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Escrevendo certo, sem linhas tortas: acertando o padrão das faixas do Uno 1.5R GoodGuys

Mas se eu quero estudar moda, o que eu vou fazer numa fábrica de carros?“, ela perguntou quando eu sugeri que se inscrevesse no programa de estágio de uma famosa fabricante japonesa. “Ora, minha filha: fabricantes de carros também precisam de estilistas. Quem você acha que escolhe esse banco estiloso?“, respondi mostrando uma foto do interior pied de poule do Porsche 928.

De fato, fabricantes de carros têm estilistas, não apenas para escolher materiais de acabamento, mas também para caçar tendências e colaborar na inovação do processo criativo. Foi por isso que a Land Rover colocou a assinatura de Victoria Beckham no primeiro Range Rover Evoque. E foi uma estilista quem olhou para o TIE Avançado do Darth Vader e decidiu que aquilo poderia inspirar os elementos internos dos faróis do Jaguar F-Type.

O conceito estético de um carro é um trabalho conjunto de designers de todas as especialidades. As equipes têm gente especializada em materiais, em carrocerias, em ergonomia, em design de luz, som e até cheiro. O designer de carros não é um artista multidisciplinar especializado em tudo — até por que, especialização pressupõe o enfoque em um único nicho.

E isso não se aplica apenas aos carros. Todo produto tem uma equipe com especialistas em cada setor. Quem escolhe a paleta de cores não é o mesmo que decidiu o formato das lanternas, nem é a mesma pessoa que fez costuras matelassê no tapete do porta-malas. Muito menos quem decidiu que o carro teria faixas no capô. E essa pessoa não é a mesma que escolheu a fonte tipográfica usada no carro.

Agora… você já topou com algum produto barato demais para ser verdadeiro e notou que tinha alguma coisa errada com ele? Uma textura esquisita, um material estranho e uma letra diferente daquela que você conhece? Acontecia muito nos fones de ouvido falsificados da Sony nos anos 1990: as letras eram sutilmente mais estreitas que as do logotipo original. Acontece também nos acessórios falsificados da Apple — a caixa parece idêntica, mas aquelas letras… tem algo errado ali.

E tem mesmo. Quando você desenvolve uma marca — entenda como “marca” o nome de qualquer produto—, a equipe responsável pela identidade visual dela tem um especialista em tipografia, que é uma pessoa que se dedica à criação de fontes tipográficas e aplicação das formas das letras. E quase sempre, como forma de identidade, os tipógrafos desenvolvem fontes próprias ou, no mínimo, modificam fontes existentes, dando origem a uma variação proprietária desta fonte.

Isso é assim não apenas por causa do conceito estético do produto — o estilo da fonte precisa conversar com o restante do design do produto. As fontes são próprias também por que isso permite o registro da fonte como forma de proteção autoral.

Pense nas letras da Coca-Cola. Se você escrever Coca-Cola no Word com a fonte Times New Roman, não poderá registrar esse desenho, porque Times New Roman pertence a outra pessoa, e também não poderá impedir que alguém escreva Coca Cola (sem hífen) em Times New Roman em uma camiseta com o intuito de vendê-la. É um exemplo banal e eu sei que a legislação tem alguns entremeios que configuram esse negócio como infração de direitos, mas acho que você sacou o que estou dizendo, não?

Se você cria uma fonte tipográfica, ou seja, um desenho de letra, você pode registrá-la e ela passa a ser uma marca proprietária sua. É por isso que ninguém pode usar comercialmente a escrita Coca-Cola do jeito que está nos rótulos da Coca-Cola. Além disso, você cria um barreira contra a falsificação. Imagine se o rótulo da Coca-Cola fosse assim, usando Times New Roman:

Eu o desenhei em exatamente 44 segundos. Este seria o tempo de se desenvolver um rótulo falsificado, para quem tivesse o intuito de falsificar qualquer coisa da Coca-Cola. E ficaria idêntico ao original. Quando você desenvolve uma tipografia proprietária, impõe uma barreira para os falsificadores. O tempo de desenvolvimento aumenta a ponto de o retorno não valer a pena o esforço. É por isso que a Apple tem aquela caixa bacana, com acabamento refinado, manual impresso em papel brilhante e todos os folhetos envoltos por um envelope de papel cartão, também com design próprio. Diferencia o produto e, ao mesmo tempo, impõe uma barreira contra os falsificadores.

Para os falsificadores, esse trabalho só vale a pena quando há muito dinheiro na mesa. É o caso das obras de arte, principalmente as pinturas. Uma falsificação pode custar dezenas de milhares de dólares, porque o potencial de ganho é de centenas de milhares de dólares, ou até milhões.

Com os carros antigos também acontece algo parecido: peças de reposição fora de padrão, emblemas com materiais errados entregam a origem duvidosa de um carro antigo à venda. A maioria dos modelos valorizados têm meios de identificação, mas alguns não têm. O raríssimo Chevette País Tropical, por exemplo, pode ser “falsificado” usando um Chevette qualquer do mesmo ano, pois a série especial não é identificada pelo VIN.

Outros modelos valorizados, cuja série pode ser identificada pelo VIN, podem ter um valor de anúncio elevado por serem veículos “nunca restaurados”. E aí os detalhes é quem podem entregar a verdadeira condição do carro. E entre estes detalhes estão o padrão tipográfico, conjunto de emblemas, marcações em componentes de reposição etc.

O nosso Uno 1.5R já havia passado por um processo de recuperação da pintura, como vimos nos vídeos e na matéria anterior do GoodGuys — o vendedor não escondeu isso, preciso deixar claro aqui —, e muita gente que viu o carro não entendeu a razão da repintura e restauração do exterior do carro. Pois bem, além dos problemas que descobrimos no processo, também notamos que as faixas estavam fora de padrão, e que todas as faixas a venda para reposição no mercado também estavam fora do padrão original.

O Uno 1.5R certamente utilizou uma fonte criada/modificada pela Fiat na época de seu desenvolvimento para refletir o conceito criado para o carro. Na hora de reproduzir a faixa, ela provavelmente foi desenhada sem a original em mãos para referência, apenas usando a comparação visual por fotos. Ou foi feita sem atenção aos detalhes por alguém sem experiência em design gráfico.

O fato é que todo o conjunto de faixas que encontramos à venda estava fora dos padrões originais: a fonte estava errada, as listras tinham espaçamento e contagem errada, o alinhamento dos caracteres e suas próprias dimensões estavam fora do padrão. À primeira vista elas pareciam corretas, mas ao se comparar com um carro com as faixas originais, a discrepância ficava clara.

Para conseguir um jogo de faixas que fizesse jus ao projeto do Uno GoodGuys, recorremos ao Chris Benevides da Interlakes, um grande especialista em design gráfico, e ao Digo Garcia, presidente do Clube do Uno e proprietário de um Uno 1.6R (que você já viu no FlatOut Midnight). Juntos, eles encontraram um Uno 1.6R totalmente original e fizeram as medições das faixas para que o Chris pudesse reproduzi-las com exatidão.

Foi assim que conseguimos o padrão original, com a fonte correta, as faixas com espaçamento correto, alinhamento conforme original e, claro, a possibilidade de optar pelo material disponível no mercado. E a parte legal do projeto é que as faixas serão disponibilizadas para venda pela Interlakes e, comprovadamente, são as únicas no padrão original atualmente.

Para finalizar, o pessoal da Wrap That Sh*t fez a aplicação impecável das faixas — um processo trabalhoso pois as faixas são contínuas sobre painéis diferentes da carroceria e qualquer desalinhamento ficaria gritante na superfície do carro.