A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
História

Mercedes 6.8 SEL “Red Sow”: a história do carro que colocou a AMG no mapa

Em 1971 uma equipe estreante chegou à Bélgica para as 24 Horas de Spa com um imenso e inusitado Mercedes-Benz 300 SEL vermelho, uma verdadeira limousine inscrita numa prova até então dominada por pesos leves como o Alfa GTA e o BMW CS. O povo desacreditou. Só que, durante 24 horas, o Mercedes-Benz 300 SEL 6.8 V8 “Red Pig” pilotado por Hans Heyer e Clemens Schickentanz superou quase todos os oponentes, conquistando o segundo lugar na primeira corrida de sua história. A ousada equipe que levou o “carro errado” chamava-se AMG.

Como todos sabemos, a AMG acabou tornando-se subsidiária da Mercedes-Benz em 1998, e hoje tornou-se a divisão esportiva da marca, projetando motores e modelos próprios. Eles também se tornaram campeões da Fórmula 1 em 2014, uma vez que a equipe chama-se Mercedes-AMG. Mas em 1971 a empresa era uma apenas desconhecida preparadora independente fundada pelos engenheiros Hans Werner Aufrecht e Erhard Melcher, que ainda precisavam conquistar seu espaço e para isso decidiram disputar as 24 Horas de Spa, na Bélgica.

1971+Mercedes-Benz+300+SEL+6.8+AMG+7

Na época o 300 SEL 6.3 V8 era o sedã mais potente e veloz produzido na Alemanha e acabou sendo o carro escolhido pela AMG. Erhard Melcher (o “M” da sigla AMG) trabalhou no V8 de 250 cv originais usando uma receita clássica para aumento de potência: comandos de válvulas retrabalhados com balanceiros modificados, bielas aliviadas, válvulas de admissão maiores, aumento da taxa de compressão, novos coletores de admissão, borboleta de corpo duplo e escape de competição. Radiador de óleo e virabrequim balanceado deveriam garantir a durabilidade ao longo das 24 horas. O resultado foi um aumento da cilindrada para 6,8 litros, 428 cv de potência e 60,7 kgfm de torque — números do S63 AMG de 2001!

amg-sls-rs-6582-Bearbeitet

O problema era que a banheira continuava pesando impraticáveis 1.830 kg. Para reduzir o peso, as portas originais de aço foram substituídas por outras de alumínio, e rodas de liga leve do protótipo C111 foram emprestadas pela própria Mercedes à AMG. Com isso o peso foi reduzido para 1.635 quilos que ainda era bem mais alto que o dos rivais, o que lhe rendeu o apelido de “Red Sow”, ou algo como Porca Vermelha. Contudo, depois de embalado, o suíno motorizado chegava à velocidade máxima de 265 km/h. Há mais de 40 anos!

 

amg-sls-rs-6522-Bearbeitet

A primeira grande surpresa aconteceu durante a classificação. Ninguém esperaria que, em meio a cupês esportivos europeus e americanos como o Ford Capri, o Alfa GTV, o Chevrolet Camaro e o BMW 3.0 CS, um Mercedes de quatro portas com madeira no painel, carpete no chão, direção hidráulica e suspensão a ar pudesse fazer o quinto melhor tempo entre 60 carros, largando ao lado de Niki Lauda, Peter Hoffmann e Hans Stuck.

amg-ge13

Já na corrida, Hans Heyer saltou para a terceira posição logo na primeira volta. Depois de 24 dramáticas horas de corrida, com dezenas de acidentes e abandonos e uma tempestade noturna, o 300 SEL 6.8 V8 AMG número 35 cruzou a linha de chegada em segundo lugar, completando exatas 308 voltas sem problemas mecânicos e com freios originais subdimensionados após o aumento de potência.

O público incrédulo agora estava definitivamente cativado pelo apetite do enorme V8 nas longas retas do traçado antigo de Spa-Francorchamps. Além do segundo lugar geral, contra uma concorrência com no máximo metade do seu peso, a AMG conquistou a admiração e um lugar entre as grandes preparadoras, dando origem à empresa e à linhagem de esportivos que todos conhecemos hoje.

mercedes_rote_sau_300sel_1971_24h_spa2

O 300 SEL 6.8 V8 AMG ainda correu algumas corridas de longa duração em 1971 e 1972, mas teve sua aposentadoria forçada em 1973, quando o regulamento limitou a cilindrada a cinco litros. O carro foi vendido aos franceses da Matra, onde foi usado para testes de alta velocidade de pneus aeronáuticos. O exemplar mostrado nas fotos é uma réplica construída pela AMG em 2006. Até hoje não se sabe o que aconteceu com o carro original.

 

Matérias relacionadas

Mitsubishi Eclipse: o cupê dos anos 90 que se tornou ícone da cultura import

Dalmo Hernandes

M1: os 40 anos do primeiro supercarro de motor central-traseiro feito pela BMW

Dalmo Hernandes

Elan M100: o único Lotus de tração dianteira

Marco Antônio Oliveira