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Carros Antigos

Os Porsche 911 da vez: os modelos “Mezger”

Você conhece a tal janela dos 30 anos dos carros clássicos, não? Talvez a freada que o mundo deu na pandemia tenha distorcido nossa percepção do tempo, mas a década de 2020 já está na segunda metade — o que significa que 30 anos atrás foi 1996. Muita gente aqui já dirigia ou, no mínimo, apreciava os carros naquele ano.

Essa janela é a que coloca os carros de 30 anos atrás no mainstream do mercado de clássicos — foi ela que fez, por exemplo, os Gol GTI passarem dos R$ 100.000, e foi ela quem colocou um Omega 1993 no programa “vintage” da GM do Brasil. É claro que os entusiastas mais atentos já estavam de olho nesses carros muito antes da janela se abrir. Você compra quando quase ninguém quer esses carros e paga barato.

A mudança drástica que o mercado sofreu a partir dos anos 2010, contudo, mudou um pouco a lógica do mercado. Nos últimos 15 anos, a oferta de carros com as características mais desejáveis pelos entusiastas reduziu drasticamente. A última Ferrari manual, por exemplo, foi produzida em 2012. A BMW já não faz mais nenhum M Car aspirado desde 2013. Quer um 911 aspirado? Sobrou só o GT3. A experiência pura de condução se tornou um nicho do mercado sem que o mercado escolhesse isso — muito das mudanças foi forçado por regras de emissões e metas de consumo. Isso explica, por exemplo, os valores de carros como o Zonda e a Ferrari Enzo nos leilões recentes.

Ao mesmo tempo, o automobilismo se distanciou completamente dos carros de rua. Em 1996 você poderia levar para casa uma versão de homologação do Mitsubishi Lancer Evo do Tommi Mäkinen ou do Escort RS Cosworth do Carlos Sainz. Mesmo no andar de cima de Le Mans, havia versões de homologação — inalcançáveis para o homem comum, mas ainda acessíveis aos milionários de sempre — estou falando do Porsche 911 GT1 Strassenversion e do McLaren F1 ou mesmo da Ferrari F40 LM. Por isso, nos últimos anos vimos uma valorização contínua dos carros dos anos 1990, mas também dos anos 2000 e 2010, anteriores à essa mudança na indústria.

Como qualquer janela, nesta dos 30 anos, você não enxerga apenas o que está centralizado em sua abertura. É possível olhar mais além em todos os lados — e isso explica o porquê dos carros mais valiosos da história ainda terem entre 60 e 70 anos, e também por que os carros mais importantes dos últimos 20 ou até 15 anos já estão começando a valorizar.

Claro, há muita especulação neste segmento — neste último final de semana, uma Enzo amarela, uma LaFerrari Aperta amarela e uma 360 Challenge Stradale verde atingiram valores “intrigantes”, para dizer o mínimo. Pode ser especulação? Provavelmente. Mas também pode ser um sinal de que a janela agora é de 20 anos, com essa acelerada que a indústria deu um direção à eletrificação e ao afastamento do motorista como peça-chave, ainda que sutil.

À medida que essa aceleração se confirma, a janela deixa de ser um simples marcador cronológico e passa a ser uma questão de oportunidade. Se os carros realmente estão entrando no radar antes dos 30 anos, então é necessário se mover antes que a onda bata na praia. E alguns modelos que hoje ainda orbitam uma faixa relativamente “racional” de preço podem não permanecer assim por muito tempo.

Entre eles, poucos parecem tão subestimados quanto os Porsche equipados com o chamado motor Mezger. Em um mercado que já absorveu quase todos os ícones óbvios dos anos 1990 e 2000, os Mezger ainda estão na fase em que todos os entusiastas sabem que são especiais, mas o mercado parece que ainda não percebeu. O mesmo acontece, em um degrau muito mais abaixo, com os Cayman S manuais 987 (um carro que eu compraria hoje sem pensar muito na faixa dos R$ 300.000).

É uma calmaria enganosa, típica de modelos que só revelam seu valor histórico depois que um conjunto claro de fatores se alinha: escassez, relevância técnica e uma ruptura industrial que impede que algo semelhante seja feito de novo. E aqui está a questão: essa a ruptura já aconteceu. A proximidade entre o 911 de rua e o 911 de corrida nunca mais será o que foi na era Mezger — porque o mundo não permite mais que um fabricante coloque esse tipo de mecânica em produção. Não em larga escala como foi nestes Porsche. Você ainda pode ter um Cosworth de 12.000 rpm ou um motor derivado da Ferrari 499P, mas terá de fazer parte de um clube muito restrito. Muito mesmo.

Se olharmos para trás, os carros que mais valorizaram nas últimas duas décadas compartilham exatamente essa característica: são os últimos exemplares de algo. O último V12 manual, o último supercarro analógico, o último esportivo de homologação real. Os Porsche com motor Mezger fazem parte desse mesmo grupo, mas estão um passo atrás na curva de valorização — o que, historicamente, é exatamente o ponto onde se compra.

O que torna o motor Mezger especial?

Vou começar com uma resposta direta: é o último motor Porsche usado nos carros de rua que foi derivado diretamente dos carros de pista. Ele nasceu quando a Porsche percebeu que precisava criar uma arquitetura de motor que sobrevivesse tanto às demandas extremas das pistas quanto às obrigações civis, sem comprometer nenhuma das duas coisas.

É aí que entra Hans Mezger. Ele não projetou sozinho – nenhum motor é obra de um homem só –, mas foi o engenheiro que consolidou o conceito básico: um bloco dividido em duas metades longitudinalmente, com virabrequim forjado, arrefecimento com galerias redesenhadas para evitar pontos quentes, e um desenho que permitia aumentos significativos de potência sem comprometer o eixo intermediário. Esse motor foi idealizado para o 959, e tornou-se a base do 911 GT1 de 1998, que venceu as 24 Horas de Le Mans daquele ano.

Quando a Porsche decidiu lançar o 996, no fim dos anos 1990, ela já havia concluído que precisava de uma arquitetura mais barata para os modelos Carrera de grande volume. Essa arquitetura era o motor M96, criado para produção em larga escala, com bloco inteiriço, cilindros integrados e o controverso eixo intermediário com lubrificação dependente do óleo do motor. Essa solução atendia ao objetivo: fazer um 911 acessível, moderno, mais limpo e adequado às normas ambientais que ficaram muito mais duras entre 1993 e 1998.

Essa arquitetura, contudo, não serviria aos modelos de alto desempenho — Turbo, GT3 e GT2. A Porsche precisava de algo que pudesse suportar os abusos de pista. Algo com cárter seco real — os M96 tinham um tal “cárter seco integrado” que não era um cárter seco de verdade, e os engenheiros da Porsche sabiam disso e sabiam que, sob as forças G extremas dos modelos de alto desempenho, a lubrificação seria deficiente. Seria preciso um cárter seco de verdade e arrefecimento otimizado, além de tolerância para potências mais altas.

Foi assim que a Porsche adaptou a arquitetura do motor do 911 GT1 ao 996, dando origem aos M96/70 e M96.79. Como eram derivados dos motores de endurance feitos por Hans Mezger, eles acabaram conhecidos extra-oficialmente como “Mezger engines”. Foi a última vez em que um motor de rua da Porsche veio do programa de competição na linha 911 (afinal, o Carrera GT e o 918 Spyder também têm motores derivados das pistas). Os GT3 posteriores usam motores desenvolvidos pela divisão esportiva da Porsche para as duas aplicações. É parecido, mas não é a mesma coisa. Não é mais um “motor de corrida homologado” que foi amansado para as ruas.

Por isso, quando se fala em “motor Mezger”, estamos falando do fim de uma era. A valorização tardia desses motores é quase um reflexo psicológico do próprio mercado: demorou para cair a ficha de que esse é um capítulo final. E tudo o que é último tende a se tornar inevitavelmente valioso.

Quais são os Porsche “Mezger”

O primeiro deles foi o 996 GT3. Ele foi lançado em 1999 com um objetivo muito claro: ressuscitar um 911 feito para ser usado nas pistas. Enquanto o Carrera básico inaugurava a era dos 911 modernos, com produção em volume e custos reduzidos, o GT3 retomava a tradição que havia sido interrompida com o fim dos 964 e 993 RS. O papel dele era servir como base de homologação para o Porsche Cup e, ao mesmo tempo, devolver ao 911 a sensação crua de um carro projetado para ser dirigido até o autódromo e usado no limite e, ainda assim, voltar para casa rodando.

A partir do momento em que o mercado percebeu essa diferença filosófica, sua trajetória de valorização se tornou inevitável — algo que só não aconteceu antes porque o 996, como um todo, carregava o estigma estético dos faróis “ovo-frito”. É esse detalhe, irrelevante em termos históricos, que ainda mantém o 996 GT3 abaixo do seu verdadeiro valor.

Depois veio o 996 Turbo, o primeiro 911 Turbo watercooled e um carro relativamente raro em seu estado original, justamente devido à tolerância a upgrades de potência. Ele foi seguido pelo 996 GT2, o último GT2 puramente analógico da história. Foi produzido em números baixíssimos e já na época era mais caro que tudo que não tivesse portas tesoura — não por acaso, ele é o mais valorizado do grupo atualmente.

Em todos os modelos ele tem 3,6 litros e cárter seco. No 996 GT3 e GT3 RS o motor é identificado internamente como M96/79 e tem 360 cv e 381 cv, respectivamente. No 996 Turbo o código é M96/70 e a potência salta para 420 cv e, no Turbo S, 450 cv. O GT2 usa o mesmo M96/70 do Turbo/TurboS, mas com intercoolers e turbocompressores específicos e calibração própria para chegar aos 484 cv.

O motor Mezger continuou na geração 997 nas versões Turbo, GT3 e GT2. Foram eles que deram ao motor Mezger o status “cult” que ele tem hoje. Na primeira fase da geração (997.1) eles mantinham o deslocamento de 3,6 litros, porém com potência revisada: o Turbo com 480 cv, o GT3 com 415 cv e o GT2 com 530 cv. Na segunda fase da geração (997.2), lançada em julho de 2008, as versões Turbo passaram a usar o novo motor MA1 e o Mezger ficou restrito aos modelos GT. Nos GT3/GT3 RS o deslocamento passou a 3,8 litros (M97/77) e a potência subiu para 435 cv (450 cv no RS) e no GT2 RS o 3.6 foi mantido, mas com 620 cv.

Em 2011 veio o auge do 911 “Mezger” de rua: o GT3 RS 4.0. O código do motor continuou o mesmo M97/77, mas aqui ele ganhou o virabrequim do 911 RSR de corrida, bielas de titânio, pistões aliviados e fluxo dos cabeçotes retrabalhado, além de uma nova admissão. Como resultado, ele desenvolve 500 cv a 8.250 rpm/ É o único 911 de rua que efetivamente traz peças de motor diretamente transplantadas do RSR contemporâneo. Isso o coloca em um nível histórico diferente: enquanto GT3, RS e Turbo anteriores representam evoluções da arquitetura do GT1, o 4.0 é literalmente a fusão entre Porsche Motorsport e Porsche Straßenfahrzeuge. Não por acaso, ele já está muito mais valorizado que os demais modelos com o motor Mezger.

Quanto custa um Porsche “Mezger-Equipped?”

Começando pelos menos valiosos, temos o Turbo e Turbo S 996, com preço médio de US$ 80.000 — embora um exemplar em perfeito estado possa chegar aos US$ 170.000. Na prática, falamos de R$ 1.000.000 a R$ 2.400.000, considerando o custo de importação e a cotação atual do dólar.

Depois temos os GT3 e GT3 RS desta mesma geração que variam dos US$ 90.000 a US$ 200.000 — também algo em torno de R$ 1.250.000 e R$ 2.800.000. Os GT2 custam, em média, US$ 170.000, podendo chegar aos US$ 250.000 nos melhores exemplares. Em reais isso dá R$ 2.380.000 a R$ 3.500.000. Aqui estou falando apenas dos modelos com câmbio manual, ok?

Já os 997 representam um salto significativo — afinal, já são Porsche modernos, com cara de 911 (sem ovo frito) e com o conjunto “clássico”. Um 997.1 Turbo manual custa, em média, US$ 120.000, chegando a US$ 180.000. O Tiptronic é mais barato, claro: custa em média US$ 80.000.

Ainda da geração 997.1, o GT3 é vendido, em média, por US$ 140.000 — R$ 1.900.000, aproximadamente, embora um exemplar já no Brasil possa custar facilmente o dobro disso. Já o GT2 dessa geração é o primeiro Mezger a passar dos US$ 200.000: um modelo em bom estado custa, em média, US$ 290.000 (R$ 4.000.000).

Os carros da segunda fase são ainda mais especiais e, por isso, mais caros. Um GT3 3.8 custa na faixa dos US$ 180.000, enquanto o GT3 RS já salta para os US$ 300.000, em média.

Agora, os dois últimos, comprovando a teoria de que os últimos são mais especiais, são um salto de preços que também corroboram a análise de que os Mezger serão os próximos a valorizar drasticamente: o GT2 RS 991.2 custa, em média US$ 680.000. E o GT3 RS 4.0 já está pronto para bater a casa do milhão, custando, em média US$ 750.000 e com exemplares “delivery miles” já custando mais de US$ 1 milhão em leilões recentes.

A história recente mostra que quando um carro reúne pedigree de pista, construção diferenciada e o peso de representar o “último de uma era”, o mercado corrige essa defasagem rapidamente. Os Porsche Mezger preenchem todos esses critérios. E, se a aceleração da janela se confirmar nos próximos anos, quem estiver esperando o tradicional aniversário de trinta anos pode acabar descobrindo que perdeu o bonde. Isso não é especulação — é apenas a lógica do mercado, que sempre reage da mesma forma quando percebe que algo assim não será construído de novo.