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Os cuidados para repintar um carro dos anos 1980 e 1990 – e a receita do nosso Uno 1.5R

Você já viu um carro restaurado e teve a impressão de que a pintura ficou grosseira demais? Ou que os vincos da carroceria foram suavizados ou simplesmente a sensação de que alguma coisa não está certa com o visual do carro?

Não me refiro às “cascas de laranja” na pintura. Mas a uma pintura que é impecavelmente lisa e espelhada, mas não é tão agradável aos olhos? Esse problema acontece quando se usa a técnica inadequada para a repintura do carro, e é mais comum do que parece.

É por isso que, durante o processo de repintura do Uno 1.5R que vamos sortear entre vocês, leitores e assinantes, não nos contentamos em “mandar o carro para a pintura”. Nós buscamos os especialistas da New Car, explicamos para eles o que esperávamos da restauração da carroceria e, com a experiência de décadas no ramo, o método foi definido.

O resultado ficou espetacular e, além de deixar o Uno com um aspecto digno dos melhores concursos de clássicos, também foi o ponto de partida para este guia rápido com os cuidados e recomendações que você deve levar em conta na hora de repintar seu carro antigo — especialmente dos anos 1980 e 1990.

 

O começo

A pintura do Uno estava boa, mas uma inspeção mais minuciosa revelaria algumas imperfeições menores que precisam ser corrigidas — afinal, nossa intenção é entregar um carro impecável.

Normalmente há duas formas de se fazer uma restauração de pintura: uma pintura que visa a maior originalidade possível, incluindo a reprodução das imperfeições da pintura de época, e o “over-restoration”, que aplica camadas espessas de verniz para obter um altíssimo brilho e superfícies perfeitamente lisas, mas que destoa da aparência original do carro por dar a ele uma qualidade de pintura que jamais fez parte de sua história.

Para o noss…, digo, para o seu Uno, optamos por algo mais equilibrado. A pintura terá uma qualidade superior à original, mas não a ponto de tornar o carro exagerado. Além disso, reproduzimos a tonalidade original, preto Etna, que é um preto sólido puro, sem proporções de outras cores para formar uma tonalidade específica do modelo ou da marca.

Definido o objetivo e o processo, é hora de começar o trabalho. O primeiro passo é a desmontagem dos componentes de acabamento externo e dos vidros do carro — não apenas para ter acesso total às chapas da carroceria, mas também para preservar estes componentes. Para-choques, frisos e capas plásticas são os pontos críticos dos modelos dos anos 1980 por não terem peças de reposição originais e por ter qualidade variável de marcas paralelas. Aqui vale a dica para comprar um carro dos anos 1980 e 1990: veja se os para-choques estão bem conservados, pois recuperá-los é um trabalho caro e, muitas vezes, complicado.

Em seguida, é feito o taqueamento da pintura, um processo que usa um taco de lixamento para remover parte da pintura e revelar o que há por baixo, nas chapas. É nesse momento que aparecem as surpresas, digo, as imperfeições, pontos de corrosão (em alguns casos, claro) e o verdadeiro registro histórico do carro. É como uma fatia de um tronco de árvore ou a geologia do solo analisada por suas camadas. Ali você descobre o que aconteceu de verdade com o seu carro no passado.

No caso do Uno, vimos que ainda há resíduos da pintura original da Fiat e onde começou a repintura do carro. Também descobrimos pontos de corrosão. Estes são tratados como uma cárie dentária: você abre um acesso até o dano, faz a remoção da parte lesionada, prepara a superfície e então a restaura. Nos dentes, usa-se polímero de vidro. Nos carros, você também pode usar um polímero, mas é mais recomendado usar preenchimento de estanho, que é um metal mais maleável que o polímero e, por isso, trabalha juntamente da chapa do carro.

No Uno, encontramos corrosão na borda do para-lamas dianteiro esquerdo, junto à fresta da porta do motorista, no quadro do para-brisa, onde alguém criminosamente meteu a broca para instalar uma antena de rádio, na junção do para-lamas dianteiro direito com a chapa interna do cofre do motor e encontramos um ponto fragilizado que certamente daria origem a uma futura corrosão na base da borracha do para-brisa.  Tudo foi preenchido com estanho e esta é a dica que damos a quem quer repintar/restaurar um carro: não use massa plástica, e sim preenchimento metálico.

Outro ponto crítico — e que você deve ficar de olho ao inspecionar um carro antigo — são as canaletas do teto/calhas de chuva. Especialmente nos carros dos anos 1980 e 1990, nos quais as canaletas têm um acabamento de borracha ou plástico que podem reter água e sujeira. No caso do Uno GoodGuys, não tivemos surpresa, e tudo estava conforme esperado.

Feitas as correções, o carro foi para a cabine de pintura.

 

A pintura

Aqui é importante notar que o profissional que irá realizar a pintura é quem irá determinar quantas demãos, qual o processo e qual o tipo de tinta e verniz será mais adequado para obter o resultado planejado. Quando  orçar sua repintura, converse com o profissional sobre o que você deseja no carro pois, como mencionei mais acima, há diversas técnicas e processos de pintura para diferentes resultados desejados. Algumas formulações e componentes, por exemplo, deixam a pintura mais espessa e visualmente rasa, suavizando algumas linhas e vincos da carroceria. Outras as deixam mais vivas e aparentes, e outras dão uma maior profundidade de luz.

No caso do Uno, usamos quatro demãos de tinta e três demãos de verniz com base de poliéster — esse verniz é que dá o aspecto espelhado com profundidade de luz, que ressalta as linhas do carro sem deixá-lo com aquela cara de pintura de geladeira, como se diz por aí. Fora o processo, também há a técnica de pintura — o teto, por exemplo, é pintado da extremidade para o centro em um lado e, depois, no outro lado, do centro para a extremidade, para manter a continuidade das demãos e evitar imperfeições sob a incidência de luz.

Por fim, após o envernizamento, com uma terceira demão aplicada mais lentamente, com o uso de maior volume de material, o carro passa pelo processo de cura da pintura e segue para o polimento — novamente um processo feito com taco de lixamento com granulação gradualmente mais refinada até atingir o resultado que vemos nos vídeos acima. O carro então é montado, lavado e  segue para a próxima etapa: a montagem do conjunto mecânico. Mas isso, é assunto para a próxima parte desta série.