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Melhorando a perfeição: os incríveis Jaguar E-Type restomod da Eagle

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Continuando nossa série sobre os melhores restomods, chegamos à britânica Eagle e seu difícil trabalho de melhorar um dos carros mais icônicos da história, o Jaguar E-Type.

A empresa surgiu em 1984, fundada pelo piloto Henry Pearman. No início, eles restauravam o Jaguar E-Type — modelo favorito de Pearman —, mas não demorou para que a companhia desenvolvesse seu próprio conjunto de melhorias e se tornasse referência mundial em restomods do E-Type em pouco tempo. Porque, acredite, há muito o que melhorar no “carro mais bonito do mundo”.

Em 1988, Henry foi convidado a participar do Pirelli Classic Marathon — o primeiro rali de longa duração realizado na Europa, e consistia em percorrer 2.000 milhas (3.218 km) pelo continente em pouco mais de uma semana. Foi até tema de documentário — The Great Chase, da BBC.

Henry, naturalmente, foi com um Jaguar E-Type 4.2 preparado às pressas, mas conseguiu chegar em segundo lugar em sua classe, e em quinto na classificação geral. No ano seguinte, ele competiu com o mesmo carro, mas desta vez com uma preparação mais dedicada. Resultado? Ele venceu a corrida, chegando na frente de nomes como Sir Stirling Moss, Timo Makinen e Roger Clark.

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Alguma coisa ele estava fazendo da maneira certa, e por isso decidiu expandir a atuação de sua companhia para mais do que apenas a restauração do Jaguar E-Type — ele também passou a vender as melhorias que fazia nos carros. Ele procurou Paul Brace, que havia competido na Pirelli Classic Marathon em 1988 e chegado logo atrás de Pearman com um Porsche 911 clássico. Ambos já eram amigos havia algum tempo, e Paul Brace hoje é diretor técnico da Eagle.

O grande passo na criação da Eagle como a conhecemos hoje aconteceu em 1991, quando o escritor John McLaren procurou os serviços de Pearman para restaurar seu E-Type. Ele adorava o carro, mas não era muito fã da baixa confiabilidade do E-Type, que impedia que ele aproveitasse ao máximo o potencial do carro. Por esta razão, seu daily driver era um Skyline GT-R, e ele não estava muito contente com isto.

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McLaren pediu a Pearman que mantivesse a aura clássica do E-Type, mas desse a ele a capacidade de ser um carro confiável e confortável tanto no dia-a-dia pela cidade quanto em um passeio animado pelos Alpes italianos. Pearman aceitou o desafio, e assim nasceu o Eagle E-Type nº1.

Depois de pronto, o carro foi levado para uma exposição de clássicos e, imediatamente, despertou o interesse de muita gente. A Eagle recebeu muitas encomendas, e Pearman decidiu criar duas divisões para a Eagle: a primeira, responsável por restaurar e vender E-Types mantendo o máximo de originalidade possível. A segunda, feita para modificar os carros a pedido dos clientes. A Eagle diz que a grande maioria opta pelas modificações, mas que ainda há um mercado para os clássicos originais, e por isso a divisão não foi desativada.

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Segundo o site da companhia, até hoje foram feitos 36 Eagle E-Type, entregues no mundo todo: Austrália, EUA, Alemanha, Grécia, Malásia, Argentina e o próprio Reino Unido — e as encomendas nunca param de chegar.

Mas qual é o grande atrativo destes carros? Primeiro, é preciso entender que a Eagle oferece dois tipos de restomod.

O primeiro, o Eagle E-Type, mantém a carroceria original e a aparência fiel à do carro lançado em 1961. Contudo, uma infinidade de melhorias é oferecida — você pode simplesmente dar ao seu E-Type um padrão de desempenho, conforto e confiabilidade mais atual, ou virar a mesa e fazê-lo andar ao lado de supercarros. Depende de quanto você está disposto a gastar.

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Todo Eagle E-Type começa a vida como um E-Type original oferecido pela Eagle — a companhia deixa claro que só trabalha com carros vendidos por eles. Escolhido o carro, a primeira coisa a fazer é desmontá-lo e reparar qualquer componente danificado na carroceria. Só o trabalho de restaurar a carroceria e reforçá-la pode levar até 1.500 horas, e o futuro dono acompanha o processo desde o início. A carroceria então é pintada e recebe o acabamento mais caprichado possível, e no meio do processo é tratada com o que há de mais atual em anti-corrosão — mais uma vez, na cor escolhida pelo cliente.

É depois daí que o Eagle E-Type “nasce”: o cliente determina se quer um carro o mais original possível ou se quer modificá-lo. A maioria fica com a segunda opção.

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São oferecidos três níveis de modificações. O “Classic Upgrade” consiste em melhorar pontos críticos do E-Type original. Sendo assim, o carro ganha um novo sistema de ignição, desenvolvido e calibrado pela própria Eagle, além de uma bomba de combustível eletrônica, sistema de arrefecimento melhorado com seis ventoinhas e toda a parte elétrica (incluindo os comandos) refeita do zero. O E-Type também ganha freios atuais e amortecedores Koni, além de rodas com seis polegadas de tala, calçadas com pneus radiais modernos. Por fim, o escapamento original é trocado por um sistema de aço inox, e a dianteira ganha faróis mais potentes.

O próximo nível é o “Grand Touring”. O carro ganha modificações leves no motor, além de um sistema elétrico e de ignição ainda melhor. As molas da suspensão são retrabalhadas, e o conjunto recebe barras estabilizadoras. Também são melhoradas a direção, o sistema de arrefecimento e os freios. A Eagle diz que o carro fica mais firme, a direção, mais reponsiva e a distância de frenagem diminui consideravelmente. O carro também ganha um novo câmbio de cinco marchas desenvolvido pela própria Eagle.

Depois vem o nível “Sports Touring”. O foco aqui também é melhorar a dinâmica e a ergonomia do carro, revisando a geometria da suspensão e da direção. Além disso, o carro ganha novos bancos (mais uma vez, desenvolvidos in-house), sistema de ignição remapeado exclusivamente para o carro, comandos de válvulas mais agressivos e cabeçote retrabalhado. O sistema de arrefecimento é ainda mais eficiente, bem como os freios.

A partir daí, as modificações podem ir além, e dar ao E-Type desempenho de supercarro. Entre as opções disponíveis estão sistemas de alarme e entretenimento (devidamente escondidos), direção elétrica progressiva, motor com cilindrada ampliada para 4,7 litros, reprogramação personalizada da ECU, câmbio com relações de marcha definidas pelo proprietário e eixo traseiro de alumínio, ou até mesmo magnésio.

Depois, o carro é montado e passa por uma exaustiva bateria de testes para garantir que o dono o leve para casa no auge da performance. O processo todo leva até 4.000 horas.

Caso o dono opte por upgrades mais extensos, talvez seja uma ideia melhor partir para o Eagle Speedster — o segundo tipo de restomod.

Jeremy Clarkson disse que este carro é a coisa mais bonita que ele já viu na vida. Que é absolutamente perfeito. Que ele nunca quis tanto um carro como este. E dá para entender o porquê. Ian Callum, o diretor de design da Jaguar, disse que, se fosse comprar um E-Type — ou melhor, se fosse fazer um E-Type, ele seria como o Speedster.

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Com o Speedster, a Eagle pegou o E-Type e realizou nele modificações desenvolvidas durante décadas. O carro foi um pedido do californiano Rick Velaj, que procurou a Eagle em 2002 querendo “algo especial”. Quando ele disse a palavra “Speedster”, Paul Brace pegou uma folha de papel e fez um rascunho que parecia um E-Type, mas tinha o para-brisa rebaixado e mais inclinado, soleiras mais altas, assoalho mais baixo e bitolas mais largas. De forma impressionante, o visual mais musculoso caiu perfeitamente ao E-Type — e, para alguns (incluindo Jeremy Clarkson), melhorou o carro. Inicialmente ele seria um único carro. Contudo, quando ficou pronto, o Speedster fez tanto sucesso que a Eagle teve que abrir encomendas.

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Assim como os E-Type de corrida dos anos 60, o carro tem carroceria de alumínio e um motor de seis-cilindros em linha de 4,7 litros. No Speedster, a usina entrega 350 cv — não parece muito, mas é o suficiente para que o Speedster chegue aos 100 km/h em 5 segundos com máxima de 260 km/h.

O Speedster é todo feito à mão usando os melhores componentes disponíveis — boa parte deles feita pela própria Eagle. O resultado é um carro que custa mais de £ 650 mil — ou R$ 2,47 milhões.

E ele nem é o carro mais absurdamente perfeito da Eagle — não mais. Recentemente, a Eagle anunciou o Low Drag GT.

Em 1962, o designer Malcom Sayer recebeu da Jaguar o pedido para reinterpretar o E-Type com linhas mais inspiradas nos carros de corrida — em especial, o D-Type. Com teto mais baixo, linha de cintura mais pronunciada e o caimento mais suave no teto, o carro consegue ser ainda mais atraente do que o E-Type original. Foi feito um único protótipo, mas alguns pilotos privados modificaram seus E-Type com as formas do Low Drag Coupé (nome oficial do protótipo).

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Se o original foi vendido para um piloto da Jaguar, a Eagle está, agora, oferecendo o Low Drag GT, que leva as mesmas modificações dos Speedster e dos Eagle E-Type mais caros, com as linhas do Low Drag Coupe de 1962. Sua característica mais mais marcante é o peso de 1.038 kg que, com 350 cv, garante a mesma relação peso-potência do Porsche 911 Turbo 991 — cerca de 2,9 kg/cv.

O Low Drag GT é ainda mais caro do que o Speedster, custando £ 695.000 (R$ 2,64 milhões), e começou a ser entregue no começo do ano. Em termos de restomod, talvez ele seja o ápice do que o dinheiro pode pagar.

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