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Automobilismo

Os “vovôs” da Fórmula 1 – os últimos heróis de uma geração


No começo deste mês, como acontece em todo mês de maio desde 1995, o universo da Fórmula 1 relembrou as perdas de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna. A tragédia de Ímola está cada vez mais distante, claro, mas ainda não foi superada por muita gente — especialmente para quem acompanhou aquele final de semana ao vivo, fosse pela TV ou presencialmente —, mesmo que 28 anos já tenham se passado desde então.

É muito tempo. Tanto tempo que mais da metade do grid da Fórmula 1 de 2022 sequer era nascida quando aquilo aconteceu. Tanto tempo, que as crianças nascidas naquele ano já estão longe de ser novatos na Fórmula 1. Elas já têm a idade que Senna tinha quando conquistou seu primeiro título mundial. O tempo é implacável, caros FlatOuters. Aos poucos, nosso contato com o mundo anterior à nossa existência vai se apagando, nós é quem nos tornamos esse elo das gerações. Os motoristas mais jovens do Brasil não viram nem mesmo Michael Schumacher ganhando um título, porque 2004, o ano em que eles nasceram, foi o ano de seu último mundial.

Na semana passada, enquanto lembrávamos de Senna, mais um elo de gerações se apagou. Morreu Tony Brooks, o “dentista corredor” (não preciso explicar, certo?). Ele tinha 90 anos, e era o último piloto a vencer um GP nos anos 1950 ainda vivo depois que Stirling Moss nos deixou, em 2020.

Brooks era britânico, filho de um cirurgião dentista que seguiu os passos do pai no consultório, mas dividindo-se entre bocas e motores. Logo aos 20 anos ele começou pilotar seu  Healey e, mais tarde, um Frazer Nash em eventos locais, onde passou os três anos seguintes. Naquele mesmo ano, ele descolou um Fórmula 2 da Connaught, se inscreveu em uma corrida em Crystal Palace e terminou em quarto, o que deu a ele confiança para subir uma categoria e disputar o GP da Siracusa de 1955, uma prova da Fórmula 1 que não fazia parte do campeonato. E vejam só… ele ganhou a corrida — foi a primeira vez que um britânico vencia um GP internacional com um carro britânico desde o GP de San Sebastián de 1924.

Ele disputou apenas seis temporadas do Mundial de F1. Na primeira, em 1956, ele tentou apenas o GP da Grã-Bretanha, mas abandonou ao bater o carro na 40º volta. No ano seguinte, contratado pela Vanwall ele demonstrou um talento inato ao chegar em segundo lugar no GP de Mônaco (apenas sua terceira corrida na F1) e venceu o GP da Grã-Bretanha em Aintree, naquela que foi a primeira vitória de um carro inglês na história da Fórmula 1. Brooks ainda pontuaria no GP da Itália, onde terminou em sétimo, mas ganhou um ponto por ter feito a volta mais rápida da prova. Com isso, ele terminou seu primeiro mundial em quinto lugar.

Em 1958, um dos campeonatos mais disputados de todos os tempos, ele continuou na Vanwall e venceu três corridas (Bélgica, Alemanha e Itália), ajudando a equipe a conquistar o primeiro título mundial de construtores da F1, mas terminou o campeonato em terceiro, atrás de Mike Hawthorn e Stirling Moss.

No ano seguinte, Brooks foi para a Ferrari e obteve o melhor resultado de sua carreira. Com duas vitórias (França e Alemanha), um segundo lugar em Mônaco e um terceiro lugar nos EUA, ele foi o vice-campeão daquela temporada, perdendo a disputa para Jack Brabham. Ele era considerado um dos maiores pilotos da Fórmula 1 sem um título.

Com sua partida, não há mais nenhum piloto vivo que tenha vencido uma corrida nos anos 1950. Na verdade não há nenhum piloto que tenha vencido um GP entre 1950 e 1964 e que ainda esteja entre nós. O mais antigo  vencedor de Grandes Prêmios é Sir John Young Stewart, o lendário Jackie Stewart, que venceu pela primeira vez em 1965.

Stewart também é o vencedor de GP mais idoso ainda vivo — ele está com 82 anos e 11 meses —, é o último piloto a ter vencido um título nos anos 1960 e também é o campeão de Fórmula 1 mais antigo (seu primeiro título é de 1969) e mais idoso ainda vivo.

 

Os pilotos mais idosos da F1

Depois de Stewart, o vencedor mais antigo (considere quando venceu pela primeira vez) ainda vivo é Jacky Ickx, que venceu o GP da França de 1968. Ickx, contudo, não é o segundo vencedor mais idoso (data de nascimento), porque Mario Andretti, que ganhou pela primeira vez no GP da África do Sul de 1971, é quase cinco anos mais velho. Isso também faz de Andretti o segundo campeão mais idoso da Fórmula 1, mas não o segundo mais antigo (quando ganhou o primeiro título) ainda vivo.

Stewart e Andretti, os campeões decanos da F1

Quem ocupa esse posto é Emerson Fittipaldi, que ganhou o título mundial de 1972. Se considerarmos apenas a idade dos pilotos, Emerson é apenas o quarto mais velho, porque Alan Jones, embora tenha vencido somente em 1980, é 40 dias mais velho que Emerson Fittipaldi. As tabelas abaixo explicam melhor isso:

Vencedores de GP mais idosos (idade):
– Jackie Stewart (11/06/1939)
– Mario Andretti (28/02/1940)
– Jean-Pierre Jabouille (01/10/1942)
– Jacques Laffite (21/11/1943)
– Jacky Ickx (01/01/1945)

Laffite e Jabouille

Vencedores de GP mais antigos (quando venceu o primeiro GP):
– Jackie Stewart (1965)
– Jacky Ickx (1968)
– Emerson Fittipaldi (1970)
– Mario Andretti (1971)
– Jody Scheckter (1974)

Ickx, um dos dois últimos dos anos 1960

Campeões mundiais mais idosos (idade)
– Jackie Stewart (11/06/1939)
– Mario Andretti (28/02/1940)
– Alan Jones (02/11/1946)
– Emerson Fittipaldi (12/12/1946)
– Jody Scheckter (29/01/1950)

O trio de campeões em Miami, 2022

Campeões mundiais mais antigos (quando conquistou o primeiro título)
– Jackie Stewart (1969)
– Emerson Fittipaldi (1972)
– Mario Andretti (1978)
– Jody Scheckter (1979)
– Alan Jones (1980)

Agora, quer um dado chocante? Dos 28 pilotos que venceram um GP entre 1970 e 1979, somente dez ainda estão vivos – Jackie Stewart, Mario Andretti, Jean-Pierre Jabouille, Jacques Laffite, Jacky Ickx, Emerson Fittipaldi, John Watson, Jochen Mass, Alan Jones e Jody Scheckter. Notou que sete deles começam com a letra J e um deles tem J no sobrenome? Não pude deixar de notar.

 

Mas quem é o piloto de F1 mais idoso ainda vivo?

Se deixarmos de lado os campeões e vencedores para buscar os pilotos de F1 mais idosos ainda vivos, vamos encontrar o nome Kenneth McAlpine, um britânico nascido em 21 de setembro de 1920 — o que significa que ele tem 101 anos e sete meses. Ele foi o primeiro — e até agora único — centenário da F1.

Sua carreira como piloto foi curta, e suas participações na Fórmula 1 como piloto foram poucas: sete corridas nas temporadas de 1952, 1953 e 1955, todas pela Connaught Engineering Team.

Seus resultados foram apenas medianos ao volante, e ele não pontuou. Depois de 1955, porém, McAlpine tornou-se um dos donos da equipe – sua família era importante na região e ele tinha os meios. Em 1958, a Connaught foi dissolvida e o que restou da equipe foi vendido a um certo Bernie Ecclestone — que, por acaso, é um dos pilotos de F1 mais velhos ainda vivo. Kenneth McAlpine, então, decidiu deixar o mundo do automobilismo para dedicar-se à sua vinícola.

 

E o segundo mais velho?

O segundo mais velho é cosa nostra, como diria Jorge Ben Jor. Ou quase isso: Seu nome é Hermano João Da Silva Ramos, e ele nasceu no dia 7 de dezembro de 1925. Ou seja: o sr. Hermano tem 96 anos e cinco meses de idade. E também é o piloto de F1 mais idoso a pontuar no campeonato mundial.

Hermano da Silva nasceu em Paris, na França, filho de mãe francesa e pai brasileiro – o que bastou para que ele tivesse dupla nacionalidade naquela época. Tanto que, de acordo com o site 8W, os jornalistas franceses o consideravam francês e os jornalistas brasileiros o consideravam brasileiro. Em outros países, ele era chamado de “franco-brasileiro”.

De todo modo, Hermano da Silva teve sua primeira experiência ao volante de um carro de competição no Brasil – mais precisamente, um MG TC com o qual participou do Grande Prêmio de Interlagos em 1947. A prova foi vencida pelo italiano Achille Varzi, que foi seguido de outros dois brasileiros: Chico Landi e Gino Bianco. Aliás, depois deles, Hermano da Silva foi o terceiro brasileiro a ingressar na Fórmula 1 – Landi disputou seu primeiro GP em 1951; Bianco estreou em 1952; e “Nano” da Silva correu na F1 pela primeira vez em 1955.

Antes disso, porém, Hermano da Silva adquiriu experiência em várias provas importantes. Primeiro, foram corridas de protótipos-esporte na França em 1953 e 1954, ao volante de um Aston Martin DB2/4. Através de seus contatos nos clubes de automobilismo franceses – e, claro, graças a seu bom desempenho ao volante – Hermano conseguiu um lugar nas 24 Horas de Le Mans de 1954, corrida na qual dividiu seu posto no Aston Martin com o francês Jean-Paul Colas, mas a dupla acabou abandonando a prova depois de 14 horas por problemas no câmbio.

No ano seguinte, ainda com o Aston, Hermano correu na Mille Miglia – corrida que chamou de “terrível e extremamente perigosa”, lamentando-se por todos os espectadores que morreram em acidentes nos quais o carro voava sobre a multidão. Mas foi com a compra de um Gordini 43, com motor seis-cilindros de 2,5 litros, que ele deu seu primeiro passo em direção à Fórmula 1. Com aquele carro ele disputou algumas corridas nas colônias francesas do norte da África e também venceu a Speed Cup no circuito de Montlhéry, chamando a atenção de Amedée Gordini, o fundador da equipe/preparadora.

Gordini contratou Hermano para disputar as 24 Horas de Le Mans mais uma vez – e novamente ele abandonou a corrida depois de 14 horas, agora por um furo no radiador. Contudo, dias depois Amedée o convidou para correr na Fórmula 1. Sua primeira corrida como membro da Gordini F1 foi o GP da Holanda, em Zandvoort, com o Gordini Type 16. Ele terminou na 14ª posição. Os GPs da Grã-Bretanha (em Aintree) e da Itália (em Monza) não terminaram tão bem – Hermano abandonou as duas corridas por problemas na pressão do óleo e no sistema de combustível, respectivamente.

Foto: F1Collection.com

Em 1956, ainda com o mesmo carro e a mesma equipe, Hermano da Silva Ramos obteve seu melhor resultado na Fórmula 1 – o quinto lugar no Grande Prêmio de Mônaco, ficando atrás de Stirling Moss, Peter Collins, Juan Manuel Fangio e Eugenio Castellotti; e garantindo seus únicos dois pontos na maior categoria do automobilismo. Nas corridas seguintes – as etapas da França, da Grã-Bretanha e da Itália, Hermano correu com um novo motor de oito cilindros em linha, mas não conseguiu melhorar seus resultados: ele foi o oitavo na França e não terminou as outras duas provas por problemas mecânicos.

A carreira de Hermano da Silva Ramos nas pistas, porém, não durou muito mais. Em 1957 ele participou de dois Grand Prix extra-campeonato – o GP de Pau, na França, que terminou em sexto; e o GP de Nápoles, que foi mais uma prova abandonada por culpa do carro. Em Le Mans, A morte de um de seus grandes amigos, Alfonso de Portago, em um acidente na Mille Miglia em maio daquele ano, foi crucial para sua decisão de deixar as pistas – não por sua vontade, mas de sua esposa, que estava grávida do primeiro filho do casal. Em 1958 ele disputou algumas com sua recém-adquirida Ferrari 250 GT Berlinetta, vendendo o carro no começo do ano seguinte. Em 1959 ele também correu as 24 Horas de Le Mans pela quarta e última vez, dividindo uma Ferrari 250 Testa Rossa com o inglês Cliff Allison… e deixando a corrida depois de 12 horas por culpa da embreagem.

Não demorou muito tempo, porém, para que as preocupações de sua esposa acabassem fazendo com que Hermano deixasse as pistas de lado – ela teve uma crise nervosa e recusava-se a comer, e chegou a perder oito quilos. Foram os médicos, segundo Hermano, que lhe fizeram tomar a decisão de pendurar o volante. “Era me divorciar ou abandonar a carreira de piloto”, comentou Hermano anos mais tarde. “Fui com a segunda opção – e fiquei dois anos sem conseguir dormir depois disso!” Se não tivesse se aposentado, porém, talvez Hermano da Silva Ramos não tivesse chegado tão longe.

Há quem diga que o piloto mais idoso que conquistou um ponto na Fórmula 1 é o americano Paul Goldsmith, que corria na Fórmula Indy nos anos 1950 e 1960. Na época, a Indy 500 era parte do calendário da Fórmula 1 – e Goldsmith correu em 1958, 1959 e 1960, marcando seis pontos no total. Como Goldsmith nasceu em outubro de 1925 e é cerca de 45 dias mais velho que Hermano, tecnicamente ele é o piloto mais idoso a pontuar na F1 e que ainda está vivo.

Mas convenhamos: a Indy era parte do campeonato, mas não corria com as regras da F1. E a maioria dos pilotos da Indy não iam para a Europa disputar as outras provas. Assim como os europeus raramente iam para os EUA disputar a Indy.

Por isso, vamos considerar Hermano da Silva Ramos como o segundo mais idoso ainda vivo e o mais idoso que pontuou, ok? Não mexa com o nosso decano franco-brasileiro!

 

E o piloto mais velho a disputar uma corrida e a vencer uma corrida de F1?

Depende… o mais velho a entrar em um carro de F1 e acelerar durante um fim de semana foi Louis Chiron. A idade dele depende do que se considera a disputa. Se considerarmos a inscrição e participação dos treinos, independente de ter se classificado ou não, Louis Chiron tinha 58 anos e 277 dias quando se inscreveu para correr em casa, no GP de Mônaco de 1958. Como ele não se classificou, não largou.

Mas tudo bem, porque ele já era o piloto mais idoso a largar em uma prova de F1. Isso aconteceu três anos antes, também no GP de Mônaco. No momento da largada, Chiron tinha 55 anos e 292 dias. Ele largou na 19ª posição com um Lancia D50 e terminou a corrida em sexto lugar, cinco voltas atrás do vencedor, Maurice Trintignant e quatro à frente do sétimo colocado, Jacques Pollet.

O campeão mais idoso também era um cinquentão: Luigi Fagioli, que tinha 53 anos e 22 dias quando venceu o GP da França de 1951. Ele foi o único piloto com mais de 50 anos de idade a vencer um GP em toda a história da F1. Depois dele, quem mais se aproximou desse feito foi Giuseppe Farina, que tinha 46 anos e 276 dias quando venceu o GP da Alemanha de 1953. Juan Manuel Fangio também tinha 46 quando venceu pela última vez, no GP da Alemanha de 1957, mas ele era quase oito meses mais novo que Farina.

 

 

 

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