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Técnica

Os perigos de Nürburgring Nordschleife: estes são os cinco erros mais comuns do circuito

Sir John Young Stewart foi um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1. Dotado de uma técnica extremamente refinada, ele venceu três mundiais em uma época em que a morte nas pistas era algo tão natural quanto levar os pais ao paddock em 2015. Depois de ficar ensopado de gasolina e preso a um carro que poderia entrar em combustão a qualquer momento, ele se tornou um dos maiores ativistas pela segurança na Fórmula 1. Foi esse cara, mais conhecido como Jackie Stewart, quem batizou Nürburgring como “o Inferno Verde”.

Os motivos são mais do que conhecidos. Nosso editor-chefe, Juliano Barata, já falou todos os desafios que você encara quando decide entrar em um carro e acelerar pelos vinte e poucos quilômetros de asfalto no interior da Alemanha em nossa série sobre Nürburgring:

[…] o inferno verde tem superfície altamente irregular, mais de dez tipos diferentes de asfalto (e sempre cheio de tinta), múltiplas variações de clima ao longo do dia e da mesma volta, amplitude de 300 m de altitude, não tem área de escape que mereça ser chamada como tal e está permanentemente sujeito a acidentes em todos os locais, incluindo os trechos mais velozes e de menor visibilidade.”

Além disso, há trechos do circuito muito particulares de Nürburgring — combinações que você só encontra ali e que podem ser traiçoeiras até mesmo a pilotos experientes — como aconteceu com Jann Mardenborough, da Nissan, há alguns meses.

É por isso que para se envolver em um acidente no Inferno Verde não é preciso muito esforço, basta um momento de excesso de confiança para ser traído pelas particularidades da pista. Estas situações são o tema deste ótimo vídeo apresentado por Gabriele Piana da RSR Nürburgring, que mostra “Os Cinco Maiores Erros de Nürburgring (Por que e Como Evitar)”. Veja quais são:

nordschleifemap

 

A Armadilha de Wippermann

O primeiro deles acontece na Wippermann (km 15 no mapa acima), uma curva que começa em subida e termina aplainando com uma mudança de compensação (a inclinação lateral da pista). Estas duas mudanças — de relevo e de inclinação — podem causar uma mudança súbita no equilíbrio do carro pelas transferências de. Por esse motivo, você deve frear em linha reta e não usar trail braking. Isso por que especificamente nesta curva você precisa de um pouco de subesterço e menos transferência de peso para a dianteira para manter a traseira bem assentada. A mudança de relevo no ponto de tangência também exige cuidado no acelerador com carros mais torcudos de tração traseira.

 

Usar o traçado de pista seca em pista molhada

O outro erro acontece na Kallenhard (km 8), uma curva com ponto de tangência e de entrada tardios, porém fácil e simples de se fazer com pista seco. O bicho pega quando o asfalto fica úmido ou molhado, situação em que ela se torna muito escorregadia — e uma das curvas mais traiçoeiras do Nordschleife, segundo Piana.

O problema aqui é que além de você não conseguir ver a saída na curva, o traçado com a pista molhada é contraintuitivo: você precisa contorná-la por fora. Por isso, muita gente segue por dentro no molhado e aí há três problemas: o asfalto neste trecho é pouco poroso, há muita borracha na pista (o que a torna ainda mais lisa quando molhada) e, sob chuva forte, a água escoa em grande volume exatamente no ponto de retomada. Por isso, você deve frear em linha reta e contorná-la por fora, onde não há borracha e nem excesso de água.

 

Entrar na curva freando

 

Na Schwedenkreutz (km 5), um mergulho de alta velocidade à esquerda (e uma das curvas mais rápidas de Nür), é comum entrar rápido demais e frear entrando na curva. Como se não bastasse, há uma depressão praticamente impossível de se ver no ponto de tangência. Se você entrar na curva freando e passar pelo bump, ele causará uma transferência de peso violenta, resultando em um sobre-esterço incontrolável como o desse Astra no vídeo acima. Para contorná-la você freia em linha reta e entra suavemente para contorná-la com o motor cheio.

 

Concentrar-se na compressão da suspensão, perdendo o controle na dobra da Fuchsröhre

Este exemplo se passa na Fuchsröhre (km 6), uma sequência de curvas em descida que antecede uma subida e que pode ser bastante traiçoeiro. O ponto perigoso é a quebra de relevo para cima no meio de uma curva de alta à esquerda, que comprime totalmente a suspensão. Se você frear ou aliviar o acelerador na hora errada irá desequilibrar o carro e dificilmente conseguirá mantê-lo apontado para a direção certa — como aconteceu com o pobre Honda Civic que aparece aos 8:30 do vídeo acima.

O segredo é frear em linha reta antes que a suspensão seja comprimida pela quebra de relevo e então apontar o carro. Se você entrar freando, a variação irá desequilibrar o carro dando início a um enorme sobre-esterço que pode ser muito difícil de recuperar.

 

Errar sob pressão

Brünnchen (km 16), que acabou apelidada como “Curva do YouTube” pelo pessoal da RSR Nürburgring, é uma sequência de duas curvas em descida à direita que termina em uma quebra de relevo. Para contorná-lo com perfeição é preciso uma tocada refinada, mas, como conta Piana, nesse trecho há um ponto de observação para os espectadores e o maior problema ali é… o exibicionismo! Os motoristas tentam sair bem nos vídeos e acabam entrando rápido demais e beijando o guard-rail ou então acabam distraídos pelo público, freiam por reflexo no meio da curva e acabam com a traseira solta. Nem mesmo o Ring Taxi escapou.

Para não ficar famoso no YouTube você observa a indicação do ponto de frenagem e traz o carro com aceleração constante para dentro da curva. Na primeira curva da Brünnchen você freia em linha reta e traz o carro para a curva. Na segunda você repete a frenagem em linha reta e entra com aceleração constante, e só volta a acelerar quando puder ver a saída da curva.

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