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Car Culture

Mazda Rotary Sports: a evolução dos esportivos RX

Já faz anos que se fala em um possível sucessor para o Mazda RX-8, o último modelo da fabricante japonesa a usar o lendário motor rotativo Wankel, que saiu de linha em 2012. Inúmeros boatos já circularam, e a própria Mazda nos provoca com esta ideia de tempos em tempos.

Como você deve ter visto no Zero a 300 de hoje, porém, desta vez há algo mais concreto: a Mazda anunciou um novo motor Wankel, e não há nada que invalide a possibilidade de ele ser utilizado em um novo modelo híbrido/elétrico, possivelmente como extensor de autonomia (preferimos não alimentar expectativas mais ousadas, ao menos por ora). E há quem acredite que, finalmente, teremos um Mazda RX-9.

Esta, portanto, é uma boa hora para relembrar a trajetória dos Mazda RX, que remonta à década de 1970 – e já encantava os entusiastas com o ronco estridente do motor Wankel. É uma história mais complexa do que parece, pois os primeiros Mazda RX não eram modelos separados, mas sim versões de outros carros da fabricante. É hora de esclarecer esta história.

 

Mazda RX-2, o primeiro

O primeiro Mazda esportivo com Wankel foi o belíssimo Mazda Cosmo, lançado em 1967 e equipado com o impressionante 0810, de apenas 984 cm³ (menor que o motor de um popular 1.0!) e 110 cv – que parecem pouco mas, como o Cosmo só pesava 940 kg, era o bastante para levá-lo até os 185 km/h.

Acontece que o Mazda Cosmo era uma espécie de halo car – um esportivo caro, luxuoso e bem construído, criado para mostrar o potencial do Wankel. Uma vez que sua missão foi cumprida, ele deixou de ser fabricado – em 1972, com um total de 1.176 unidades. Depois disto, a Mazda decidiu criar um esportivo com motor Wankel para as massas.

O resultado foi o RX-2, uma versão com motor Wankel do simpático Mazda Capella, modelo de tamanho intermediário (maior que o pequeno Mazda Familia, porém menor que o Mazda Luce) lançado em 1970. Normalmente o Mazda Capella vinha equipado com motores quatro-cilindros de 1,5 ou 1,6 litros, com potência de 92 cv ou 100 cv, respectivamente. Opcionalmente, porém, era possível comprar um exemplar com o motor Wankel 12A. No Japão, esta versão se chamava Capella Rotary, mas nos mercados externos seu nome era Mazda RX-2.

O motor 12A, como o nome indicava, deslocava 1,2 litro. Contudo, por sua maior eficiência energética, ele era o mais potente dos motores disponíveis para o Capella – eram 115 cv e 16 kgfm, moderados por uma caixa manual de quatro marchas, e suficientes para levar o carro de zero a 100 km/h em 10,6 segundos, com máxima de 186 km/h. Na África do Sul havia uma versão ainda mais forte, montada localmente, com 132 cv.

O Mazda Capella de primeira geração foi vendido entre 1970 e 1978. De todas as cinco gerações que o Capella teve, apenas a primeira foi vendida com motor Wankel e com o nome RX-2.

 

Mazda RX-3, o pequeno prodígio

Como dissemos mais acima, o Mazda Familia era o menor modelo da fabricante na década de 1970. Ele ganhou o motor Wankel em 1971, em uma versão que se chamava Savanna no mercado interno, e RX-3 nos mercados de exportação. O Mazda RX-3/Savanna era vendido como cupê, sedã ou perua, o que por si só já o torna interessante.

Os motores com pistões podiam ter deslocamento de 1,3, 1,5 e 1,6 litro, com potência que variava entre 70 cv e 100 cv, dependendo do tamanho do motor, e do país onde o carro era vendido. O motor Wankel, por sua vez, foi vendido em diferentes variações, sempre com dois rotores: no Japão ele tinha o motor 10A, com 982 cm³ e 105, cv; já nos EUA, ele usava o mesmo motor 12A de 115 cv do Mazda RX-2.

Em 1973, o motor 12A passou a ser usado em todos os mercados, com um novo distribuidor e 130 cv – suficientes para levá-lo de zero a 100 km/h em 10,8 segundos.

O Mazda RX-3/Savanna cupê foi o mais popular, e a fabricante percebeu isto – não demorou para que a fabricante desse a ele uma dianteira exclusiva, mais agressiva, com um spoiler protuberante; e também lanternas exclusivas. Ele tornou-se um esportivo bastante querido por seu porte reduzido, seu estilo e, claro, o desempenho do motor rotativo. No entanto, em 1978 o RX-3 foi substituído por um novo Savanna: o RX-7. Mas a gente já vai chegar lá.

 

Mazda RX-4, o esporte-fino

O Mazda Familia era o modelo pequeno da família. O Capella era o modelo médio. Acima deles, havia o Mazda Luce. Já em 1969, na sua primeira geração, ele deu origem a um cupê equipado com motor Wankel de 1,3 litro, o 13A, com 128 cv e 17,5 kgfm. O chamado R130 foi fabricado entre 1969 e 1972, com menos de 1.000 unidades, e foi o único carro feito pela Mazda com motor Wankel e tração dianteira.

Mas o R130 não era um RX – este só veio na segunda geração do Luce, em 1972. Novamente, ele foi batizado como RX-4 somente nos mercados de exportação, sendo chamado apenas Luce Rotary no Japão. A proposta da fabricante era fazer dele um personal luxury car – termo que, nos países anglófonos, geralmente refere-se a um cupê com pegada esportiva, interior bem equipado, e acabamento luxuoso. Isto posto, o RX-4 também era vendido como perua e sedã.

Os motores disponíveis eram dois: o 12A, com 120 cv; e o 13B, com 135 cv. Este era capaz de levar o RX-4 de zero a 100 km/h em 11,7 segundos. O restante do carro era simples, comum até, porém bem resolvido: suspensão MacPherson na frente com eixo rígido atrás; e freios a disco na dianteira e a tambor na traseira. Bem acertado, o RX-4 foi considerado o melhor sedã esportivo à venda nos EUA em 1975 pela revista Road and Track.

Assim como o RX-3, o RX-4 saiu de cena em 1978 para a chegada do primeiro RX-7. No entanto, o Mazda Luce continuou sendo fabricado por mais três gerações até 1991, quando deixou o mercado definitivamente.

 

Mazda RX-5, o herdeiro do Cosmo

O Mazda Cosmo original foi o primeiro Mazda com motor Wankel, e era um dos mais belos carros de seu tempo. E ele era tão marcante que é fácil esquecer que ele teve outras gerações – incluindo um belo cupê com faróis escamoteáveis na década de 1980, e o incrível Eunos Cosmo, grand tourer com o motor do RX-7 fabricado entre 1990 e 1996.

No entanto, o que nos interessa é o Cosmo de segunda geração, lançado em 1975. Mais especificamente, sobre o RX-5 – que, como nos demais carros vistos até agora, era a versão com motor Wankel vendido fora do Japão.

Ele usava os mesmos motores do RX-4, ou seja, o 12A de 120 cv e o 13B de 135 cv, mas era um carro maior e mais caro. E também mais pesado, por conta dos equipamentos oferecidos, como freios traseiros a disco e suspensão traseira independente, do tipo multilink.

Diferentemente dos outros carros que mencionamos, o RX-5 não fez tanto sucesso nos EUA, onde a concorrência local era mais forte. No Japão, porém, ele foi extremamente popular, com mais de 55.000 unidades produzidas.

O Mazda Cosmo com motor de pistões reciprocantes foi produzido até 1981. A versão com motor Wankel, porém, deixou o mercado em 1978 para dar lugar ao RX-7. Notou o padrão?

 

Mazda RX-7, o ícone

O Mazda RX-7 original, lançado em 1978, substituiu três carros de uma vez – o RX-3, o RX-4, e o RX-5. No Seu nome também era Savanna no Japão, herança do RX-3. O nome RX-7 foi usado apenas para o mercado externo.

O primeiro RX-7 era um carro bem diferente de seus antecessores, com formas mais retilíneas e modernas, mais adequadas à então iminente década de 1980. Ele tinha capô longo, dianteira baixa, faróis escamoteáveis e para-choques de metal pintados na cor da carroceria. No entanto, do capô, o motor continuava sendo o 12A, Wankel de dois rotores de 1,2 litro e 100 cv.

Em 1983, foi lançado o RX-7 Turbo – o primeiro Wankel sobrealimentado feito pela Mazda. O motor 12A turbinado tinha 165 cv, e era capaz de levar o esportivo de zero a 100 km/h em 8,7 segundos, com máxima superior a 200 km/h. O RX-7 de primeira geração foi fabricado até 1986. Foram vendidas mais de 470.000 unidades, sendo que mais de 80% delas foram emplacadas nos EUA.

A segunda geração, que foi a última a usar o nome Savanna no Japão, era um carro mais refinado e verdadeiramente oitentista, com inspiração assumida no Porsche 924 – que era um sucesso nos Estados Unidos. As maiores novidades, porém, eram mecânicas, com suspensão traseira multilink, direção com pinhão-e-cremalheira (no lugar das esferas recirculantes da primeira geração), e o motor passou a ser o 13B, que podia ser naturalmente aspirado, com 150 cv; ou turbinado, com 185 cv. Além disso, a suspensão traseira ganhou buchas especiais, que conferiam esterçamento passivo na traseira, e amortecedores eletrônicos ativos.

 

Houve poucas mudanças no RX-7 de segunda geração, sendo que a mais importante delas foi o aumento na potência das duas versões em 1988: o motor naturalmente aspirado chegou aos 160 cv, enquanto o turbo vinha com 215 cv. O RX-7 Mk2 teve mais de 272 mil unidades fabricadas até 1992.

Na terceira geração, que chegou no mesmo ano – e finalmente passou a se chamar RX-7 também no Japão – a Mazda promoveu uma revolução. As linhas ecoavam de forma extremamente sutil a geração anterior, mantendo as proporções gerais e elementos como os faróis escamoteáveis. Porém, o carro era visivelmente maior, e as linhas retas deram lugar a curvas por toda parte, incluindo do lado de dentro. A qualidade de construção e acabamento era visivelmente superior – o novo RX-7 era um esportivo mais potente, mais tecnológico e mais caro.

A grande novidade era o motor, chamado 13B-REW, que tinha dois turbocompressores sequenciais da Hitachi – ele foi o primeiro japonês produzido em série com esta característica. Inicialmente com 255 cv, o 13B-REW passou por aumentos consecutivos na potência até chegar aos 280 cv no RX-7 Type RS, lançado em 1998 (na prática eram mais de 300 cv, mas o acordo de cavalheiros que vigorava entre as fabricantes japonesas naquela época limitava a potência a ser divulgada) e capaz de acelerar até os 100 km/h em menos de seis segundos.

A quarta geração do Mazda RX-7 oi largamente elogiada pela imprensa especializada de sua introdução a seu encerramento, quando a Mazda decidiu que era hora de colocar no topo da linha um esportivo mais prático e polivalente.

 

Mazda RX-8, o renegado

E foi assim que nasceu o Mazda RX-8, fabricado entre 2003 e 2011. Ele era um carro completamente diferente, com carroceria de quatro portas (sendo que as portas traseiras eram pequenas “suicidas”, abrindo para trás), mas obviamente era movido por um motor Wankel. No entanto, os mais conservadores não o consideram um sucessor de verdade para o RX-7. O que é uma pena pois, apesar do desenho inusitado, ele foi projetado por Ikuo Maeda – ninguém menos que o filho de Matasaburo Maeda, designer do primeiro RX-7.

Além disso, o RX-8 fazia por merecer seu nome com o que tinha debaixo do capô: o motor RENESIS 13B-MSP, que tinha versões de 194 cv ou 248 cv. O primeiro podia vir com câmbio manual de cinco marchas ou automático de quatro marchas, enquanto o segundo só estava disponível com câmbio manual de seis marchas.

O RX-8 mais potente era capaz de ir de zero a 100 km/h em menos de sete segundos – sim, ele era mais lento que o RX-7, mas seu desempenho pode ser descrito como qualquer coisa, menos como “sem graça”. Ele tinha suspensão dianteira por braços triangulares sobrepostos, eixo traseiro multilink, e tração só nas rodas de trás. E seu estilo, francamente, não é dos piores.

Mas, apesar de tudo isto, o RX-8 não conquistou os entusiastas da mesma forma. Quer dizer, ele foi vendido por oito anos e teve mais de 190.000 unidades produzidas, mas não alcançou o mesmo status de ícone que o RX-7.

Ele acabou saindo de linha em 2011 porque o motor Wankel, por mais sonoro e potente que fosse, ainda consumia combustível demais – e não conseguiu passar nos testes de emissão de poluentes. Por isso a Mazda interrompeu a produção de novos esportivos com motor rotativo, em um hiato que dura até hoje – mas talvez acabe em breve.