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Car Culture

Brincando de Pedro e Bino com uns caminhões Dodge

Por Alexandre Garcia, o ogro do cerrado

Bom… é assim, né? Eu venho aqui escrevo textos, vocês leem, curtem as ideias permanecem e voltam para me encontrar. Ou assombrar.

Desde muito muito tempo, acho mesmo que antes de eu comprar minha D100, lá em 1991, eu sempre quis ter um caminhão Dodge. Eu queria um caminhão Dodge de preferência com rodas raiadas e freio a ar, V8 e com direção hidráulica. Caminhões velhos normalmente têm freio a ar e óleo, um sistema ruim de usar e de manter, mas eram assim. Bem como a terrível direção mecânica, horrível, imprecisa e pesada. Mas quando você procura algo velho e usado, sabe de antemão que nem sempre você acha exatamente o que você procura. Como disse o MAO: “You can’t always get what you want.” — eu sei, outros disseram isso antes dele…

Então um dia um amigo (que por acaso é leitor do FlatOut) me mandou um link de um anúncio da OLX de um cavalo mecânico Dodge D950 em uma cidade chamada Cesarina, em Goiás.

Eu, no ato, respondi: ainda bem que estou tão duro que nem dinheiro pra por gasolina e ir lá ver eu tenho. Ufa, escapei. Mas não se escapa do que se deseja assim, tão facilmente. Então eu quase escapei. Meu vizinho e amigo Giovanni, entusiasta convicto (que também é leitor do FlatOut) me disse: domingo vou a Goiânia, na casa da minha sogra. Enquanto minha esposa fica lá com ela, vamos ver o caminhão.

Aí eu pensei: o cerco está se fechando. Perigo! Perigo! Mas ogros não temem o perigo. E como era impossível de resistir, fui lá ver a imundície.

Encontramos com o dono e ele prontamente pôs o caminhão a funcionar. E eu, estúpido, saí pra dar uma voltinha com ele. Obviamente era uma cilada, mas eu fiz de conta que não entendi. Era branco, tinha rodas raiadas, tinha freios a ar, tinha direção hidráulica e era diesel, motor MWM 226-6. Câmbio Eaton Fuller de cinco marchas e eixo traseiro de duas velocidades.

Nada que não fosse familiar; já tinha dirigido algumas vezes alguns caminhões exatamente assim. Incrível é que o eixo estava com a reduzida a ar funcionando. E então eu saí acelerando ele desde a primeira curta até a quinta longa sem nenhuma dificuldade, fazendo o caminhão andar de verdade.

A direção ajudava, o freio mais ainda. Na boa. Quem visse a cena, ia jurar que o animal dirigindo era um caminhoneiro profissional e muito habilidoso. Nunca um mecânico comum que, às vezes, quando sobra um tempo acha que é drag racer. Na volta, já bem rápido, entrei de volta no pátio onde o caminhão estava, agradeci, e vim embora.

Na segunda-feira já fiz alguns contatos financeiros e fui buscar a jabiraca logo depois. Claro, nenhuma chance de vir de Guapó/Cesarina dirigindo a jabiraca até Brasilia, especialmente por que não tinha estepe e pelo menos dois pneus traseiros estavam podres. Ou seja: não ia rolar. Chamei meu fiel escudeiro, opa, digo guincheiro e fomos buscar. Pra caber, de cara já tiramos os pneus podres e ele veio com apenas uma roda de cada lado na traseira.

Aqui chegando, fiz revisão de freios, troca de filtros de óleo, limpeza no tanque etc. A direção tinha alguma folga e eu acabei trocando em casa mesmo a barra fixa e repartindo novamente o sistema de direção porque tinha três voltas pra um lado e uma pro outro. Nessa hora vi que caminhão uma ova, o troço não passa de uma D100 bombada com os mesmos rolos, pepinos e defeitos que qualquer um com experiência em Dodge tira de letra. Ou quase.

 

Na verdade o caminhão não é essas coisas todas. Nem poderia ser. Custou a bagatela de R$ 14.000. Nada neste valor pode ser perfeito. Tem ainda um bocado de coisas a fazer e a cabine merece e pede muito por uma reforma geral. Mas eixos, chassi, feixes e todo o resto da mecânica estão corretos e perfeitos. Sem rolo. De manhã cedo, por mais frio que esteja, pega sempre de primeira com uma ou no máximo duas voltas do motor. Incrível como um motor antigo, bem usado, bem lenhado ainda é tão bom. Tem seus cerca de 130 cavalos e com a relação que tem no eixo traseiro, vê no máximo 80 km/h. Que apesar de parecer uma velocidade pífia, ridícula, é algo meio intimidador no velho caminhão.

Ele tem bons freios e direção leve e rápida, mas, vocês sabem, não é um carro de passeio comum. E a suspensão, pornograficamente rígida, impede que se tenha um mínimo de conforto e traz o risco real de uma decolagem ou perda de controle causados por se passar rápido demais por imperfeições ou calombos do asfalto. Comprou quatro pneus novos e coloquei no eixo traseiro. Os dois dianteiros estavam ótimos e um dos pneus traseiros que estava rodando e estava bom foi pro estepe.

Pra quem não sabe, pneu é uma das coisas mais caras de caminhão velho. Você facilmente gasta bem mais de R$ 10.000 para calçar direito, sem inventar muito. Pneus diagonais mesmo, com câmaras de ar e fitões novos. Não é para os fracos de coração.

Mas até aí tudo bem, tudo bonito, eu era o propriotário de uma D100 e de um D950. O menor e o maior veículos de carga fabricados pela Chyrsler do Brasil, ambos os dois conjuntamente juntos parados aqui nos domínios da ogrolândia. Junto de mais um monte de outros Dodge e Plymouth! A vida é bela e mother Mopar gosta de mim.

Mas é claro, fiz a idiotice de por fotos em grupos de zap de dodge e de D100. Adivinhem o que aconteceu? Outro carinha, um muito ocupado e sério produtor rural do Mato Grosso entra em contato comigo novamente, porque, na verdade, já nos conhecíamos e eu já tinha ido a um encontro de veículos antigos em Sinop/MT convidado por ele. E este amigo demonstrou vontade de adquirir minhas preciosidades Dodge. Claro que eu recusei. Como assim eu vou vender essas duas pilhas de lixo para alguém? Mas não teve jeito, o cara era muito insistente. Eu, muito teimoso, disse: “num vendo, num vendo e num vendo”. E tenho dito.

Mas… (sempre tem um fatídico mas…) se ele quisesse e assim o desejasse, eu poderia ajudar a ele a ter um outro Dodge Truck de seu agrado. Pronto, estava solta a cachorra. Desgraça feita.

Há alguns anos eu tinha conhecido um cara que tinha uma loja de serviços de chaveiro e um guincho em Taguatinga. O cara tinha dois caminhões, um Dodge D700 guincho de arrasto, bem antigo e um outro Volks moderno. Esse Dodge, um D700 1971 segundo diziam tinha sido do GDF, polícia civil e tal.

Quando eu tinha visto ele pela primeira vez quem estava com o caminhão era o motorista e não o dono. Ele deixou eu guiar o caminhão e eu achei ótimo. Fiquei com isso na memória, mas não tinha grana ou justificativa para comprar um guincho funcionando e menos ainda iria trabalhar guinchando caminhões e ônibus por aí. Esse D700, na verdade, tinha um mecanismo operacional Biseli ano 1972. O que me levou a concluir acertadamente que ele havia sido montado como mecanismo operacional desde novo. Era todo vintage, tudo original, de época, sem gambiarras, sem enjambres e de quebra ainda era funcional.

Eu fui ao encontro do Alessandro, já na época da compra para o Evandro, tirei fotos, me certifiquei que o D700 estava disponível e a venda e passei tudo pro Evandro. Na vistoria pré compra, vi a plaqueta e descobri que o tal D700 foi fabricado a gasolina e que era um legítimo V8 318 quem habitava o cofre antes de ser substituído por outro MWM 226-6 igual ao do meu D950. Neste momento o Evandro decidiu que o caminhão seria dele. Pronto. Problema resolvido.

Ou um novo problema surgiu. Ao saber que era original V8 a gasolina, o Evandro não se conteve. Ele queria o D700. De verdade. Mais ainda: ele queria o D700 com motor V8 a gasolina. E ele sabia que tinha um elemento que ele conhecia que tinha o 318, que sabia fazer o 318, e que poderia por o 318 no D700 e documentar ele direito desta maneira. Pronto, temos outro bode na sala.

Quem lê minhas besteiras sabe bem que eu tenho assim, digamos, uma diferença seria com motor dois tempos. Especialmente a diesel. E mais especificamente ainda com caminhões Chevrolet D60 feitos no Brasil com motor Detroit diesel 4 53.

Aqui uma pausa. Uma devida explicação dessa coisa com Detroit diesel. Quando eu era bem jovem eu ia passar férias de fim de ano na fazenda de uma tia e tio meus — essa tia, irmã do meu pai. Nesta fazenda sempre tinha obras acontecendo, maquinas agrícolas e de terraplanagem e grande parte do tempo eu passava misturado às máquinas curtindo tudo aquilo que eu nunca ia ver em minha rotina urbana normal.

Nesse mundo novo tinha um troço muito bacana. Um D60 77 azul escuro, basculante, que era da fazenda e que rodava o dia todo. Eu me lembro que era novo, zero-quilômetro e que quem dirigia ele era um primo do meu pai e eu curtia muito o ronco muito diferente e a suavidade desse caminhão em especial. Era um 4 53.

Eu vi o esquema das marchas e como era a sequencia de troca de marchas usando o botão de acionamento da reduzida na alavanca. Os cabos de parada do motor e parada de emergência, tudo muito legal e diferente. Mas esta época passou, eu não fui mais à fazenda, a vida mudou bastante, mas a lembrança sempre permanecia. O ronco maravilhoso do Detroit, aquela música inebriante, inesquecível, não saía da memória. Two stroke blues. Muitos anos depois ainda voltei lá uma ultima vez e o D60 azul existia, perfeito, intacto mas com um motor Mercedes no lugar do Detroit diesel.

No fim eu sabia muito bem que um dia, algum dia, de alguma maneira eu ia acabar tendo um D60 desses. Mesmo que não servisse para absolutamente nada, igual ao D950, só pela simples função de existir. Eu nunca dirigi caminhão por dinheiro, não vai ser agora que vou começar. Não por desmérito ou qualquer outro motivo, mas o gosto é pelo veiculo em si e não pela pecúnia.

Quando tive a oportunidade, muitos anos depois de andar e finalmente dirigir um bom D60 novamente, oportunidades essas que me levaram a escrever ride of a lifetime e cantando na estrada, eu tive a certeza que ia acontecer, de que eu teria um D60 ainda que, infelizmente, não poderia ser aquele ótimo D60 azul do Eliseu, porque o momento não ajudou muito na compra, mais à frente ia acontecer.

E tal e qual o outro D60 da fazenda, acabou também ganhando um motor Mercedes no lugar do 4 53 que um dia por acaso comeu uma das 16 válvulas de escape.

Quando eu estive em Sinop/MT, o Evandro tinha me mostrado um D60 1977 verde, de um tom muito próximo ao do verde dos pelos de um ogro velho, e sabia que eu tinha, digamos, curtido um pouco a jabiraca. Ainda mais porque era também da mesma cor da minha caravana V8, aquela que apareceu num Project Cars a muito muito tempo aqui no FlatOut.

Mas aí voltamos ao rolo do D700. Neste ponto o cara perdeu a linha. Esqueceu os bons modos e a conversa civilizada e me tacou uma proposta nos peitos assim, sem nem rolar uma preliminar. Nem um chopinho com fritas. Foi direto ao assunto. “Ogro: eu compro e te mando o D60 verde, eu pago esse D700 e você transfere o D700 para seu nome, faz a troca do MWM por um 318, documenta tudo e me envia o caminhão e no fim das contas a gente vê quem deve quanto pra quem e eu te entrego o D60. Que aliás, já vou transferir direto para seu nome e caso queira pode vir buscar.”

Viram como é fácil derrubar um ogro? Igual ao rolo do “estou sem grana para por gasolina para ir a Cesarina ver o D950 mas num tem problema eu vou e te dou uma carona”, foi assim, você arruma meu caminhão e eu te passo o seu amado D60. Dureza isso viu, muito complicado mesmo.

Mas negócio fechado, vamos arregaçar as mangas e fazer de contas que eu sirvo e sei fazer alguma coisa. Primeiro fiz questão de por o D700 em boa ordem de marchas. Reduzir a licença prêmio da direção a meras férias ou idealmente folgas simples abonadas, revisar freios, e preparar o veiculo para a troca de motor.
Um parágrafo só dedicado ao Detran.

Descobrimos que o veículo fabricado a gasolina virou diesel, digamos assim, num passe de mágica. Foi vendido novo como diesel, apesar de ter saído de fábrica a gasolina. Lembrando: ano 1971, outra legislação, outros tempos, tudo muito diferente de hoje em dia. Como havia a plaqueta original legítima comprovando, montei um processo de alteração de característica para retorno a condição original, motor a gasolina, que foi cadastrado no documento, troca de combustível e alteração de potência. Tudo dentro das normas, com direito a CSV e tudo.

O que embaralhou o processo todo foi a pandemia. A solicitação vencia em fevereiro de 2020 e todos os prazos foram simplesmente abolidos. O que deveria ter sido concluído em fevereiro de 2020 acabou sendo concluído em novembro/dezembro de 2020. Hoje o D700 está em Sinop/MT sob a guarda do meu amigo Evandro, seu diligente e cuidadoso proprietário. De resto, no que cabe a participação do Detran-DF, nada demais a comentar. Um cidadão solicita algo lícito, com previsão legal, e um órgão público atende a solicitação. Fim. Sem pedidos absurdos, sem excesso de burocracia, sem chicanas, sem nada. Cumpre o processo, e no fim sai um documento novo. Sem usar serviços de nenhum despachante, ainda que eu faça questão de deixar bem claro que não tenho absolutamente nada contra solicitar auxílio a um despachante, mas eu mesmo fazer tudo só servia bem ao propósito de demonstrar com clareza que tudo foi feito dentro da normalidade. Eu, sozinho, consegui fazer tudo.

De forma geral, muitos comentários sobre este D700. A grosso modo ele tem o mesmo entre-eixos do D950, o eixo traseiro tem a mesma relação ainda que fisicamente menor. No D700 um tinkinho e no D950 um tinkão. Ambos com duas velocidades. O mesmo motor e o mesmo câmbio. Na troca de motor tudo foi mantido. Apenas mudei a capa seca e cheguei à travessa com os calços traseiros do motor e câmbio uns 20 centímetros para a frente.

O D700 veio com um pára-choques dianteiro de impulsão com um lastro bem pesado. Retirei, coloquei um para-choques original de D700 nele, e como resultado final da troca do motor tive a impressão de retirar bem mais de meia tonelada da frente do caminhão. Isso, junto do serviço de revisão na caixa de direção, deixou o volante bem mais leve de ser esterçado. A caixa de direção tem o eixo setor apoiado em uma bucha de liga de bronze. Desmontei tudo, levei para uma retífica/torneiro, alargamos o alojamento da bucha e a substituímos por rolamentos de rolos cilíndricos bem finos.

Aí onde havia atrito na bucha, passamos a ter o eixo deslizando sobre rolamentos. Ok, a folga diminuiu mas ainda ficou grande, não existe caminhão velho com direção zerada e sem folga, mas o esforço diminuiu bastante e ficou bem melhor de guiar. O freio é um misto de vácuo e óleo. Um cilindro mestre simples empurra o fluido para um sistema semelhante a um compressor de óleo — auxiliado pelo vácuo gerado pelo motor se for otto, ou por uma bomba de vácuo se for diesel. O sistema tem um retardo, a ação do pedal não é progressiva, e quando aciona o freio é de forma sempre brusca. Depois de ajustes nas lonas melhorou um pouco. Ou digamos que tenha ficado menos ruim.

Este D700 estava com pneus traseiros 10.00R20, ficando então exatamente igual em desempenho ao meu D950. Mesmo câmbio, eixos com mesma relação e mesmo motor. 80km/h é final. Corta o óleo. Bate no corte. Como o D700 tem o muito pesado mecanismo operacional em cima, pelo menos era muito menos duro e desagradável de se guiar. Mas a falta do freio a ar e da direção hidráulica dava vontade de voltar pro D950 sempre. Na frente vieram dois pneus 9.00-20. Os 10.00-20 na frente ficam muito grandes e pioram ainda mais a direção.

A conversão para gasolina foi simples como deveria ser. Para o processo legal, primeiro fui ao Detran, mostrei todos os detalhes que comprovavam que o veículo tinha sido feito à gasolina originalmente. Aí me deram uma autorização para retorno à condição original. Com a autorização em mãos, retirei a mecânica diesel toda. A desmontagem foi feita numa oficina de caminhões em São Sebastião/DF e ao lado do torneiro que fez os demais serviços da adaptação. Achei em São Paulo um cara vendendo um motor completo de caminhão Dodge a álcool mas em estado ignorado. Completo, cárter, capa seca, volante, tudo de caminhão a álcool original. Eu tenho uma sucata bem legal de Dodge aqui, muitas peças etc e tinha inclusive um motor completo desmontado mas de carro de passeio.

Peguei um bloco pelado de 318 com a capa seca de caminhão Dodge do motor que veio de São Paulo, fiz de conta que estava no lugar certo ao colocar o calço de motor de caminhão a gasolina no bloco 318 e fixar na travessa dianteira, avançamos a travessa traseira os tais 20 centímetros, reaparafusamos e soldamos o que tinha de ser refeito reposicionado ou ressoldado e boa. Claro, o seis-em-linha diesel é muito mais comprido que o V8 a gasolina. Além de ter o rolo com a travessa, tinha uma casa de cachorro dentro da cabine. Tive que remover ela, refiz o assoalho e a parede corta-fogo e voltamos a ter uma cabine normal de caminhão a gasolina.

Aí depois desses serviços levei o motor V8 refeito de verdade pra oficina de torneiro e neste motor já tinha instalado carter de caminhão, pescador correto para a bomba de óleo, calço dianteiro, capa seca e volante e embreagem de caminhão e o sistema de escape original do caminhão, que é diferente do carro de passeio, remontamos tudo, refizemos os cardans todos, acionamentos, escapes, ligamos mangueiras de combustível etc etc etc e chamei um guincho de caminhões e levamos a coisa de volta pra minha casa, onde eu terminaria todos os serviços. E assim aconteceu.

Depois de muito trabalho, e com o veiculo em ordem de marcha, retornei ao Detran, peguei a autorização para fazer o CSV – certificado de segurança veicular – retornei depois para fazer a conclusão do serviço burocrático e receber o novo documento. Pronto, eu, o ogro, ataquei novamente. Salvei o D700 da tristeza de ter sido convertido a diesel e recoloquei o V8 em seu devido lugar e ainda regularizei tudo. Lágrimas de emoção máscula rolaram dos faróis do caminhão na conclusão do processo. Eu que curti esse caminhão quando o vi pela primeira vez a mais de dez anos, acabei como dono temporário dele, atuei como o cara que fez as coisas voltarem a ser como deveria e todos ficamos bem felizes.

E o que todos querem saber! Como ficou dinamicamente? Bom, infinitamente melhor que era e que eu seria capaz de supor. Tipo eu sabia que ia ser melhor com o V8 que com o diesel, mas quanto melhor? Como seria o comportamento dinâmico? O motor que eu refiz para por nele era um 318 normal, comum de algum Dart desmontado em algum momento. Recebeu um sistema de ignição eletrônico tipo HEI desses china mesmo que vendem no mercado livre, cabos de silicone, foi completamente retificado com pistões NP 285 cabeça plana bons para algo como 9/1 de taxa, comando original, escapes de ferro fundido originais. Basicamente um motor original 318, com um pouco mais de taxa e olhe lá. Até o desgracento mocorongo nojento insuportável dfv 446 babão ficou lá. Ah…nada de bomba de gasolina mecânica. Comprei uma nova que funcionou dez minutos e quebrou. Coloquei uma bomba de gasolina elétrica genérica, regulador de pressão, deixei com 4 psi de pressão para o carburador e usei a linha de retorno do diesel ao tanque para por o retorno do dosador.

No papel, no melhor estilo super trunfo as diferenças não são assim muito grandes. Na pratica muda tudo. Muito mais força, muito mais prazer de dirigir. Chega a 100 km/h com muita facilidade e apenas a prudência e um mínimo de senso de responsabilidade faz o pé direito sair do pedal do prazer, que nessas horas pode ser tornar o pedal da morte. Não é prudente, desejável, recomendável, sensato andar a mais de 80, 90 ou mesmo 100 km/h num caminhão bem antigo, direção mecânica e freio a óleo. Subidas são vencidas com muito mais facilidade. Não tem barulho de motor, não tem a vibração mecânica do diesel, não tem cheiro, não tem fumaça e não tem aquele liquido vermelho, gosmento, fedido, insuportável chamado diesel no tanque. Ou seja, vida!

Bom e o D60? Será que eu ia ter que ir buscar essa imundiça em Sinop? Ir dirigindo o D700 até lá? Nunquinha da silva.

Vejam, eu sou ogro. Burro não. Combinamos e o Evandro arrumou uma carreta de puxar implementos agrícolas, que presta serviço a ele e fez com que ela trouxesse o D60 e levasse o D700 de volta. Nada como lidar com pessoas poderosas e bem relacionadas. Nada de miserinha! Pega esse D60 aqui, carrega, leva lá, entrega pro ogro e carrega e traz o meu D700. Aí a carreta de implementos agrícolas teve uma troca de finalidade. Ao invés de implementos agrícolas, implementos ogrícolas.

Mas é assim, eu recebi o caminhão. E o D700 foi pro Evandro. Eu devia estar muito doido em Sinop, talvez pelo calor saariano que lá impera. Eu nem tinha ligado muito pro D60 lá, tinha achado ele meio meia-boca etc… quando chegou aqui, no delicioso clima de Brasília, tudo mudou. Era muito melhor que eu me lembrava. Como era uma exposição de antigos eu sequer abri a porta ou entrei no caminhão lá; o máximo que fiz foi abrir o capô e ver o motor pintado de cinza quando o correto seria verde claro. E o maldito eixo dianteiro de Ford trocado nele, que era algo comum de fazerem para diminuir o raio mínimo de curva — como o eixo original é muito estreito, esterça menos, ainda que fique visualmente tétrico, ridículo.

Acho que isso tudo embotou minha visão e eu não reparei muito em mais nada. A pintura e a cabine muito legais. Carroceria de madeira nova. Pneus novos. Funcionava tudo. Detalhes menores como velocímetro sem funcionar, faltavam os cabos originais de parada de motor e parada de emergência, o para-choques dianteiro estava errado, era de um modelo C60 a gasolina e tinha uma saia dianteira e as pontas dos paralamas também erradas.

Mas na verdade, detalhes menores e relativamente fáceis de acertar. Liga fácil, pega muito bem, tinha um erro na montagem do pedal da embreagem que eu rapidamente resolvi e está aqui vivo e forte. Ainda vou refazer a caixa de direção do mesmo modo que fiz no D700, revisão de freio e tenho que localizar o par de coroa e pinhão originais do D60, 11X28, que ao longo do tempo foi trocado pelo 9X28 mais curto.

No fim logo depois da chegada eu acabei comprando outro D60 desmontado, sem cabine, para ter certeza de ter 100% das peças para manter o meu. Ótimo investimento. Pena que veio com eixo curto 9X28 também. Mas veio com o eixo dianteiro original estreito correto. E vieram mais duas rodas originais e muitas coisas legais de mecânica, motor completo, cambio, cardan, eixo traseiro completo e um chassis em muito bom estado e documentado. Ou seja, se quiser mesmo posso ainda montar outro D60.

Mas por enquanto não. Por enquanto outro carinha me ofereceu um D400. Mas isso é historia para outro dia.

O que é essa coisa estranha no D400? Um motor de gama goat? 3 53 N com bloco de alumínio? Dois-tempos? Como pode isso? Só falta ter um 6V53N guardado de algum M113 e a garagem virar algo parecido com um war surplus junkyard.

Por hoje pra encerrar, fotos legais. O D700 em Sinop, devidamente limpo e tratado. E um encontro que não se vê mais com tanta facilidade, mas que eu fiz questão de registrar enquanto estavam aqui juntos. Cliquei no primeiro fim de semana com os três aqui juntos. Infelizmente o D400 não chegou a tempo.

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