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História

A história fracassada da Subaru na Fórmula 1

A Subaru é conhecida por seus motores boxer que, turbinados ou não, fazem a alegria de milhares e milhares de fãs pelo mundo todo. Contudo, há quase 25 anos, eles se aventuraram na mais alta categoria do automobilismo: a Fórmula 1. Só que, diferentemente da maioria das histórias que contamos aqui, esta não é uma história de sucesso.

Para entender o que era a Subaru na Fórmula 1 na década de 90, porém, é preciso entender o que era a Enzo Coloni Racing Car Systems, uma equipe tão bem sucedida na F1 quanto seu nome truncado pode sugerir. “Car Systems”? Como sistemas de som e ar-condicionado? Não parece um nome de equipe vencedora.

A Enzo Coloni foi fundada em 1983 por um homem chamado Enzo Coloni (sério?), ex-piloto italiano que competiu na Fórmula 3 nas décadas de 70 e 80, e até venceu o título da categoria em 1982. Talvez a sensação de dever cumprido como piloto o tenha inspirado a fundar sua própria equipe, mas nunca saberemos.

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Gozando de relativo sucesso nos anos seguintes na Fórmula 3 e na Fórmula 2, em 1986 a Coloni migrou para a Fórmula 3000. Desta vez as coisas não foram muito bem, mas isto não impediu Enzo Coloni de tentar a sorte na Fórmula 1 no ano seguinte. E foi aí que as coisas realmente começaram a descer a Eau Rouge de ré com o câmbio quebrado.

O anúncio de que a Fórmula 1 abandonaria os turbos (ficando mais barata) a partir de 1989 era o que faltava para que Enzo decidisse correr o risco. Acontece que a Coloni é reconhecida como uma das piores equipes da Fórmula 1 — a falta de recursos humanos, financeiros e técnicos nunca permitiu que a equipe explorasse seu potencial (ou descobrisse se existia um potencial). Entre 1987 e 1991, período em que esteve na F1, a Coloni tentou se classificar para 82 corridas mas só conseguiu, de fato, participar de 14 delas — e não marcou nenhum ponto.

E como a Subaru, uma das grandes fabricantes de automóveis do mundo e tradicionalíssima no WRC, foi se meter em uma fria dessas?

Uma mão lava a outra

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Depois de três temporadas fracassadas (uma das quais teve até um piloto brasileiro, Roberto Moreno), a Coloni parecia ter encontrado uma luz no fim do túnel. A Subaru queria entrar na Fórmula 1 e precisava de um carro para testar seu novo motor e, caso fizessem sucesso, quem sabe aumentar as vendas de carros. A Coloni era a equipe perfeita — sem recursos e sem fama, o que ajudaria todos a esquecer de tudo rapidinho caso a parceria fosse um fracasso (esta última parte é uma suposição nossa, mas faz muito sentido). A Subaru comprou 51% da Coloni, pagou todas as dívidas e fez dela a cobaia para seu novo motor.

Como era de se esperar, o motor era um boxer, mas com 12 cilindros e 3,5 litros. E certamente ele roncava bonito. Mas ele não era um bom motor — nada confiável e relativamente fraco: seus cerca de 500 cv o deixavam atrás dos motores V10 e V12 de Honda e Ferrari, que chegavam perto dos 700 cv.

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V6 turbo da Minardi, 1985

Acontece que este motor não tem muito a ver com a Subaru além do fato de ser um boxer. Ele foi projetado por um italiano chamado Carlo Chiti. Ele e sua companhia, a Motori Moderni, já haviam projetado motores para a F1 antes — a Minardi usou seus V6 turbinados entre 1985 e 1988, sem resultados expressivos e até chegou a experimentar o boxer de 12 cilindros, mas o achou fraco demais.

Por alguma razão a Subaru acreditou no potencial daquele boxer de 12 cilindros. A Coloni-Subaru deveria estrear no GP dos EUA naquele ano, porém o carro não ficou pronto antes de a Fórmula 1 chegar a Phoenix, Arizona, para a corrida no circuito de rua. O Coloni C3B foi montado pela primeira vez com o motor Subaru nos boxes de Phoenix, assim que a equipe chegou à cidade, e tudo o que eles fizeram foi uma curta sessão de treino particular, durante a qual foi constatada a inferioridade do motor — que, além de fraco, precisava empurrar um carro 300 kg mais pesado do que a média e com aerodinâmica defasada.

 

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A situação se repetiu por toda aquela temporada — o piloto Bertrand Gachot, contratado pela Coloni naquele ano, não conseguia nem mesmo pré-qualificar a equipe. Como é de se imaginar, os poucos funcionários não tinham motivação alguma para trabalhar a sério no carro, que recebeu pouquíssimas melhorias. Depois de, sem sucesso, pressionar Enzo Coloni por resultados, a Subaru decidiu abandonar a F1, e vendeu sua parte da Coloni de volta a seu fundador — sem dívidas, mas também sem patrocinadores ou motores.

Para a temporada seguinte, Coloni conseguiu um contrato para o fornecimento de motores Ford-Cosworth e realizou algumas melhorias mais profundas no carro (o mesmo C3B), mas nada disso foi suficiente para que Gachot conseguisse classificar o carro para as corridas. Já a Subaru, bem, não precisamos explicar muito. Ela lançou o Impreza WRX em 1992 e se consagrou de vez nos carros de rali para as ruas.

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Por isso, não se empolgue quando vir a foto de um belo motor de 12 cilindros com o nome “Subaru” estampado nas tampas de válvulas. Ele é bonito, mas era uma porcaria.

Este é um dos únicos registros em vídeo do Coloni-Subaru que se pode encontrar hoje na internet. São alguns segundos de um ronco de motor bonito, mas que certamente está calado para sempre.

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