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Donington Park, 1983: relembre o primeiro teste de Ayrton Senna na Fórmula 1

O dia era 19 de julho. O ano, 1983. Faz 35 anos e pouco mais de um mês que Ayrton Senna sentou-se ao volante de um… Alfa Romeo Alfasud, que estava parado na frente da casa onde seu irmão, Leonardo, passava férias na Inglaterra. Os dois seguiram em direção ao circuito de Donington Park, em Leicestershire, porque aquele seria um grande dia: a convite do próprio Frank Williams, o jovem piloto da Fórmula 3 britânica testaria pela primeira vez um monoposto da Fórmula 1. E faria muito, muito bonito.

Apesar da pouca idade – só 23 anos – Senna já não era novato nas pistas. Ele começou a correr de kart em 1973, migrou para os monopostos em 1981 e, naquele 1983, vinha fazendo uma temporada absurdamente boa na Fórmula 3 britânica: das 13 provas disputadas até o momento, Ayrton havia vencido dez, sendo que a última conquista havia sido em Silverstone três dias antes. Ele era o líder do campeonato, e já estava chamando a atenção das equipes de Fórmula 1. Tanto que o fundador e chefe da Williams foi o primeiro a lhe dar uma oportunidade em um monoposto da maior categoria do automobilismo. O carro era o Williams FW08C, equipado com um V8 Cosworth, que no ano anterior tinha dado ao finlandês Keke Rosberg seu primeiro e único título na Fórmula 1.

O jornalista Reginaldo Leme, da Rede Globo, acompanhou Senna naquele dia. Ele foi o único membro da imprensa presente naquele dia, e resultado foi uma reportagem bastante íntima com o piloto que já foi ao ar algumas vezes. A versão abaixo é a mais completa, e mostra Senna deixando a casa na Inglaterra com seu irmão no Alfasud. A imagem, porém, não é das melhores – as cores estão todas distorcidas.

Esta outra versão tem edição e narração um pouco diferentes, mas a qualidade do vídeo é melhor e as cores estão corretas.

Em qualquer um dos dois vídeos, porém, o que se vislumbra é um Ayrton Senna muito centrado, preocupado em dar seu melhor desempenho no circuito de Donington. Não por causa do traçado, que já lhe era bastante familiar, mas pela chance de mostrar o que sabia fazer com um monoposto da Fórmula 1. Suas intenções eram claras: conseguir um assento para a temporada de 1984. Não necessariamente um lugar na Williams, visto que a equipe já havia fechado contratos com o próprio Rosberg e com o francês Jacques Lafitte para o ano seguinte, mas quem é que recebe um convite desses e recusa?

Mesmo que você já tenha visto, seja na TV ou na Internet, é difícil não notar como Ayrton Senna era um cara metódico, que calculava cuidadosamente todos os passos de sua carreira, mas ao mesmo tempo também era muito passional e emotivo. Em determinado momento, ainda no caminhão da Williams – onde foi conhecer e cumprimentar os mecânicos e demais membros da equipe – Senna dá um tapinha na asa traseira do FW08C e diz: “é hoje”, visivelmente empolgado.

Ao sentar no carro (que não estava devidamente ajustado para ele, e sim para o mais robusto Keke Rosberg), Senna fica visivelmente emocionado e agradece a Deus pela oportunidade de guiar um Fórmula 1. Instantes depois ele sai devagar com o carro, que não está usando pneus de classificação e não está com o motor 100%. Mas o que acontece a seguir é mágico.

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Nas primeiras voltas ele está só se aquecendo, mas em pouco tempo começa a baixar significativamente seus tempos. Depois de cerca de 20 voltas, Senna parou nos boxes para avisar a Frank Williams que o motor estava se comportando de forma estranha, perdendo rotações, e que talvez fosse melhor encerrar a sessão por ali.

O caso é que, mesmo com problemas no carro, Senna conseguiu um feito impressionante: seu melhor tempo, de 1:00,05, era o recorde em Donington na época. E mais de um segundo mais rápido que o melhor tempo do piloto de testes da própria Williams, Jonathan Palmer (pai do piloto Jolyon Palmer, que correu pela Renault até 2017), que também havia testado o carro em Donington semanas antes.

Segundo Frank Williams, Ayrton Senna deu cerca de 35 voltas no carro, depois desceu, cumprimentou todo mundo e saiu da pista. Em 2013, durante uma entrevista concedida ao Grande Prêmio, o britânico disse que ficou “bastante inclinado a assinar com Senna”, e e que o piloto sabia muito bem o que queria quando aceitou o convite. “Era um homem de negócios”, disse Williams. “Quando ele veio até mim, tinha atitude e um senso do valor dele no mercado. Esse era o preço dele. Eu tentei explicar que ele era novo e ainda tinha muito para provar, pilotos novos costumam bater carros, a velha história, e acho que chegamos muito perto de um acordo”.

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Frank Williams ainda disse que, no fim das coisas, a melhor coisa que aconteceu com Senna foi não assinar com sua equipe naquele dia, pois o carro da temporada de 1984, em suas palavras, “era terrível”. De fato, Keke e Laffite marcaram apenas 25,5 pontos na temporada e a Williams amargou uma sexta posição no campeonato de construtores. Isto fica bem claro na entrevista com Reginaldo Leme, na qual Senna dizia que só iria assinar com uma equipe que lhe deixasse totalmente satisfeito. Ainda naquele ano Senna testou carros da Brabham, da McLaren e da Toleman, e foi com esta última, a menor de todas as equipes, que o brasileiro assinou. Talvez ele tivesse ouvido o conselho de Williams – cujo entendimento, aliás, é de que a Toleman precisava mais de Ayrton que Ayrton da Toleman. Senna subiu ao pódio três vezes em 1984 e certamente foi o melhor piloto com o melhor desempenho na história da Toleman.

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Levou dez anos para que Senna finalmente fechasse com a Williams, no fim da temporada de 1993 – temporada na qual, aliás, Senna deu aquela que é considerada uma de suas melhores voltas ao volante do McLaren MP4/8 justamente em Donington Park. Frank Williams disse em 2013 que encontrou o mesmo piloto obstinado e que sabia o quanto valia, mas que Ayrton foi mais ameno na negociação – estava em uma situação diferente, atrás de um carro competitivo para buscar seu quarto título.

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O Williams FW16 nº 2 de Ayrton Senna, que posa ao lado do colega Damon Hill

Todos sabemos o que aconteceu no ano seguinte, quando o tricampeão perdeu a vida no GP de San Marino, em Imola, quando liderava a corrida. Em uma triste coincidência, o último carro de Fórmula 1 que Ayrton Senna pilotou na vida também foi um Williams.

 


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