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Car Culture História

Big Willie Robinson, o herói que lutou contra o racismo com carros de arrancada

Existem certas figuras na história da humanidade que, caso fossem mais conhecidas, seriam verdadeiros heróis admirados por multidões. Tenho certeza de que este é o caso de Big Willie Robinson – um homem que morreu em 2012, aos 70 anos de idade, deixando para trás uma bela história. Mesmo que poucas pessoas fora da cena street racer de Los Angeles o conheçam.

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Não, não estamos falando dos pegas que aconteciam entre carros tunados na virada dos anos 2000. Temos que voltar mais um pouco no tempo, para as décadas de 1960 e 1970, quando o que realmente movimentava a noite de LA eram os pegas de semáforo entre muscle cars – versões clandestinas das corridas de arrancada. Big Willie Robinson era, acima de tudo, um pacifista. Ele acreditava que a violência – em especial a violência motivada por questões étnicas/raciais – poderia ser evitada se as pessoas se esforçassem o bastante. Seu esforço, no caso, eram as corridas de arrancada, na pista e nas ruas.

Willie nasceu em Nova Orleans, no Texas, em 12 de setembro de 1942. O mais velho de cinco irmãos, ele não teve uma infância sofrida como era a realidade de muitos meninos negros de sua cidade – conforme um de seus irmãos falou anos depois no Los Angeles Times, eles tinham boas roupas e não faltava comida na mesa. Mas, ainda assim, Nova Orleans era uma cidade extremamente segregada naquela época, no sentido de que brancos e negros não se misturavam. Quando seus pais se separaram, Willie tinha seus 16 anos e tornou-se a figura paterna da casa. Dois anos depois, seu carro – um Oldsmobile 98 (o modelo, não o ano de fabricação) – foi depredado por um grupo racista. Sua mãe disse que seguraria as pontas e o mandou para Los Angeles, que era uma espécie de refúgio para negros sulistas em busca de uma cidade mais acolhedora.

O que ele encontrou foi… mais segregação. Na década de 1960 esta era a realidade de boa parte dos Estados Unidos (e, como “Todo Mundo Odeia o Chris” e “Um Maluco no Pedaço” nos ensinaram, até mesmo duas ou três décadas depois). E, em Los Angeles, isto ainda era intensificado pela forte presença de gangues de rua com diferentes culturas negros, mexicanos, skinheads e asiáticos, cada um com seu bairro e com sua rotina de brigas, crimes e vandalismo. Tanto que, quando o jovem Willie – com seus quase dois metros de altura e músculos começando a aparecer – chegou a Los Angeles e viu que aquele era o lugar perfeito para começar uma carreira como piloto de arrancada, descobriu que até mesmo a polícia não se importava muito em deter os rachas que aconteciam na madrugada. Eles estavam mais preocupados em controlar a violência rotineira.

Na verdade, eles estavam tão ocupados lidando com toda a revolta nas ruas que até ajudaram Big Willie a promover corridas de rua – que ele acreditava serem a forma mais eficaz de reduzir a violência. Ele tirava os jovens do vício em drogas e das disputas entre gangues, e os colocava no vício em motores e disputas entre pilotos. Em 1965, porém, a situação chegou ao limite – uma abordagem suspeita de um policial a um motorista negro, por suspeita de embriaguez ao volante, transformou o bairro de Watts, no sul de Los Angeles, em uma verdadeira zona de guerra: seis dias de brigas, vandalismo, prisões e revolta geral entre 11 e 16 de agosto daquele ano, em uma rebelião que ficou conhecida como The Watts Riot. A coisa saiu do controle e Los Angeles se tornou muito mais violenta após aquilo tudo.

Foi para tentar melhoras as coisas que, em 1968, Big Willie criou a Brothehood of Street Racers, que realizou eventos de arrancada até meados da década de 1980. Seu mote era simples: “corra com o que você tiver” – e ele não se referia apenas ao carro (que realmente podia ser qualquer um), mas ao piloto. Você podia ser um jovem de 16 anos, uma mulher de 40, ou um senhor de 70. Branco, indígena, negro, asiático, europeu, latino. Professor, policial, piloto profissional. Não importava. Se você estivesse a fim de fuçar seu motor e dar umas aceleradas, havia encontrado o lugar certo.

A exposição não era um big deal na vida de Big Willie – só servia para que ele alcançasse mais pessoas. Mas lhe rendeu algumas histórias interessantes: depois de fazer uma ponta em “Corrida Sem Fim”  (Two-Lane Blacktop, 1971), ele ficou amigo do produtor Gary Kurtz – amigo mesmo, a ponto de Kurtz oferecê-lo o papel de Darth Vader em Star Wars. Willie educadamente recusou, mas não hesitou em conseguir colocar os personagens oficiais de Guerra nas Estrelas em alguns de seus eventos.

Ajudava, claro, o fato de Big William ser amigo de Tom Bradley, o primeiro prefeito negro de Los Angeles, e de Otis Chandler, que na época era o editor do jornal LA Times. Ele ajudou Big Willie a organizar eventos, colaborou com a divulgação e frequentemente aparecia para as corridas – e, segundo o próprio Willie declarou em seu entusiasmado e emocionado discurso no funeral de Chandler, em 2006, todas as gangues de LA o conheciam como “Big O”. Era o mesmo apelido pelo qual os netos o chamavam.

A morte de Big O causou um baque em Big Willie, mas ele manteve-se na ativa por mais alguns anos. Foi quando outra perda lhe tirou o chão de vez: sua esposa, Tomiko – uma asiática, como que para quebrar mais um paradigma da época – morreu de câncer em 2010. Os dois eram inseparáveis, e Tomiko atuava como sua companheira e mecânica assistente, ajudando-o a fuçar o motor de seu Dodge Charger Daytona – o “The Duke and Duchess Daytona”, como era conhecido.

Após a morte da esposa, Big Willie decidiu disputar uma última corrida antes de aposentar-se, e sua saúde foi definhando até 25 de maio de 2012, quando problemas circulatórios (que primeiro levaram suas pernas) o fizeram dar o último suspiro.

Foto: LA Times

A morte de Big WIllie Robinson só fez barulho entre os fãs hardcore da cena de arrancada dos EUA – fora do círculo ela passou despercebida. Entretanto, estamos falando do homem que conseguiu quebrar as barreiras da cor e da ideologia para unir centenas, talvez milhares de pessoas em torno de um objetivo comum: preparar motores e correr de carro. Gostaria de ter conhecido sua história muito antes.