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Achados meio perdidos Car Culture

…Porque na Rússia, o V8 vai na traseira: este Tatra já serviu à KGB – e está à venda

Produzido de 1956 a 1975, o Tatra 603 (leia aqui nosso texto sobre ele e outros ícones automotivos comunistas) é, certamente, o automóvel mais conhecido da fabricante tcheca. Seu visual exótico, com formas arredondadas, perfil em forma de gota, uma “barbatana” na seção traseira e faróis abrigados em uma redoma transparente, o torna instantaneamente reconhecido por qualquer entusiasta que se interesse pelos carros do Leste Europeu.

Além do design, o Tatra 603 tinha suas excentricidades mecânicas, sendo a maior delas o motor V8 arrefecido a ar e montado na traseira, com 2,5 litros de deslocamento e cerca de 100 cv. Não era exatamente potente, mas o 603 também não era um esportivo, e sim um sedã de dois volumes de luxo criado para atender aos oficiais do regime comunista soviético.

O que nem todo mundo sabe é que seu sucessor, o Tatra 613, é quase tão interessante quanto – ainda que menos radical em suas linhas.

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O 613 começou a ser desenvolvido em 1968, visto que o 603 já estava começando a ficar ultrapassado, e começou a ser produzido na antiga Tchecoslováquia em 1973. Do ponto de vista estético, a revolução foi grande: o carro agora tinha linhas visivelmente influenciadas pelos carros da Europa ocidental, deixando as curvas e o jeitão de “carro bolha” por algo mais retilíneo e limpo. As proporções eram mais harmônicas e a traseira fastback era ligeiramente arrebitada, quase como em um três-volumes.

A nova identidade visual do Tatra de luxo era de autoria italiana: para torná-lo mais sofisticado, a Tatra recorreu à famosa carrozzeria italiana Vignale. Seus automóveis exclusivos, feitos sobre bases de modelos consagrados da Ferrari, Fiat, Alfa Romeo e Lancia e, ocasionalmente, fabricantes de outros países, como a BMW, a AMC e a própria Tatra.

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Ao abrir o capô (lembre-se, lá atrás), notava-se que o motor – agora com 3,5 litros, mas ainda com oito cilindros em V e arrefecido a ar – ficava mais próximo do meio do carro. Agora, quatro cilindros ficavam à frente do eixo traseiro, e outros quatro ficavam atrás. A Tatra chamou a configuração de “motor semi-central-traseiro”, e o principal benefício citado pela companhia foi a melhora no comportamento dinâmico.

O câmbio, manual de quatro marchas, ficava à frente do eixo, na região abaixo do banco traseiro (o diferencial ficava ao lado do cárter). Isto melhorava a distribuição de peso do carro e, consequentemente, tornava a traseira mais estável nas curvas. A fama do Tatra 603 não era das melhores neste aspecto – conta-se que, devido a sua tendência ao sobresterço de difícil controle, diversos oficiais do regime nazista se feriram gravemente ou morreram em acidentes com o Tatra 603, rendendo-lhe o apelido de “a arma secreta tcheca”.

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O novo motor tinha comando duplo no cabeçote e dois carburadores de corpo duplo, e entregava 163 cv. Era o suficiente para levar o sedã de mais de cinco metros de comprimento e 1.600 kg até os 100 km/h em 12,7 segundos, com velocidade máxima de 190 km/h – dados divulgados pela fábrica na época. O 613 também tinha coluna de direção escamoteável (que se dobrava no caso de uma colisão frontal, reduzindo as chance de empalamento do motorista); freios com discos ventilados na dianteira e na traseira com circuito duplo e servo-assistência, e suspensão independente do tipo McPherson na dianteira, com braços semi-arrastados na traseira.

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Foi por isto que, ao longo dos anos, as melhorias no 613 se resumiram a reestilizações em 1980, 1985 e 1991. E foi por isto que a KGB – o Comitê de Segurança do Estado, que era mais ou menos como a CIA da União Soviética, responsável por guardar as fronteiras, realizar investigações especiais e garantir a segurança dos líderes do Partido Comunista – fez questão de utilizar o Tatra 613 como principal veículo oficial em suas bases na Tchecoslováquia até sua dissolução, em 1991. E este carro, que por alguma razão foi importado para os Estados Unidos, está à venda.

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Trata-se de um Tatra 613 fabricado em 1989 e o vendedor afirma estar simplesmente impecável. Está, inclusive, com as placas registradas em nome da KGB, além da sirene e das lâmpadas usadas nas patrulhas. O motor, que em 1991 já tinha aderido à injeção mecânica e, com isto, entregava 200 cv, funciona perfeitamente, bem como os outros sistemas do carro. O hodômetro marca apenas um pouco mais de 25.000 km. É quase um seminovo!

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Considerando que o Tatra 613 era um carro produzido de forma quase totalmente artesanal, em quantidade limitada, é impressionante o fato de um exemplar usado pela KGB estar à venda longe da República Tcheca, ainda mais em estado tão original – mesmo os pneus de fábrica (que, ironicamente, são da Rosava, fabricados na Ucrânia) ainda estão no carro.

Além disso, há diversos outros opcionais exclusivos para uso da KGB, como uma antena removível e um botão kill switch que desliga o motor e todos os sistemas do carro com um toque. Durante toda sua vida, este 613 foi mantido com muito zelo pelos oficiais da KGB, e jamais foi usado em perseguições ou missões que envolvessem direção agressiva. Bom, caso tenha o feito, certamente não declarariam também.

O valor é bem interessante para um veículo com histórico oficial em tão bom estado: US$ 6,6 mil, ou R$ 20,5 mil. É claro que a gente teria de esperar ao menos dois anos para comprar um (ou mantê-lo guardado num galpão até poder importá-lo ao Brasil), mas esta seria nossa melhor chance de adquirir um Tatra 613 no ocidente.

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Dizemos isto porque existiu uma versão do Tatra 613 exportada oficialmente para a Europa Ocidental. Mais precisamente, para o Reino Unido, onde uma versão com injeção eletrônica multiponto e catalisadores capaz de entregar 220 cv foi oferecida como uma alternativa a modelos da Jaguar, da BMW e da Mercedes-Benz. Não fez muto sucesso: apenas quatro exemplares foram fabricados.

O carro foi, inclusive, testado pelo Top Gear em 1993, e não foi exatamente elogiado…

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