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Senna e o Porsche 956: quando o brasileiro pilotou uma lenda de Le Mans

Ayrton Senna tornou-se uma lenda ao vencer três títulos mundiais de Fórmula 1 (1988, 1990 e 1991) — e ninguém sabe o que ele ainda poderia fazer se não fosse aquele trágico 1º de maio de 1994. Talvez até tivesse participado das 24 Horas de Le Mans, como diversos pilotos de Fórmula 1 já fizeram, afinal, Senna também tinha alguma experiência com os protótipos.

Não é novidade que, além de sua carreia brilhante na Fórmula 1, Senna também pilotou carros de outras categorias — a gente mesmo já contou da corrida na qual ele venceu nomes consagrados da Fórmula 1 quando ainda era um iniciante, em 1984; e do dia em que ele pilotou diversos carros de rali (leia os posts aqui e aqui).

Caso você não lembre: em maio de 1984, Senna foi chamado para uma corrida promocional da Mercedes-Benz e, ao volante de um 190E, deu algumas voltas bem animadas no então novo circuito de GP do Nürburgring. E foi exatamente lá que, naquele mesmo ano, ele pilotou um Porsche 956.

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Sim, exatamente aquele que foi o primeiro protótipo do Grupo C a vencer as 24 Horas de Le Mans, com uma vitória tripla em 1982 e um verdadeiro massacre em 1983, quando nada menos que nove entre os dez primeiros colocados na corrida eram Porsche 956. Você deve lembrar dele, que tinha um flat-6 turbo que, mesmo com apenas 2,65 litros que de deslocamento, entregava pelo menos 640 cv — nos treinos de classificação, podia chegar aos 800 cv.

Uma das equipes que correram em Le Mans com o Porsche 956 em 1983 foi a Joest Racing, fundada pelo veterano piloto Reinhold Joest, que na década de 1970 era piloto da Porsche. Ou seja, o cara era exigente. E ele também sabia reconhecer talento bruto quando via. E foi exatamente o que ele viu no GP de Mônaco de Fórmula 1 de 1984, que aconteceu no mês de junho. Pilotando pela Toleman, o estreante Ayrton Senna surpreendeu ao cruzar a linha chegada em segundo lugar, logo atrás de Alain Prost, debaixo de chuva. Foi ali que o mundo viu que precisava prestar atenção naquele brasileiro.

Está com tempo? Assista à corrida inteira no vídeo acima!

Reinhold Joest não era exceção e, por isso, convidou Ayrton Senna para ocupar um assento em um dos Porsche 956 da equipe. Se coloque no lugar de Senna: ele era jovem, havia acabado de entrar na Fórmula 1 e ainda estava curtindo o excelente resultado em Mônaco. É claro que ele topou!

Agora, a corrida disputada não seriam as 24 Horas de Le Mans, mas sim os 1.000 Km de Nürburgring — exatamente no circuito GP, no qual Senna venceu a Corrida dos Campeões com o Mercedes-Benz 190E. Terreno conhecido, e mais um motivo para que Senna aceitasse o convite.

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O Porsche 956 que Senna pilotou tinha a pintura amarela e preta da Newman Joest Racing e, nas poucas imagens que existem, combina muito bem com seu capacete nas cores do Brasil. E, segundo consta, Senna fez bonito na pista.

Chovia no primeiro dia de testes, e se você conhece o mínimo da história de Ayrton Senna, sabe que isto não era um problema. Tanto que foi com chuva que ele conseguiu o sétimo lugar nos treinos gerais e conquistou o nono lugar no grid — mesmo sem jamais ter pilotado um protótipo na vida. Senna disse que o carro era sensivelmente mais pesado que um monoposto de F1, mas quase tão rápido quanto.

Apesar de largar muito bem, o carro teve problemas na embreagem logo nas primeiras voltas e passou 15 minutos nos boxes. Foi preciso virar o carro de ponta-cabeça, mas a equipe Joest conseguiu consertar e devolvê-lo à pista. O problema é que Senna estava oito voltas atrasado. No entanto ele e seus companheiros de carro, Stefan Johansson e o lendário francês Henri Pescarolo, conseguiram ainda terminar a corrida na oitava posição.

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Depois da prova, Reinhold Joest fez questão de elogiar o desempenho de Ayrton Senna. “Ele foi rápido logo nos primeiros treinos. Depois da corrida, ele ficou umas quatro horas conversando conosco, dando sugestões para deixar o carro mais rápido. Senna queria conhecer tudo sobre o 956. Trabalhou de maneira muito profissional para nós”.

Foi a última corrida de Senna em um carro fechado — depois disso, só monopostos. Mas a gente não pode deixar de imaginar que, caso tivesse chegado ao pódio (algo que, para a equipe, seria plenamente possível se não fossem os problemas na embreagem), Senna talvez tivesse acelerado protótipos outras vezes.

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Curiosamente, o vencedor dos 1.000 Km de Nürburgring naquele ano foi Stefan Bellof — que, como Senna, foi chamado pela Porsche depois de seu desempenho no GP de Mônaco de 1984. Bellof continuou com os protótipos, e foi ao volante de um Porsche 956 durante os 1.000 Km de Spa-Francorchamps que sua carreira promissora terminou de forma trágica — em uma história que já contamos aqui.

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