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Aviões, hot rods e rockabilly: a história das pin-ups e da Kustom Kulture – Parte 1

Se formos pensar bem, não vivemos em uma época tão ruim: temos alta expectativa de vida, carros cada vez mais rápidos e insanos e tecnologia que nos permite levar no bolso toda a cultura já produzida na história da humanidade. Contudo, não há uma pessoa no mundo que, ao menos uma vez, não tenha desejado viver em algum período do passado. E, para muita gente, a época ideal foi os anos 1950.

São os adeptos da chamada Kustom Kulture, que enaltece o estilo de vida, a estética, a música e os carros dos anos 1950, 60 e 70. Hoje, vamos falar um pouco sobre como sobre como surgiu esta subcultura que, ainda que não seja 100% automotiva, tem nos carros grande parte de sua identidade – até porque, por incrível que pareça, as pin-ups e os e os automóveis nasceram quase juntos e depois foram se encontrar nos hot rods.

 

O nascimento das pin-ups

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La Farandole, de Jules Chéret

No fim do século 19 um artista francês chamado Jules Chéret estava criando uma revolução cultural. Sua especialidade eram pôsteres, a mais popular forma de publicidade na época. Grudados em postes e muros, os pôsteres eram usados para vender qualquer coisa: bebidas, produtos de beleza, pacotes de viagem, eventos e ideologias políticas.

cherettes (4)É claro que existiam milhares de artistas especializados em pôsteres, como Toulouse Lautrec, mas o diferencial de Chéret estava em seu estilo. Tenha em mente que, naquela época, a sociedade via dois tipos de mulheres: donas de casa, que realizavam todas as atividades domésticas em casa e só saíam à rua para fazer compras; e profissionais do corpo, que dançavam em casas noturnas ou vendiam sexo. Se a mulher não era uma, era a outra, e a arte refletia esta dualidade.

O que Chéret fez foi borrar esta linha – em seus pôsteres, as mulheres não estavam posando estáticas, muito menos agindo de forma deliberadamente provocante. As mulheres de Chéret eram coloridas, vivas e cheias de energia. Realizavam atividades do dia-a-dia e, quando havia sensualidade, esta era discreta e elegante, quase incidental.

Não demorou para que esta característica das ilustrações de Chéret fizessem com que sua popularidade explodisse. Sua arte estava em pôsteres de bebidas, remédios, cosméticos, apresentações musicais, peças de teatro… todo tipo de coisa.

Espalhados pelas ruas de Paris, os pôsteres de Chéret renderam ao artista a alcunha de “pai da libertação feminina”. Era uma ironia usada pela mídia na época, estimulada pelo fato de os desenhos de Chéret despertarem nas mulheres parisienses um profundo senso de liberdade: elas viam as Cherettes (como ficaram conhecidas as mulheres retratadas por Chéret) e se perguntavam porque não podiam agir com aquela espontaneidade em público. Desenhos de mulheres bonitas e sorridentes eram usados para vender cigarros, mas ainda era um tabu ver uma mulher consumindo tabaco em público, por exemplo. É desta revolução cultural que estamos falando.

Enquanto isto, na Alemanha, Karl Benz estava às voltas com o Patent Motorwagen, que é amplamente considerado o primeiro automóvel da história. Talvez ele não imaginasse a importância de sua invenção, e é provável que nem conhecesse a arte de Chéret, mas os legados de ambos se encontrariam (e se entrelaçariam) dali a poucas décadas. Nós já vamos chegar lá.

O trabalho de Chéret, que morreu em 1932 aos 96 anos de idade, ficou absurdamente popular e influenciou uma legião de artistas profissionais e amadores. Além disso, abriu espaço para que a ideia de uma mulher expor seu corpo e sua sexualidade de forma consciente e intencional começasse a ser mais aceita.

Desse modo, no início do século 20, desenhos cada vez mais sensuais e fotografias de mulheres nuas ganharam popularidade entre o público masculino. A precursora deste tipo de arte foi uma ex-prostituta francesa chamada Miss Fernande. Ela abandonou a profissão depois que conheceu o fotógrafo Jean Agélou, especializado em fotos eróticas.

 

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Uma das poucas fotos de Miss Fernande que podem ser publicadas no FlatOut, acredite

Na época, era comum que profissionais do sexo e atrizes de espetáculos voltados ao público adulto fossem fotografadas, nuas ou não, em poses sensuais, e as imagens fossem comercializadas para fins de, digamos… auto-entretenimento. Miss Fernande era a mais famosa delas e, por isto, costuma-se dizer que ela foi a primeira pin-up, ainda que o termo só tenha começado a ser usado popularmente décadas depois. Mas quando isto aconteceu, exatamente?

 

Beleza em tempos de conflito

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Vamos avançar algumas décadas – mais precisamente, para o fim da década de 1930. Os anos — e o imaginário coletivo masculino — trataram de popularizar os desenhos e imagens de modelos sensuais entre os jovens. Só que estes rapazes tiveram suas vidas normais interrompidas quando os alemães invadiram a Polônia no dia 1º de setembro de 1939 e, dois dias mais tarde, o Reino Unido e a França declararam guerra contra os alemães. Não demorou para que outros países se juntassem aos Aliados para combater o Eixo e assim, jovens do mundo inteiro precisaram pegar em armas e ir à guerra.

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Mas eles continuavam sendo jovens, e quase todos levavam consigo aquelas fotos e desenhos de belas garotas para trazer alguma distração nas raríssimas oportunidades de tempo livre. Soldados dos dois lados do conflito penduravam as fotos com alfinetes (pins, em inglês) em seus armários nos alojamentos, o que popularizou o termo pin-up girl.

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Uma das mais famosas pin-up girls era a atriz, cantora e dançarina americana Betty Grable. Você pode até não ser um entusiasta do cinema antigo, mas certamente já viu esta imagem:

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Sua foto posando em trajes de banho, feita por Frank Powolny (que ficou famoso por clicar vários ensaios com Marilyn Monroe nos anos 50), foi a mais vendida para os soldados da infantaria americana durante a Segunda Guerra. Se Miss Fernande foi a primeira pin-up girl, é certo que Grable é a mais famosa delas, seguida de perto por Bettie Page, Rita Hayworth e a própria Marilyn Monroe.

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Acontece que as mulheres bonitas não estavam apenas nos armários dos soldados: elas também começaram a aparecer nas fuselagens dos aviões usados na guerra e eram, muitas vezes, pintadas pelos próprios pilotos. A tradição vinha da Primeira Guerra Mundial, quando os pilotos europeus (especialmente os italianos) decoravam seus aviões com brasões de família ou animais assustadores para intimidar os inimigos.

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A diferença era que agora, em vez de olhos raivosos e bocas com os dentes à mostra, os aviões eram decorados com desenhos de mulheres que, vejam só, bebiam muito na fonte de Jules Chéret: os traços, as poses inocentes com uma sensualidade quase (ênfase no “quase”) acidental, as cores… tudo remetia aos pôsteres do artista francês – obviamente, com mais ousadia e menos roupas, pois o mundo já não era tão puritano quanto antes.

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Os pilotos diziam que as garotas davam sorte, mas que também podiam distrair os pilotos das forças inimigas com sua beleza. Exagero ou não, o fato é que estas garotas também começaram a ser chamadas de pin-up girls. E você deve ter começado a notar que o termo foi ganhando um significado cada vez mais amplo.

Não demorou para que as unidades começassem a levar a sério aquele negócio de criar as pin-ups mais bonitas, sensuais e bem desenhadas. Sempre havia um ou outro soldado que, por acaso, também era um excelente desenhista. Na falta de um, algumas bases chegavam a contratar artistas profissionais apenas para a tarefa. Era quase uma competição, ora entre aliados, ora entre inimigos.

Não é difícil entender: apesar das circunstâncias, muitos combatentes eram jovens que definitivamente não queriam estar ali e dariam qualquer coisa para largar as armas e voltar a se preocupar apenas com coisas de garoto. Esta “competição” para ver quem tinha a melhor pin-up era até uma forma de afastar a mente dos horrores da guerra, mesmo que por pouco tempo.

“OK, mas o que isto tem a ver com os carros?”, talvez você esteja se perguntando a esta altura. A resposta: tudo.

 

Hot cars, hot girls

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A Segunda Guerra chegou ao fim em 1945, os Aliados venceram e os jovens que voltaram inteiros queriam retomar sua vida. Por sorte, nos EUA florescia uma subcultura automotiva sob medida para eles: os hot rods.

Sua história está intimamente ligada ao surgimento das primeiras provas organizadas de aceleração em linha reta, que começaram a ser disputadas no fim dos anos 1930 em lagos secos pelo sul da Califórnia. A Southern California Timing Association (SCTA) era responsável pela organização dos eventos em que o objetivo era atingir a maior velocidade em uma determinada distância.

No início, as provas eram disputadas por protótipos feitos especialmente para aquilo, mas a partir de 1945 os soldados que voltavam da guerra e procuravam uma distração acabaram levando também seus carros, que eram modificados com motores maiores e componentes de várias marcas diferentes e costumavam ser chamados de “hot rods” (leia mais aqui). A vida militar ensinou a vários deles os benefícios da indução forçada, fluxo de ar, alívio de peso e afins.

Como se não bastasse, diversas bases militares construídas para a Guerra foram abandonadas após o conflito mundial, e isto estreitou ainda mais a relação entre o fim da Guerra e a popularização da cultura hot rodder. Como? Basta lembrar que normalmente as bases militares tinham pistas de pouso – e você sabe o que acontece quando se colocam um bando de caras com carros rápidos em uma pista de pouso, não é?

E onde as pin-ups entram nesta história? Simples: elas saíram das fuselagens dos aviões e foram parar nas carrocerias dos hot rods, fomentando, finalmente, a base para toda a Kustom Kulture. Mas esta história vai ficar para a próxima parte deste especial!

(Clique aqui para ler a próxima parte)

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Foto: Dirk Behlau

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