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Car Culture

Motos e carros: quando os dois universos se encontram

Uma coisa que já observamos muitas vezes aqui no FlatOut é a aparente separação entre o mundo das motos e o mundo dos carros. Estranhamente, apesar de ambos serem veículos motorizados, que prezam pela excelência na engenharia e com forte apelo emocional, os fãs de carros e motos são como duas tribos separadas que não interagem muito entre si.

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Dois bons exemplos de quebra desta barreira vieram nos últimos dias. Primeiro, a Peugeot anunciou a intenção de colocar uma moto esportiva de baixa cilindrada, do tipo naked, no mercado – o que pode ser bem possível, já que existe um conceito e atualmente a Peugeot Motorcycles é controlada pela indiana Mahindra, que já investe em motos para o mercado local. Depois, a BMW anunciou sua primeira moto com a chancela da divisão Motorsport, a M 1000RR, baseada na S1000 RR.

Mas também existem fabricantes de carro que envolvem-se no mundo das motos de forma indireta, criando projetos one-off ou apoiando terceiros nesta empreitada. A seguir, separamos os exemplos mais notáveis, concentrando-nos nas divisões oficiais (como Peugeot e BMW) e projetos feitos pelas próprias fabricantes ou com seu apoio.

 

As motos da BMW Motorrad

Talvez a mais conhecida entre as fabricantes de carros que também fazem motos seja a BMW – e mais: ela é bem sucedida nas duas frentes. A divisão de motocicletas da marca, a BMW Motorrad, é tão tradicional nas duas rodas quanto sua contraparte automobilística. Sendo assim, acho até que demorou demais para que a empresa tenha colocado a letra M em uma máquina de duas rodas.

A BMW, como muitos aqui sabem, foi fundada em 1916 e começou fabricando motores para aviões. Contudo, com o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918 e o subsequente Tratado de Versailles, que impediu as empresas alemães de produzirem equipamentos militares, a BMW foi forçada a mudar de ramo. Assim, depois de migrar para a produção de motores estacionários e equipamentos de agricultura, foi questão de tempo até que a empresa começasse a produzir veículos. E, antes dos carros, vieram as motos: a primeira motocicleta da BMW, a R32, começou a ser produzida em 1922 e foi lançada no mercado em 1923.

Já o primeiro carro a ser vendido com a marca BMW sequer era produzido por eles – foi o Dixi, produzido por uma empresa chamada Automobilwerk Eisenach e rebatizado como BMW 3/15. E, na verdade, o próprio Dixi era um projeto britânico – um Austin Seven feito sob licença.

Na verdade, a expansão da BMW como fabricante de automóveis só foi possível graças a seu sucesso com as motocicletas. É por isso que, até hoje, o grupo mantém suas duas ramificações – carros e motos – separadas e praticamente independentes entre si.

 

Ariel

Fala-se muito da Ariel e de seu Atom, máquina criada exclusivamente para proporcionar diversão ao volante – em uma pegada minimalista parecida com a do Lotus/Caterham Seven, porém com motor central traseiro e visual muito mais radical. Mas você acha que é por acaso que o Atom tem o chassi tubular exposto, como uma motocicleta? Pois não é, não.

A história da Ariel começa, na verdade, em 1870: ela foi fundada por James Starley e William Hillman na cidade de Birmingham, Reino Unido (a mesma onde surgiu o Black Sabbath mais de 100 anos depois). Seu nome foi inspirado por um personagem de “A Tempestade”, peça escrita por William Shakespeare por volta de 1610, que trazia um espírito do ar chamado Ariel.

Inicialmente produzindo rodas raiadas, não demorou para que a Ariel começasse a fabricar sua primeira bicicleta – uma penny-farthing, daquelas com a roda dianteira gigantesca. Daí para a fabricação de motocicletas foi uma evolução natural: em 1902 foi fundada a Ariel Motorcycles, que atuou até a década de 1970 fabricanto motos e triciclos de diferentes segmentos.

A atual Ariel Motor Company foi fundada em 1999, quando o fundador da empresa, Simon Saunders, comprou os direitos sobre o nome. Saunders era o tutor de Niki Smart, designer do Ariel Atom – que ainda nem havia se formado na Universidade de Coventry quando criou o carro. Saunders acreditou no projeto assim que o viu, e apostou todas as fichas na ideia. Como resultado, até hoje o Ariel Atom é um dos brinquedos de track day mais adorados do planeta.

Para honrar a memória da Ariel original, em 2014 a Ariel Motor Company criou a Ariel Ace, moto naked com quadro treliçado – assim como o Atom – e o motor V4 de 1.200 cm³ da Honda VFR1200.

 

Dodge Tomahawk

Uma moto, quatro rodas, dez cilindros: é a Dodge Tomahawk, que quase pode ser considerada um V10 do Dodge Viper com rodas e guidão. Nada prática e completamente insana, ela foi concebida pela própria Dodge e apresentada no Salão de Detroit de 2003 como curiosidade.

A Tomahawk tinha 503 cv e 72,6 kgfm de torque produzidos pelo V10 de 8,3 litros do Dodge Viper, moderados por uma caixa manual de duas marchas. Seu desempenho, contudo, jamais foi aferido na vida real – estimativas feitas pela Dodge falavam em um zero a 100 km/h de meros 2,5 segundos.

A imprensa especulou bastante a respeito de sua velocidade máxima, com alguns veículos mencionando que ela, em teoria, seria capaz de passar dos 480 km/h, considerando apenas a força bruta. No entanto, Dave Campos – piloto recordista de velocidade com motocicletas aerodinâmicas, disse na época que, a seu ver, seria impossível passar dos 300 km/h em uma moto sem carenagem, pois o piloto sairia voando. Joe Teresi, jornalista da revista Easyriders, também não apostava nisto – para ele, fatores importantes como área frontal, coeficiente de arrasto e resistência à rolagem foram completamente ignorados no projeto da Tomahawk.

A verdade é que, para a própria Dodge, a Tomahawk era considerada um “veículo conceitual” que lembrava uma motocicleta, e não uma moto de fato – ou, em outras palavras, uma escultura sobre rodas. Ela jamais foi pensada para ser conduzida. Sua intenção, segundo a empresa, era mostrar que a Chrysler era ousada, ambiciosa e não tinha medo de correr riscos.

Mas ela causou uma impressão tão forte que, por demanda do público, teve nove réplicas fabricadas e vendidas por US$ 555.000 através da Neiman Marcus, cadeia de lojas de artigos de luxo que já vendeu diversas edições especiais de automóveis feitas em parceria com várias fabricantes diferentes.

 

Lamborghini Design 90

Na década de 1980, quando estava passando por uma fase estranha – seus donos eram dois investimentos do ramo alimentício, Jean-Claude e Patrick Mimran – a Lamborghini decidiu diversificar suas atividades, na tentativa de gerar algum lucro. E o resultado foi uma estranha e incrível motocicleta com a marca Lamborghini: a Design 90.

Não estamos falando de uma moto esportiva já existente que recebia o emblema da Lamborghini — não era uma série especial, e sim uma motocicleta totalmente nova. Para ajudar na empreitada, os irmãos Mimran procuraram empresa francesa Boxer Bike. A Lamborghini Design 90 começou a ser desenvolvida 1984 e ficou pronta dois anos depois.

A moto usava um motor Kawasaki de 1.000 cm³, quatro cilindros em linha, quatro comandos e quatro válvulas por cilindro. Os dados sobre a epecificação técnica e a produção disponíveis atualmente são poucos e conflitantes. A respeito da Design 90 em si, o que se sabe é que ela pesava algo entre 130 e 175 kg e tinha velocidade máxima estimada em 258 km/h. Quanto aos números de fabricação, a coisa é ainda mais imprecisa: a maioria das fontes menciona de 20 a 25 unidades encomendadas, enquanto o número de unidades produzidas em Tolouse, na França (onde ficava a sede da Boxer Bike), nunca ficou totalmente claro. Fala-se em algo entre cinco e dez unidades, que custavam o dobro das motos mais caras e rápidas do mundo em seu tempo.

Provavelmente devido ao alto preço, a moto jamais decolou nas vendas como os irmãos Mimran certamente esperavam. Por outro lado, a compra da Lamborghini pela Chrysler em 1987 deve ter colocado um freio no projeto — que, de qualquer forma, talvez fosse ambicioso demais para aquele momento. Talvez se a Lamborghini decidisse fazer uma moto hoje (usando uma Ducati como base, que tal?) a história fosse diferente.

 

Lotus C-01

Em fevereiro de 2014 a Lotus apresentou a primeira moto com sua marca: a C-01. Ela foi concebida em 2013 como conceito mas, poucos meses depois, a Lotus decidiu vendê-a em série limitada. Com estilo assinado por Daniel Simon, ex-projetista da Bugatti, ela tinha uma pegada retro-futurista interessante e, originalmente, usaria estrutura monocoque de fibra de carbono mas, para viabilizar sua produção limitada, adotou-se uma construção mais tradicional, com quadro tubular de aço.

Ainda assim, a carenagem era de fibra de carbono e havia diversas características pouco usuais para as motos. O tanque de combustível, por exemplo, ficava sob o banco, enquanto o “tanque” externo era, na verdade, uma proteção para a airbox do motor. A postura da moto era parecida com a de uma superesportiva, mas a geometria da suspensão tinha uma pegada mais cruiser. O motor era um KTM V-twin de 75° com 1.195 cm³ de deslocamento e 175 cv, ligado a um câmbio sequencial de seis marchas.

Foram feitos 100 exemplares da C-01, mas pouco se sabe sobre as motos que foram vendidas. Raramente uma delas aparece rodando – talvez por conta da posição de pilotagem estranha, com o guidão lá na frente e o banco recuado. E ela não era barata: cada uma delas custava £ 70.000 quando nova, mas existem relatos de unidades leiloadas por até £ 375.000 (o equivalente a R$ 2,8 milhões).

 

Ferrari 900

A Ferrari 900 é a única moto de rua do planeta com a marca Ferrari – só existe um exemplar, e ela foi feita com a bênção da fabricante, o que de certa forma a torna oficial.

Foi no começo da década de 1990, quando o customizador britânico David Kay escreveu uma carta para a Ferrari, pedindo autorização para colocar em prática um projeto pessoal: uma moto com a marca Ferrari, como tributo a Enzo.

David Kay é o fundador da MV Meccanica Verghera, empresa que desde 1983 especializou-se em modificar, preparar e restaurar as motos da italiana MV Agusta. Contudo, sua moto Ferrari seria diferente: ele a construiria do zero.

A resposta da Ferrari veio no dia 23 de maio de 1990, em uma carta assinada por Piero Ferrari, o filho mais novo de Enzo, que comandava a empresa na época. A carta dizia que a Ferrari ficava lisonjeada com a ideia, permitindo o uso da marca e dos emblemas, e desejava boa sorte na época. Não conseguimos imaginar uma atitude como esta por parte da Ferrari atual…

A moto foi construída sobre uma estrutura desenhada e fabricada pelo próprio Kay, usando tubos de aço-carbono-molibdênio Reynolds 351. A construção é do tipo berço duplo, com amortecedores invertidos Forcelle Italia na frente e WPS na traseira. Os discos de freio são da Brembo, com pinça de seis pistões na frente e quatro pistões atrás.

O motor é um quatro-cilindros de 900 cm³ com comando duplo no cabeçote e quatro válvulas por cilindro, todo construído em alumínio. Mais especificações a respeito do motor jamais foram reveladas, mas testes em dinamômetro acusaram 105 cv a 8.800 rpm na roda traseira. Com câmbio de cinco marchas, a moto de 172 kg tem velocidade máxima estimada em 265 km/h.

A Ferrari 900 ficou pronta apenas em 1995, após mais de 3.000 horas de trabalho – todo ele feito pelo próprio Dave e do artesão Terry Hall, que ajudou a dar forma à carenagem, ao tanque de combustível e ao sistema de escape, feito em aço inox sob medida.

 

As motos da Peugeot

Um fato muito conhecido, mas pouco lembrado, é o de que a Peugeot foi fundada em 1810, e seus primeiros produtos foram moedores de café e bicicletas – e as bikes da Peugeot são populares na Europa até hoje, aliás. O que nem todos se dão conta é que, ainda no século 19, a Peugeot começou a fabricar motocicletas. A primeira delas era pouco mais que uma bicicleta com um motor DeDion-Bouton acoplado à roda traseira, mas com o tempo a Peugeot especializou-se em scooters. Na verdade, a Peugeot diz ser a mais antiga fabricante de scooters ainda em atividade.

A verdade é que as scooters da Peugeot tiveram sua melhor época na primeira metade do século 20 – ou seja, até a década de 1950, quando havia uma gama bem variada de modelos com a marca do leão. Foram feitas, porém, algumas motos “de verdade” – com destaque para a Peugeot 500 M, uma moto de corrida construída em 1914 e, como o nome dizia, equipada com um motor de dois cilindros e 500 cm³ e 15 cv.

Era um motor absurdamente avançado para a época: tinha comando duplo no cabeçote atuado por corrente e quatro válvulas por cilindro, entregando 15 cv. Na verdade, era um motor tão avançado que as técnicas de metalurgia usadas para produzi-lo não o acompanhavam, resultando em um motor pouco confiável. Além disso, a transmissão era por corrente, com apenas uma marcha, e quase não conseguia lidar com a potência.

 

Uma atualização do projeto foi desenvolvida em 1919, usando um motor mais simples, com comando no bloco e duas válvulas por cilindro. Contudo, poucos anos depois a Peugeot decidiu separar suas divisões de carros e motos, concentrando-se nas quatro rodas e forçando a divisão de duas rodas a focar-se em scooters baratas.

Até mesmo no Brasil as scooters da Peugeot foram vendidas – os modelos Speedake e Speedfigher, ambos com motores de 50 cm³, foram importados pela Sundown como opção mais sofisticada a seus produtos, e custavam bem mais que as nacionais.

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