei ter lido algo a respeito do título e então decidi assistir para descobrir do que se tratava.

O filme começa com cenas de um Jaguar XK120 modificado para corridas em uma estrada sinuosa. As cenas são aceleradas, bem ao estilo dos anos 1950. Neste carro, está uma jovem mulher chamada Connie. Ela é uma piloto amadora a caminho de uma corrida que terminará no México.

Ao parar em um café à beira da estrada, ela encontra com Frank Webster, um ex-motorista de caminhão que fora preso por um assassinato que não cometeu e por isso fugiu da cadeia. Durante sua fuga, ele se torna assunto das notícias de rádio e acaba descoberto por dos clientes do café. Encurralado, ele dá um golpe no homem e sequestra a garota, vislumbrando uma forma de fugir para o México e encontrar sua liberdade.

O restante do filme, pouco mais de 50 minutos, se resume à fuga do homem a bordo do Jag e ao lado da garota. Ela inicialmente se mostra durona, mas por fim acaba se apaixonando pelo fugitivo que a sequestrou. Em pouco tempo a polícia consegue a descrição do casal e do carro e passa a apertar o cerco.

O tempo, contudo, foi suficiente para que Frank e Connie chegassem ao local da corrida, e começassem os últimos preparativos para largar. Uma regra de última hora impede que mulheres participem da prova, e por isso Frank acaba abandonando a garota em uma cabana enquanto trilha seu caminho rumo ao México. No fim, a garota acaba convencendo-o a se entregar e enfrentar o julgamento com a certeza de que ele será absolvido. Webster se entrega e o filme acaba. Sem rachas, sem tuning, sem gangues de japoneses mafiosos.

Apesar de parecer um resumo rápido, a trama do filme é assim rasa mesmo, e é provavelmente por isso que você nunca ouviu falar dele. Mas talvez você tenha achado essa história familiar. Especialmente se você é daqueles que assistiam à Sessão da Tarde no fim dos anos 1990.

É que a história de “Velozes e Furiosos” — este, de 1955 — serviu de inspiração para um remake um pouco menos desconhecido: “Rotação Máxima” (The Chase, 1994).

A diferença é que em “Rotação Máxima” a garota não pilota carros — em vez do Jag XK120 ela usa um BMW 325i com calotas… — e que no final, ambos conseguem fugir e acabam curtindo a vida nas praias mexicanas. Ah, e se você curte rock americano dos anos 1980 e 1990, vai curtir as participações especiais do filme: Henry Rollins (Black Flag e Rollins Band) como policial, e a dupla Flea e Anthony Kiedis (Red Hot Chilli Peppers) como dois malucos em um Ford Bronco.

Se você ficou curioso para assistir a “Velozes e Furiosos” de 1954, infelizmente ele não está mais disponível online por streaming, assim como Rotação Máxima.

Agora… o fato de não ter relação alguma com o filme de 1954 não significa que “Velozes e Furiosos” de 2001 não tenha seu roteiro muito parecido com um outro filme antigo. “Outro” não: outros.

O primeiro é “Atraídos Pelo Perigo” (No Man’s Land, 1987). Coincidentemente o ator principal também é Charlie Sheen e a história tem semelhanças demais com “Velozes e Furiosos”.

Em “Atraídos pelo Perigo”, Benjy Taylor (D.B. Sweeney) é um policial que precisa investigar uma série de roubos de Porsche 911 na região de Los Angeles. Em “Velozes e Furiosos” Brian O’Conner é um policial que precisa investigar uma série de assaltos a cargas nas estradas da região de Los Angeles.

Toretto e Brian em “Velozes e Furiosos”, Benjy e Ted em “Atraídos pelo Perigo”

Benjy se infiltra em uma concessionária Porsche graças ao seu vasto conhecimento sobre a mecânica dos esportivos da marca. Em “Velozes”, Brian O’Conner se passa por um rachador bom de braço e que manja de motores. Ambos ganham a confiança do principal suspeito — Benjy (Charlie Sheen) por consertar o carro do cara, e O’Conner por salvar Dom Toretto da polícia. Nos dois filmes o policial infiltrado passa a participar dos negócios ilegais dos suspeitos, e acabam conhecendo a irmã dos caras, se envolvem afetivamente com elas e acabam muito mais envolvidos com os criminosos.

A diferença, felizmente, é o final do filme: O’Conner livra a cara de Toretto, enquanto Benjy Taylor troca tiros com seu amigo/suspeito e acaba matando-o. Impossível imaginar Brian O’Conner trocando tiros com Dom Toretto, não?

O segundo é Caçadores de Emoção (Point Break, 1991). Você certamente conhece: é um dos grandes clássicos da década e inspiração da “geração saúde” daquela década. Keanu Reeves é Johnny Utah, um novato do FBI que acaba infiltrado em um grupo de surfistas para investigar uma quadrilha que assalta bancos conhecida como “The Presidents”, por usarem máscaras dos presidentes americanos anteriores ao filme.

Como Brian O’Conner, Utah aprende a surfar, usa sua relação com uma garota para se aproximar do grupo, entra em conflito com alguns membros mais desconfiados, mas acaba conquistando a confiança do líder Bodhi (um Toretto surfista interpretado por Patrick Swayze) por demonstrações de lealdade e boas intenções.

Ao longo de seu envolvimento, ele é pressionado pelo chefe e pelo parceiro policial para trazer resultados, exatamente como Brian O’Conner, e acaba fazendo uma aposta fracassada ao apontar uma gangue rival como a responsável pelos assaltos. Exatamente como Brian fez com a gangue japonesa de Johnny Tran.

Quando finalmente descobre que seu amigo é o assaltante, Utah acaba envolvido na ação, porém como membro do assalto — enquanto O’Conner tenta impedir a ação de Toretto e seus comparsas. Nos dois filmes a ação dá errado: Utah e O’Conner acabam revelando sua verdadeira identidade, causando repulsa da garota e do líder.

Bodhi se abre para Utah; Toretto se abre para O’Conner. Note a semelhança entre postura de Utah e Toretto, e entre a postura de Bodhi e Toretto

Aqui os dois filmes divergem novamente: Bodhi sequestra a namorada de Utah, mas Dom apenas afasta Mia de O’Conner. Algum tempo depois, os agentes se encontram com seus amigos traídos para um último diálogo, mas com uma diferença: Utah vai prender Bodhi, que sonhava em surfar a maior onda de todas, enquanto o O’Conner tenta se explicar para Toretto.

O final dos filmes é basicamente o mesmo: Utah deixa Bodhi encontrar-se com seu destino, surfando a onda gigante e, eventualmente, morrendo por desafiar o mar. O’Conner, depois do racha, entrega seu carro e deixa Dom Toretto escapar.

Se você já conhece o filme, assista novamente comparando-o com Velozes e Furiosos: até mesmo o bar em que Utah aborda a garota é o mesmo em que Toretto e O’Conner vão comer camarão com fritas depois do racha com a Ferrari F355 preta, o “Neptune’s Net”, em Malibu, Califórnia. Veja Utah chegando ao bar no início do vídeo abaixo (o clipe que inicia com o Mustang estacionando):

Note que até a tomada da chegada no bar é muito semelhante em “Velozes e Furiosos” (clique na imagem abaixo ou aqui para ver o vídeo, infelizmente o proprietário do clipe não permite incorporação) :

Não por acaso, “Velozes e Furiosos” influenciou toda a geração de jovens entusiastas dos anos 2000 como “Caçadores de Emoção” influenciou os surfistas e skydivers dos anos 1990. Era o retrato de uma cultura que já existia localmente e que foi projetado para uma audiência global pelo sucesso de ambos os filmes. Washington Olivetto, o famoso publicitário brasileiro, diz que “a melhor forma de ser global é ser o mais local possível”. Ele tem razão: mostrando as cenas locais, os entusiastas de todo o mundo se identificaram ao seu modo, e transformaram ambos os filmes em “cult movies”. Eles deixam de ser filmes para se tornar um pedaço da cultura.