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Car Culture

Não. Não foi Carroll Shelby quem disse que “nada substitui as polegadas cúbicas”

“There is no replacement for displacement” — ou “nada substitui as polegadas cúbicas” — foi a filosofia por trás do desenvolvimento do Shelby Cobra. Nascido na Inglaterra como AC Ace, o esportivo usava originalmente um motor seis-em-linha de 2,6 litros, mas Shelby, como bom hot hodder que era, sabia que um motor maior faria muito bem ao pequeno e competente esportivo. Algo como um V8 de 4,3 litros. É claro que deu certo.

Shelby voltaria a aplicar sua filosofia em vários outros de seus projetos, como os GT350 e GT500 e o Dodge Viper, que tinha   o maior deslocamento de sua época entre os carros produzidos em série. Não foi à toa que a famosa citação sobre deslocamento e polegadas cúbicas ficou fortemente associada ao homem durante toda a sua vida.

Só que há um problema nessa história: a frase não é de Carroll Shelby. Na verdade sequer há registros de que ele tenha repetido esta frase, embora ele certamente a conhecesse. Em fevereiro de 1957 a revista Sport Cars Illustrated usou a frase “there’s no substitute for cubic inches” como subtítulo da matéria “Corvette: Heating up The Hot One” que ensinava “como fazer o Corvette andar”. Nessa época Carroll Shelby estava a cinco anos de se tornar um preparador famoso, e ainda era um piloto de carros europeus.

Sports Cars Illustrated Covers of the 1950s 20

Mas a citação também não foi criação dos editores da revista. Esse aforismo e suas variações — todas sobre o aumento de cilindrada ser imbatível como preparação —, são um ditado popular entre os hot hodders desde os anos 1940. A mais popular é a rima “there’s no replacement for displacement“, que pode ser traduzida como “não há melhoramento como mais deslocamento” se quiser manter a sonoridade. Outra variação é “there’s no replacement for cubic inches“, ou “não há substituição para as polegadas cúbicas”. Há ainda mudanças sutis como “there ain’t no substitute for cubic inches” (não tem substituto para as polegadas cúbicas) ou “there is nothing like more cubic inches” (não há nada como mais polegadas cúbicas).

Para nós, entusiastas do século 21, é óbvio que existe substituto para as polegadas cúbicas: pressão. Turbos e compressores fazem milagres com motores surpreendentemente pequenos, como provam a Fórmula 1 dos anos 1980 e os supercarros com motores downsized de nossa era. O próprio Carroll Shelby percebeu isso logo nos anos 1960, quando começou a usar compressores Paxton em seus carros (o modelo abaixo é um deles). Além disso, o Cobra preferido de Shelby não era o 427 (de 7 litros) e sim o 289 (4,7 litros), que era a cilindrada intermediária.

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Quando esta frase se tornou popular, contudo, não havia muitas alternativas para conseguir ganhos expressivos de potência. O negócio era abrir os cilindros, soprar mais ar, despejar mais combustível e soltar a centelha na hora certa. E nesse cenário os americanos eram imbatíveis com seus leviatãs de ferro fundido e oito cilindros. Além disso, a economia em escala tornava muitos componentes intercambiáveis entre si, o que facilitava a troca dos motores originais por outros maiores. Não foi por acaso que ela tenha ficado tão popular por lá.

Mas, apesar de ter se popularizado nos EUA, a autoria do “slogan” é atribuída a um britânico: Walter Owen Bentley, ou W.O. Bentley, o criador da marca que leva seu nome. Segundo o livro “Supercharging Performance Handbook”, de Jeff Hartman, a frase surgiu em um diálogo de Bentley com um de seus pilotos, Sir Henry “Tim” Birkin.

Bentley-LeMans-France-24-Hours

 

Birkin é o piloto com os óculos no pescoço e as pernas cruzadas; Bentley é o terceiro em pé da direita para a esquerda

Apesar de ter vencido as 24 Horas de Le Mans com seu Bentley 4½ Litre, o modelo estava em seu limite técnico. Diante disso, Tim Birkin sugeriu ao Mr. Bentley que instalasse um supercharger ao motor. Bentley, que não gostava de compressores, respondeu dizendo “there’s no replacement for displacement“, e bancou o desenvolvimento do Speed Six, baseado no 6½ Litre.

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Ele tinha comando de válvulas mais esportivo, carburadores maiores e taxa de compressão mais elevada para chegar aos 180 cv — 50 cv a mais que o modelo com motor de 4,5 litros. Com esse carro a Bentley faturou as 24 Horas de Le Mans de 1929 e 1930. 

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A sugestão de Sir Birkin, contudo, acabou acatada mais adiante, e resultou no Blower Bentley, um 4½ Litre com um compressor mecânico ligado ao virabrequim na dianteira do motor. A potência? 175 cv — 5 cv a menos que o modelo com o motor aspirado de 6,5 litros.

Além disso, o supercharger pendurado na dianteira deu ao carro uma tendência sub-esterçante. Mais deslocamento era mesmo melhor para os carros do sr. W. O. Bentley.

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