FlatOut!
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Este Chevrolet Corvette competiu pela Ferrari nas 24 Horas de Le Mans de 1972


As 24 Horas de Le Mans decididamente não são território dos americanos. Os fãs do GT40 costumam dizer que ele veio dos EUA para acabar com a festa da Ferrari em La Sarthe, mas a verdade é que ele estava mais para um esforço conjunto entre britânicos e americanos. Sendo assim, ver um carro dos States competindo em Le Mans não é algo exatamente comum. E é por isso que gostamos tanto deste Corvette L88 1968, que participou da prova em 1972.

É bacana ver um Corvette com vestimentas apropriadas para corridas de longa duração. A impressão que fica é que carros americanos são modificados para acelerar em linha reta, enquanto os pequenos e ágeis europeus tomam conta dos circuitos sinuosos e estradas nas montanhas. Não tem que ser assim. E, de fato, não era: se você acompanha o FlatOut, com certeza vai lembrar que, nos anos 60, a Trans Am — campeonato para muscle cars em circuitos fechados — era extremamente popular, e deu origem a algumas máquinas memoráveis, como o Plymouth ‘Cuda AAR. Na verdade, até hoje os carros da época competem entre si na Historic Trans Am.

Sendo assim, a ideia de um carro americano que arrepia nas curvas não precisa ser tão alienígena. Mas vai dizer que não há algo diferente em um Corvette com para-lamas alargados, pneus slick e uma bela pintura de corrida? E um exemplar com uma boa história, ainda por cima.

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Este é um Corvette L88 1968, e isto por si só já tornaria o carro bem especial. O pacote L88 foi oferecido como opcional de fábrica para o Corvette C3 entre 1967 e 1969. Ao longo destes três anos, um total de 216 exemplares foram produzidos. Mas o que eles têm de especial?

Para começar, o motor: um V8 big block 427 (sete litros) com comando de competição, cabeçotes de alto fluxo feitos de alumínio, carburador Holley de corpo quádruplo e potência declarada em 435 cv. Além disso, o Corvette recebia uma transmissão manual reforçada, de quatro marchas; o pacote de suspensão F41, que incluía molas mais duras e barras estabilizadoras na dianteira e na traseira; freios maiores e remoção dos sistemas de ar-condicionado e direção assistida.

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Na prática, tudo isto fazia do Corvette L88 um carro de rua praticamente pronto para vencer corridas, pois as modificações inclusas eram as mesmas realizadas pelas equipes. Some a isto a raridade do carro, e o que você tem é uma lenda. Pois este aqui é um Corvete L88 que competiu pela Ferrari nas 24 Horas de Le Mans de 1972 — com emblema do cavallino rampante e tudo. Mas como assim?

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Em 1971, um americano que, ironicamente, se chamava Toye English, competia com um Corvette L88 1968 preparado. Sua equipe se chamava RED (Race Engineering & Development), e o carro, The Rebel. O Corvette com pintura vermelha, azul e branca se tornou um dos maiores nomes do automobilismo americano na época, conseguindo destaque as 24 Horas de Daytona e nas 12 Horas de Sebring. O próximo passo, naturalmente, seriam as 24 Horas de Le Mans.

Acontece que o regulamento da categoria GT de Le Mans não permitia que o Rebel competisse. O motivo? Boa parte dos componentes do carro, especialmente o interior, não era original — e esta era uma exigência do regulamento imposto pelo Automobile Club de l’Ouest. A solução? Fazer um carro novo, claro!

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E assim, Toye saiu em busca de uma nova base para um carro de corrida. Não demorou muito pra que ele encontrasse um Corvette 1968 conversível em um desmanche, e o comprasse por meros US$ 600 (cerca de US$ 4.000, ou R$ 14 mil, em dinheiro de hoje). O carro precisava de um chassi novo, mas o interior estava completo e a carroceria seria modificada com componentes especificados pela FIA. Um chassi novo custou mais US$ 159, e os componentes mecânicos foram todos adquiridos diretamente com a fabricante — incluindo um conjunto mecânico novinho em folha.

O V8 L88 instalado no cofre do carro tinha comandos de válvulas menos agressivos, a fim de preservar o motor ao longo das 24 horas, mas ainda assim gerava pouco mais de 500 cv. A transmissão era a mesma caixa manual de quatro marchas M22 dos modelos de rua, e também era zero-quilômetro.

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O carro foi inscrito em uma posição vaga no North American Racing Team (NART), equipe fundada pelo ex-piloto italiano Luigi Chinetti para representar a Ferrari nos EUA. A ideia foi da Goodyear, patrocinadora da equipe de English, que conseguiu convencer os italianos a “adotarem” o Corvette — com uma condição: o carro deveria ter o emblema da Ferrari pintado nas laterais. Sem problemas.

Talvez tenha sido uma questão de revanchismo: a Ford havia massacrado as Ferrari com o GT40 por quatro anos consecutivos (1966-1969). Como a Chevrolet era (e ainda é) a maior rival da Ford nos EUA, imaginamos que a equipe NART tenha pensado “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”, ou algo assim.

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Durante os treinos, o piloto Bob Johnson acabou perdendo o controle do carro depois de acertar um cartaz que havia sido atirado na pista. O Corvette bateu no muro a 160 km/h e ficou com a fibra de vidro da dianteira destruída. Rapidamente, os mecânicos trataram de “consertar” o carro com chapas de alumínio, rebites e fita adesiva. Na hora da inspeção, os fiscais da prova disseram que seria impossível permitir que o Corvette competisse naquele estado — a não ser que ficasse provado que o carro seria capaz de suportar 24 horas na corrida mais desafiadora do planeta.

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Sem pensar duas vezes, um dos membros da equipe subiu no bico do carro e começou a pular. A gambiarra engenharia improvisada se manteve firme e, assim, o carro estava apto a correr. Este é um daqueles casos em que o resultado é apenas um detalhe: o carro largou em 53º e terminou a corrida na 17ª posição na classificação geral, além de ser o 7º colocado na categoria. Nada mau para quem largou no fim do pelotão, com um carro remendado com silver tape.

De volta aos EUA, o Corvette teve os decalques da Ferrari removidos e recebeu uma pintura parecida com a do The Rebel. Foi assim que ele participou das 24 Horas de Daytona de 1973, terminando em 3º na classificação geral e 1º em sua categoria. Com a dianteira devidamente consertada, claro.

Não é o mesmo carro, mas um parente próximo. Dá para ter uma ideia do ronco, não?

Depois de trocar de mãos algumas vezes, o Corvette foi totalmente restaurado em sua configuração de Le Mans, incluindo os emblemas da Scuderia Ferrari. O motor foi totalmente refeito e, atualmente, entrega pouco mais de 500 cv. E agora, será leiloado pela RM Auctions durante o Concours D’Elegance de Pebble Beach em Monterey — um dos encontros de antigos mais importantes do mundo —, na Califórnia, que acontecerá entre os dias 13 e 15 de agosto. Estima-se que o Corvette arrecade algo entre US$ 1,4 milhão e US$ 2 milhões (ou seja, entre R$ 4,95 milhões e R$ 7 milhões). Sendo um dos Corvette mais raros do planeta, muito bonito e tendo competido pela Ferrari, certamente é um carro bem valioso.

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