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História Sessão da manhã Zero a 300

Pikes Peak, 1987: os 30 anos da última vitória do Audi Quattro com Walther Röhrl

Hoje é dia 11 de julho de 2017. Sabe o que isto significa? Que, há exatos 30 anos, Walter Röhrl sentou-se ao volante do Audi Quattro, um dos carros de rali mais dominantes de todos os tempos, deu a partida e acelerou até o topo do monte de Pikes Peak, no Colorado, em 10:47,850, quebrando o recorde do trecho e conseguindo, assim, uma última glória antes que o carro de competição fosse aposentado. Nada mais justo que uma homenagem, não?

A questão é que, ao celebrar a carreira de Walter Röhrl e a excelência do Audi Quattro, fica difícil saber por onde começar. O piloto alemão, hoje com 70 anos de idade, tem uma das carreiras mais gloriosas do automobilismo, colecionando 14 vitórias no WRC, o Campeonato Mundial de Rali. Mas a verdade é que, por mais que não tenha conquistado seus dois títulos na competição com a Audi, e sim com a Fiat em 1980 e com a Opel em 1982, e que ainda hoje seja piloto de testes honorário da Porsche, Walter Röhrl sempre será lembrado por sua conexão com o lendário bólido do Grupo B de rali com o qual foi o mais rápido de todos na subida até as nuvens.

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O Audi Quattro estava em sua encarnação final. Olhando para ele, fica até difícil de acreditar que sua gênese era um cupê que compartilhava a plataforma com o Passat de segunda geração, vendido aqui no Brasil como nosso bom e velho Volkswagen Santana. Claro, depois de sete anos competindo, já não restava muita coisa do Audi Quattro de rua no carro que subiu Pikes Peak, mas é bacana lembrar desta conexão.

Walter Röhrl teve seu primeiro contato com o Audi Quattro de rali em 1984, quando a fabricante já havia conquistado o primeiro título do WRC com o carro, em 1982. Quando Röhrl entrou para a equipe, a Audi já havia realizado uma extensa reformulação no carro, reduzindo seu entre-eixos de 2.524 mm para 2.204 mm – uma maneira de reduzir a inércia polar nas curvas e, consequentemente, mudar de direção mais rápido, sem deslocar o motor para a posição central-traseira como faziam os outros carros do Grupo B de rali. Isto deixou o carro com uma cara meio esquisita, mas de um jeito legal, pois a forma seguia a função.

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O Audi Quattro do Grupo B no centro, o Lancia Delta S4 à direita e, à esquerda, o Metro 6R4, meio escondido, talvez com vergonha dos colegas

O motor, claro, era o lendário cinco-cilindros em linha, que no caso do Sport Quattro deslocava 2.110 cm³ e, sobrealimentado, entregava 480 cv a 8.000 rpm. Nesta configuração o carro teve uma vida muito curta, pois em 1986 o Grupo B de rali foi extinto pela FIA em decorrência dos graves acidentes ocorridos naquele ano. Ele só venceu uma vez, no Rali Sanremo de 1985, com o próprio Röhrl ao volante, antes que a Audi abandonasse de uma vez a competição. Na visão dos entusiastas e da própria Audi, isto era um baita desperdício, mas não havia muito o que fazer: de fato, o Grupo B havia se tornado perigoso demais para ser disputado.

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Mas ainda havia Pikes Peak. Nem todo mundo lembra disto, mas a Audi era praticamente a dona da montanha: as provas de hillclimb eram realizadas lá desde 1981, e o Audi Quattro só não havia vencido no primeiro ano. De 1982 a 1986 os alemães simplesmente dominaram a subida, quebrando recorde atrás de recorde todos os anos. O próprio Sport Quattro já havia triunfado lá, em 1984 e 1985 com Michèle Mouton, e em 1986 com Bobby Unser. O melhor tempo de Mouton havia sido 11:25,390, em 1985, e no ano seguinte Unser virou 11:09,220.

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Em cima, o carro de Michèle Mouton e embaixo, o carro de Bobby Unser

A Audi sabia que não havia muito mais futuro para o Sport Quattro, e então decidiu encerrar sua carreira gloriosa com chave de ouro. Livres do WRC, os engenheiros de Ingolstadt puderam concentrar todos os seus esforços em transformar o Audi Sport Quattro em uma máquina de escalar montanhas e colocar Walter Röhrl para domá-la.

O carro era substancialmente diferente dos outros anos. Em vez de um monobloco, era construído sobre uma estrutura tubular, conservando apenas as linhas gerais da carroceria. Com isto, o carro perdeu alguns quilos e a distribuição de massa entre os eixos chegou à relação mágica de 50/50, graças ao reposicionamento de diversos componentes.

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O kit aerodinâmico foi completamente redesenhado, ganhando um spoiler dianteiro e uma asa traseira ainda maiores. Segundo o próprio Röhrl: “a Audi percebeu que o segredo para ser rápido na terra era ter bastante downforce para transmitir a força para o chão. O carro fazia curvas muito bem, como em um circuito. Sem toda aquela aerodinâmica, não tinha como ser tão rápido”.

A suspensão também foi completamente refeita: em vez do sistema McPherson com braços inferiores utilizado nas quatro rodas até então, o Sport Quattro recebeu braços sobrepostos na dianteira e na traseira. O motor de cinco cilindros tinha potência declarada em cerca de 600 cv, mas quem estava por dentro das coisas dizia que o número era assustadoramente próximo dos 1.000 cv. Röhrl disse uma vez que, na real mesmo, a potência era de cerca de 750 cv, e que o acelerador era “como um botão de liga/desliga”. Acreditamos nele, pois dá para notar esta característica no vídeo abaixo, gravado durante o reencontro de Röhrl com o carro em 2010.

Esta força toda era moderada por um câmbio manual de seis marchas com alavanca de engate rápido, o melhor que se podia conseguir em uma época em que borboletas atrás do volante ainda não eram populares. O câmbio, por sua vez, era ligado à rodas por três diferenciais (dianteiro, central e traseiro), todos com autoblocante.

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No dia da subida, Röhrl estava até tranquilo Ele havia conversado com seu grande rival, Ari Vatanen, que subiria a montanha ao volante do Peugeot 205 T16 – outro “órfão” do Grupo B. Vatanen disse que, por mais que a Peugeot tivesse ido semanas antes até Pikes Peak para treinar, ainda não tinha certeza. Röhrl sabia que a montanha não admitia erros, e sabia que sua esposa estava preocupada com ele. Ela tinha certa razão: Röhrl estava prestes a encarar 156 curvas em uma estrada coberta de terra, com a largada a mais de 1.000 metros de altitude, chegada a mais de 4.300 metros, e uma queda livre assustadora caso o piloto perdesse o controle e saísse da pista.

Se Röhrl tivesse errado em algum momento é bem provável que este post fosse uma homenagem póstuma 30 anos depois de sua morte. Mas ele foi impecável, como ficou registrado nas filmagens feitas com um helicóptero, que você confere no vídeo abaixo, e também nas fotografias que estão espalhadas por este post.

Kehrt nach 25 Jahren im Audi Sport quattro S1 auf den Pikes Peak in den USA zurueck: Walter Roehrl.

Walter Röhrl não só subiu a montanha mais rápido que todos os outros carros naquele dia, mas também mais rápido do que seus colegas nos anos anteriores. Ele foi o primeiro a quebrar a barreira dos dez minutos, cumprindo os 20 km do trajeto em 10:47,850, como já dissemos. Ele finalmente podia se aposentar, e aposentar o Audi Quattro, em paz.

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É claro que não foi isto que Röhrl fez: ele preferiu continuar ganhando a vida ao volante, desta vez como piloto de testes, e segue nesta até hoje, aos 70 anos de idade. Longa vida ao rei da montanha!

Sugestão do leitor Fórmula Finesse