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Este “Uno gigante” é na verdade um SUV de luxo com motor V8

Você certamente lembra que há alguns dias contamos a trajetória de Tom Tjaarda, o designer americano por trás dos Ford Maverick e Fiesta, do Fiat 124 e do De Tomaso Pantera, que morreu no último dia 1º de junho. O homem também deixou para trás dezenas de outros projetos em sua longa carreira, que começou em 1959 e se estendeu até meados da década de 2000. Alguns foram one-offs baseados em modelos existentes, enquanto outros foram projetos para companhias menores.

Entre estes últimos, um veículo em especial chamou nossa atenção: o Rayton-Fissore Magnum. Mas pode chamar de “Fiat Uno gigante”, como a foto que abre este post deixa bem evidente. É ou não é?

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Talvez você só conheça o nome Fissore graças ao DKW Fissore, modelo que foi o último lançado pela marca brasileira antes de ser incorporada (e extinta) pela VW no Brasil. Ele tem este nome porque foi a companhia italiana Carrozzeria Fissore que o desenhou. Além da DKW, entre seus clientes podemos citar também a britânica TVR e a própria De Tomaso, cujo Vallelunga teve estilo assinado pela Fissore.

A suíça Monteverdi, que construía grand tourers de luxo com motor V8 Chrysler, contratou os serviços da Fissore nos anos 1970, e garantiu sua sobrevivência até 1984, quando ambas as companhias fecharam as portas por dificuldades financeiras. Rayton-Fissore é o nome da empresa fundada em 1976 por Fernanda Fissore, filha de Bernardo Fissore, um dos fundadores da Fissore original; e por seu marido, Giulio Malvino, pois ambos queriam seguir no ramo das carrozzerias de forma independente.

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No fim da década de 1970, a Rayton Fissore trabalhou com projetos de carroceria para outras fabricantes, em especial Fiat e Alfa Romeo, que tiveram projetos como o Fiat Ritmo conversível e o Alfa Romeo 75 station wagon. Nos anos 1980, Tom Tjaarda foi contratado e teve como um de seus primeiros projetos o Seat Ronda, uma versão rebatizada do próprio Fiat Ritmo vendida na Espanha entre 1982 e No entanto, a ideia era fabricar automóveis com sua própria marca. Isto só foi acontecer mesmo na década seguinte, com o lançamento do Rayton Fissore Magnum.

Trata-se de um daqueles projetos obscuros quase sem referências na era da Internet, conhecidos por quase ninguém, mas nem por isso menos interessantes. Criado com fins militares, o utilitário usava como base o Iveco VM 90, uma espécie de furgão blindado produzido pela divisão de utilitários da Fiat nos anos 1980, utilizando um chassi mais curto. Era um veículo bastante simples, com teto de lona e interior bastante espartano, feito para locomoção em terrenos difíceis em missões de baixo risco.

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Ele foi apresentado em julho de 1984, equipado com o mesmo quatro-cilindros turbodiesem de 2,45 litro de 110 cv usado pelo Iveco Daily/Fiat Ducato de primeira geração, e acabou descartado como veículo militar em um primeiro momento. No entanto, a Rayton Fissore viu nele a possibilidade de criar um utilitário de luxo feito para uso civil, mas ainda capaz de enfrentar uma boa trilha – algo na pegada do primeiro Range Rover, sua principal referência. A suspensão usava eixo de torção na dianteira e eixo rígido com feixe transversal de molas semi-elípticas na traseira.

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A carroceria projetada por Tom Tjaarda usava as linhas básicas do protótipo militar, o que é perceptível principalmente pelo formato das portas, mas de modo geral, o resultado acabou bastante parecido com um Fiat Uno de quatro portas e proporções gigantescas, especialmente da coluna C para trás: o formato das janelas e do vigia traseiro, o desenho da tampa do porta-malas, os para-choques e até mesmo as lanternas, que podem parecer idênticas às do primeiro Uno aos mais desavisados. A dianteira é razoavelmente diferente, afinal… nem tudo é perfeito, não é?

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Brincadeiras à parte, o Rayton Fissore Magnum era no mínimo interessante. E, para sua proposta, não estava mal em termos de mecânica e acabamento interno. O design do interior era simples e, como o exterior, abusava das linhas retas, mas era harmônico e bem resolvido, e o acabamento incluía couro italiano e madeira no painel.

Além do motor turbodiesel da Iveco, o Magnum também podia vir com um quatro-cilindros Fiat supercharged de dois litros e 138 cv, ou um V6 Alfa Romeo de 2,5 litros e 160 cv. Em qualquer caso, o câmbio era manual de cinco marchas e levava a força para as quatro rodas.

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O Magnum foi atualizado em 1988 e ganhou, além de uma nova grade dianteira, de visual mais limpo, novos motores – incluindo um seis-cilindros BMW de 3,4 litros, o M30 usado no Série 6 E24, capaz de entregar até 210 cv.

Foi neste mesmo ano que ele passou a ser vendido nos Estados Unidos, rebatizado como Rayton Fissore Laforza. No casola forza de um V8 Ford igual ao utilizado no SUV Explorer, de 187 cv. O maior peso do motor 5.0 exigiu modificações na estrutura, com travessas reforçadas, e a adoção de uma caixa automática de cinco marchas com reduzida. Pequenas modificações estéticas na dianteira foram promovidas, e os revestimentos de porta e console central foram redesenhados para o modelo americano.

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Feito artesanalmente, o Laforza era um SUV caro e de baixo volume de produção. Por isto, as atualizações no projeto foram poucas: em 1995, foi adotado o motor 5.0 com injeção sequencial do Ford Mustang GT, além do V8 de 5,8 litros usado nas picapes F-Series – este último, com a opção por um supercharger Kenne Bell, que levava sua potência aos 320 cv. Já em 1999, um V8 de seis litros da Chevrole, que podia ser naturalmente aspirado (325 cv) ou sobrealimentado por um compressor Eaton (455 cv), e transmissão automática de quatro marchas (também com reduzida) passou a integrar a linha, que foi extinta em 2003.

Na verdade, nos é meio que um mistério o modo como a Rayton Fissore seguiu produzindo o Magnum/Laforza até a década passada. Além de ser um projeto ultrapassado (ainda que bastante charmoso, especialmente para os apreciadores de veículos “renegados”), o SUV não surgiu em um ambiente muito saudável, do ponto de vista administrativo: sua fabricante declarou falência em 1989 e transferiu todo seu patrimônio ao empresário Gregorio Maggiali. Este, por sua vez, foi preso por lavagem de dinheiro em 1991, devolvendo o controle da companhia a Fernanda Fissore e Giulio Malvino em 1992.

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O próprio Malvino foi processado, ainda naquele ano, por sonegação de impostos e outros crimes fiscais, situação que o forçou a abandonar a Rayton Fissore em 1997. A empresa foi, então, parar nas mãos de um grupo de investidores chamado Laforza Automobiles, que cuidou da produção do Magnum até 2003.

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