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Car Culture

Qual a verdadeira origem das chaves de ignição no lado esquerdo dos Porsche?

Já dizia certo filósofo espanhol que o maior dos tesouros humanos é a tradição. Animais podem ser inteligentes, mas somente os humanos podem passar adiante toda a experiência de uma longa vida para as próximas gerações. A tradição mantém vivo o passado no futuro e, embora pareça contraditório, nos empurra para a evolução. Sem essa transmissão (que é justamente a origem da palavra) recomeçaríamos do zero cada vez que um novo ciclo iniciasse.

Isso se aplica também aos carros. Cada elemento tradicional presente em um carro fabricado em 2016 simboliza sua história, os feitos e acontecimentos que trouxeram seu fabricante até aqui. A Porsche, por exemplo, que faz questão de manter o motor “pendurado na traseira” do 911 como uma característica da marca. Trata-se de manter uma relação direta com o modelo que começou toda sua história, o 356. Os engenheiros e executivos da marca sabem que um motor à frente do eixo tornaria o carro mais equilibrado — tanto que ainda em sua primeira década de história ela fez o 550 Spyder com esse layout. Mas ao longo dos anos a marca manteve a tradição do motor traseiro e evoluiu sobre ela. Hoje o 911 em suas versões mais potentes é o que chamamos de supercarro. São carros equilibrados, que vencem corridas, que andam na frente dos seus rivais. Toda a bagagem histórica da Porsche está contida naquele motor pendurado na traseira.

E isso nos traz ao verdadeiro tema deste post, a outra velha tradição dos Porsche: a ignição no lado esquerdo. Sua história é bem menos conhecida que a do motor traseiro.

Os primeiros Porsche da história não eram alemães nem tinham a chave na esquerda. Eles foram fabricados na Áustria entre 1947 e 1950, durante o exílio de Ferdinand Porsche, e tinham a ignição na parte central do painel.

A Porsche diz que a ideia de usar a chave no lado esquerdo veio das corridas, mais exatamente das largadas estilo Le Mans, na qual os carros ficam alinhados a 45 graus em relação à pista, e os pilotos ficam no outro lado da pista. Ao ser dada a largada, eles devem correr, entrar no carro, ligar o motor e arrancar. A chave na esquerda permite que os pilotos entrem no carro, deem a partida com a mão esquerda enquanto engrenam a marcha com a direita.

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Só que não foi a Porsche que inventou isso. A própria marca reconhece que a ignição na esquerda é usada desde a década de 1920. Nessa época os engenheiros de corrida já tinham percebido as vantagens de se ter a partida no lado esquerdo e Ferdinand Porsche era um deles. Os Mercedes SSK dos anos 1920 e 1930, que foi projetado por ele, tinham o cilindro de ignição na esquerda nos carros com o volante à esquerda, e no lado direito no carros com volante na direita — ou seja: sempre na mão oposta à do câmbio.

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A Porsche só daria as caras em Le Mans três décadas depois, na edição de 1951. A fabricante pegou dois Porsche 356 feitos em Gmund, que tinham carroceria de alumínio, fez algumas modificações, rebatizou os carros como 356SL e os alinhou em La Sarthe no dia 23 de junho daquele ano. Só que a posição da chave de ignição não estava entre estas modificações: sendo modelos Gmund, a ignição ficava na parte central  do painel, acima da alavanca de câmbio.

Porsche 356 SL “Gmund Coupé”: o primeiro Porsche a vencer sua categoria em Le Mans

À primeira vista isso significa que a ignição na esquerda estreou na edição seguinte de Le Mans, porém em 1952 os 356SL que a Porsche levou à França também eram Gmunds, com a chave na parte central do painel. O primeiro Porsche a correr em Mans com a chave na esquerda não foi um modelo, mas dois: o Porsche 550 Coupé, e um 356 SL 1953, que disputaram as 24 Horas de Le Mans de 1953.

Dilema resolvido.

Não tão rápido. Em 1950 a Porsche voltou para a Alemanha e se instalou em Zuffenhausen onde os 356 voltaram a ser fabricados em 1951. Na mudança de casa, contudo, o 356 passou por algumas modificações e, entre elas estava o novo painel. Com o redesenho do interior a porção central ganhou um rádio e a ignição foi deslocada para a extremidade do painel, à esquerda da coluna de direção.

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Isso significa que antes mesmo da Porsche pensar em disputar Le Mans seus carros de rua já tinham a ignição na esquerda. Não só isso: os primeiros carros de corrida da Porsche com a ignição na esquerda surgiram naquele mesmo 1951, das 17 corridas que a Porsche participou naquela temporada, somente as 24 Horas de Le Mans tiveram largada ao estilo Le Mans. Nas outras 16 a posição da ignição não faria diferença alguma na largada.

Neste 356 1952, que disputou a Mille Miglia, a ignição já está no lado esquerdo. A Mille Miglia tinha largada por horário fixo (3:14 nesse caso, como indica seu número) e aconteceu 41 dias antes de Mans

Mas antes que você pense que a Porsche está mentindo, vale voltar na afirmação da marca, desta vez, retirada de sua página oficial:

A Porsche e o automobilismo são virtualmente inseparáveis. A tradição da Porsche em décadas de automobilismo sempre formou uma parte intrínseca da marca. A mão esquerda liga o motor: já em 1925 o posicionamento do interruptor de ignição à esquerda da direção permitiu que os pilotos ligassem seus motores mesmo quando ainda estavam terminando de entrar no carro na largada do pit wall em Le Mans. E quando algo funciona bem, nós mantemos daquele jeito”. 

O trecho nos parece claro: sim, a origem da ignição canhota da Porsche está nos carros de Le Mans, mas não nos Porsche de Le Mans. Seus carros de rua é que foram influenciados por um velho hábito dos corredores de Le Mans no início do século XX. Mas não se engane: isso não tira o valor da tradição, afinal, com exceção dos modelos desenvolvidos em parceria com a VW (914, 924/944) e do 356 Speedster, todo Porsche fabricado depois de 1951 — incluindo os carros de Le Mans — têm o cilindro de ignição no lado esquerdo.

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