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Car Culture

GT90: o sucessor do Ford GT40 que o mundo não teve

Na história da Ford no automobilismo, sem dúvida o GT40 está em um dos lugares mais altos — afinal, foi ele quem quebrou a hegemonia da Ferrari com quatro vitórias seguidas nas 24 Horas de Le Mans (1966-1969). Ele era tão fodástico que, em 2005, a Ford fez um supercarro moderno para homenageá-lo e o visual era muito, muito parecido — isto sem falar nas incontáveis réplicas que são feitas até hoje. Só que, dez anos antes do GT, a Ford brincou com a ideia de um sucessor espiritual para o GT40 — o conceito GT90.

Fazia três décadas que o Ford GT40 havia feito história, e o Salão de Detroit de 1995 viu um carro que, embora a Ford dissesse que era inspirado nele, tinha pouca coisa em comum com o tetracampeão de Le Mans fora o fato de ter motor central-traseiro, portas que avançavam sobre o teto e a silhueta de perfil.

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Era preciso um pouco de imaginação, claro

O visual, cheio de cortes abruptos, linhas retas e triângulos, foi a primeira demonstração da filosofia de design New Edge, que foi a identidade visual da Ford pelo resto da década de 1990 e começo dos anos 2000, e foi visto pela primeira vez em um carro de produção em 1996, com o lançamento do Ford Ka. Focus de primeira geração, Mondeo e até o facelift do Mustang de quarta geração, entre outros, também aderiram à filosofia de design.

Mas o visual ousado — que até arriscamos dizer que não pareceria tão deslocado se tivesse sido apresentado no Salão de Detroit de 2014 (pois é, dá para acreditar que este carro tem 19 anos?) — não era a única qualidade do GT90. Ele também tinha um motor V12 de seis litros que, com a ajuda de quatro turbocompressores Garrett T2 (quadriturbo antes do Veyron!), entregava 730 cv e 91,2 mkgf de torque.

 

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Era o bastante para acelerar até os 100 km/h em três segundos, com máxima estimada em 378 km/h. O motor era totalmente novo, baseado na arquitetura dos V8 Modular, e tudo indica que o projeto deu origem aos atuais motores dos Aston Martin — marca que, na época, pertencia à Ford.

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Quem também pertencia à Ford em 1995 era a Jaguar, e foi a marca britânica quem cedeu a plataforma e o sistema de suspensão — independente por braços sobrepostos do tipo “duplo-A” na dianteira e na traseira —, vindos do XJ220, um dos supercarros mais legais de todos os tempos. O chassi era do tipo colmeia com monobloco de alumínio, e vários painéis da carroceria eram de fibra de carbono, em um esforço para manter o peso baixo. O GT90 pesava 1.451 kg. O câmbio manual de cinco marchas também vinha do XJ220.

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O resultado, como era de se esperar, era um carro muito rápido em linha reta e soberbo em dinâmica — sim, era um carro 100% funcional e agradou até Jeremy Clarkson, conhecido por sua capacidade de adorar um carro e detestá-lo ao mesmo tempo. Ele não teve críticas ao GT90; na verdade, ele disse que o carro era “uma prova de que o céu é um lugar na terra” — nada mau para um projeto que levara apenas seis meses para passar de esboço a um carro finalizado.

Conta-se que, durante o Salão de Detroit de 1995, a Ford havia dado a entender que o GT90 seria eventualmente produzido — e a boa recepção do público provava que ele seria muito bem vindo. Mais tarde, o carro teve a potência reduzida para 400 cv — os engenheiros responsáveis pelo projeto temiam pela durabilidade do motor sendo usado em toda sua capacidade — e continuou sendo testado pela imprensa automotiva. John McCormick, da revista Motor Trend, testou o carro depois disso e disse que, mesmo menos potente, o GT90 continuava sendo um carro muito rápido e de excelente manejo.

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O interior também era muito ousado, repetindo as formas angulares do lado de fora e quase todo forrado com o couro mais azul do mundo (ao menos esta é a impressão que fica). Imaginamos que uma suposta versão de produção tivesse um visual mais comportado tanto do lado de fora quando por dentro, mas ainda no fim daquele ano a Ford admitiu que a intenção de dar sequência ao projeto sequer havia existido. Ficamos tristes por isso — não nos entenda mal, o Ford GT é um dos nossos carros favoritos no mundo todo, mas realmente seria incrível ver este carro nas ruas de tempos em tempos. E não somos os únicos — o GT90 é um dos conceitos mais lembrados pelos entusiastas.

Se quiser mesmo, porém, você pode sentir um pouquinho do que era pilotar o GT90 — o carro foi licenciado para aparecer em uma porção de games de corrida, como Gran Turismo 2 (e suas sequências), Need for Speed II (era o carro favorito de muita gente no jogo) e o clássico esquecido Project Gotham Racing, entre outros. Não é a mesma coisa, mas é alguma coisa, não?

[ Sugestão do leitor Math ] 

 

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