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Track days em perigo: novo regulamento imposto pela CBA pode inviabilizar eventos no Brasil

Há menos de três meses celebramos o fato dos track days e eventos de pro solo finalmente terem se popularizado no Brasil. Os entusiastas passaram a ter opções para acelerar com segurança e qualidade e se divertir com os amigos a preços relativamente acessíveis e, principalmente, sem a necessidade de competição entre si.

Mas agora a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) decidiu obrigar a afiliação dos participantes de track days à entidade (o que implica em pagar uma taxa anual para obter uma licença) e, mais ainda, decidiu impor algumas regras para a realização destes eventos em documento redigido em setembro deste ano — aparentemente sem a participação, nem demanda dos organizadores de track days — mas que só se tornou público nesta semana.

As novas regras mostram uma certa preocupação com a segurança dos participantes, o que é sempre louvável, mas traz muitos pontos questionáveis a respeito de certas imposições e também algumas exigências sem maiores detalhamentos. Nestas imagens abaixo você pode ler o texto na íntegra, que vamos comentar em detalhes neste post.

 

O primeiro ponto polêmico é a obrigatoriedade de cédula desportiva específica para a categoria. Veja o trecho do texto que dispõe sobre isso:

2.0 – PARTICIPANTES: Os participantes do Track Day deverão possuir cédula desportiva especifica para a categoria.

Em outras palavras isso obriga os praticantes de track days a se afiliarem às federações estaduais ou à CBA. Só que essa imposição não tem base legal, pois a Constituição Federal de 1988 proíbe a obrigatoriedade de afiliação e tampouco o Código Desportivo de Automobilismo (CDA) prevê esse tipo de cédula para o piloto.

O negócio fica ainda mais absurdo pois o track day não é uma categoria desportiva, não há competição nem campeonato que justifiquem a exigência de uma cédula especial. Em uma comparação simples, é como se as federações de ciclismo exigissem carteira esportiva para os ciclistas que treinam regularmente em ciclovias. O caráter dos track days é meramente recreativo, e visa oferecer um lugar onde motoristas amadores (e não pilotos) possam acelerar seus carros em lugar adequado.

Mais adiante o texto fala sobre a obrigatoriedade da presença de Comissários, Diretor de Prova e equipe de sinalização (!). Veja só:

3.0 – OFICIAIS DE COMPETIÇÃO: Para a realização do evento será obrigatória a presença dos seguintes Oficiais de Competição:

– 01 Comissário Desportivo indicado pela FAU sede do Evento; – 01 Diretor de Prova indicado pela FAU sede do Evento;
– 01 Comissário Técnico indicado pela FAU sede do Evento;
– Equipe de Sinalização de pista;

– Secretaria de Prova.

A justificativa é que os comissários devem vistoriar os carros e aplicar o Regulamento Técnico e Desportivo. Uma iniciativa correta se não fosse um detalhe: track days não têm regulamentos técnicos (que dispõem sobre as características permitidas para inscrição dos carros) e não são eventos desportivos pois não há competição entre os participantes. Sem regulamentos não há o que fiscalizar.

Para ter o que fiscalizar, seria preciso criar regulamentos. É até possível criar regulamentos técnicos para um track day, mas não há razão para isso, uma vez que os carros não competem entre si — o que também impede a criação de um regulamento desportivo. Como criar regras sobre uma competição que não existe?

Como no restante do mundo, os track days brasileiros são organizados por grupos privados ou até mesmo pessoas físicas independentes de confederações esportivas. Até mesmo a FIA, a Federação Internacional do Automóvel, entende que os track days são eventos recreativos e justamente por isso não precisam de regulamentação.

Contudo, a medida mais polêmica e questionável de todo o regulamento diz respeito ao uso de pneus slick:

6.0 – VISTORIAS DOS VEÍCULOS:

A vistoria deverá ser realizada pelo Comissário Técnico e será obrigatória para todos os veículos que venham a participar do Evento. Os veículos devem estar em perfeito estado de conservação, com atenção especial ao conjunto pneus / rodas / suspensão / luzes de sinalização / freios.

Não será permitido o uso de pneus do tipo “REMOLD” de qualquer marca. Caso o veículo esteja equipado com pneus “SLICK”, estes deverão ser novos (sem uso no momento da vistoria técnica).

Será obrigatório nos veículos, a presença de gancho para resgate, de cinto com 3 arnesses e de extintor de incêndio dentro do prazo de validade.

A partir de agora, você só poderá correr com pneus slick se eles forem novos no início do evento. Você não entendeu errado: para usar pneus slick, eles deverão ser 100% novos, sem uso algum. Você terá que comprar um jogo por track day, ainda que eles durem muito mais do que isso.

A maioria dos participantes usa slicks usados, que foram doados ou revendidos a preços modestos por equipes de categorias de turismo, afinal, um jogo de pneus slick novos pode chegar a mais de R$ 5.000. E isso não é uma prática brasileira, não. Em todo o mundo os participantes de track days correm com pneus slick usados, muito mais baratos. Além disso, quase todas as categorias de acesso de turismo e até de monopostos usam slicks usados em sessões de treinos livres.

Ainda a respeito da vistoria dos veículos, note que é obrigatória a presença de gancho para reboque e cintos de três pontos, contudo, não há esclarecimentos sobre a presença de ganchos em carros antigos, nem sobre seus cintos sub-abdominais ou sobre cintos de quatro, cinco e seis pontos. Eles serão permitidos? Haverá exceções para esses carros?

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Track Days e Hot Laps: sem disputas por posições em pista, sem competição

Diante de todas essas dúvidas, o FlatOut entrou em contato com a assessoria da CBA solicitando mais esclarecimentos sobre os pontos levantados neste post. Até o momento eles não enviaram as respostas (certamente devido ao volume de mensagens que devem estar recebendo em relação ao assunto), mas repassaram nossas perguntas ao presidente do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN), Nestor Valduga. Vamos aguardar as respostas e, caso respondidas, elas serão publicadas em um novo post com o devido destaque.

O regulamento ainda dispõe que os autódromos que não cumprirem as novas regras para track days poderão receber multas e até mesmo a cassação da licença da CBA. Se esse regulamento for mantido como está, os track days correm um sério risco no Brasil. As exigências da CBA encarecem a realização dos eventos, um custo que seria repassado aos participantes e que, por isso, pode inviabilizar novos track days devido ao alto custo e à baixa demanda.

[ Foto de abertura: Rafael Micheski ]

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