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Car Culture

California Haulin’: quando a Mazda fez uma picape com motor Wankel de RX-7

Hoje em dia, o Mazda Miata é uma verdadeira prova de que sim, ainda existem esportivos puros e sem frescura para entusiastas. Afinal, a receita do roadster leve, com motor aspirado, tração traseira e câmbio manual está aí há 25 anos e sua mais recente geração — a quarta, lançada no ano passado — cansou de receber elogios por parte da imprensa especializada e de seus primeiros donos. No entanto, a marca japonesa também é famosa por outra coisa: seu motor rotativo Wankel, um dos poucos motores sem pistões reciprocantes produzidos por uma grande fabricante.

Com seus rotores em forma de esfiha girando em um eixo principal — arranjo também conhecido como “Doritos no palito“, suas vantagens são a menor quantidade de partes móveis, pois não há pistões, anéis e bielas; a maior suavidade, já que o movimento dos rotores dentro da câmara é contínuo e suave, e não um vai-e-volta super veloz como nos motores convencionais; e a maior potência específica — para se ter uma ideia, a versão aspirada do motor 13B (o mesmo do Mazda RX-7), deslocava 1,3 litro para entregar 135 cv!

E ainda tem o ronco dos Wankel, que já foi comparado inúmeras vezes aqui no FlatOut (e em outros lugares, também) a “um enxame de vespas furiosas”. Tudo bem, é clichê, mas é verdade!

Mazda 787B, vencedor de Le Mans em 1991

Os motores Wankel foram usados pela Mazda em seus carros de rua até 2012, quando o esportivo RX-8 deixou de ser fabricado sem um sucessor em vista. A companhia afirmou que a razão para seu fim era, justamente, o maior calcanhar de Aquiles do motor rotativo: seu consumo de combustível muito elevado para os padrões modernos. Desde então, fala-se sempre em uma volta dos Mazda com motor Wankel, mas agora eles são produzidos apenas para carros de competição.

Hoje, contudo, vamos voltar a uma época quando os motores Wankel estavam em seu auge: o fim dos anos 80. Na época, a Mazda havia acabado de colocar no mercado americano a terceira geração de sua picape compacta, a B-Series. Criada como resposta à popularização das picapes japonesas nos EUA — especialmente Toyota e da Nissan/Datsun durante a década de 70 —, a Mazda B-Series seguia a mesma receita: visual simples, porém agradável, motores de quatro cilindros econômicos e robustos, e preço convidativo.

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No entanto, a Mazda chegou atrasada: em 1985, quando a quarta geração foi lançada, a moda das picapes já estava passando — os americanos voltaram a comprar cupês esportivos, como o Ford Mustang e o Chevrolet Camaro, que começavam a reconquistar os entusiastas depois da era negra que foi a crise do petróleo de 1973. Picapes maiores, SUVs e minivans também começavam a ficar populares de novo, comprometendo ainda mais as vendas das caminhonetes menores.

Depois de alguns anos de vendas fracas, a Mazda decidiu fazer alguma coisa para melhorar a imagem da B-Series aos olhos dos entusiastas. Foi aí que entrou a preparadora e customizadora Racing Beat. A empresa foi fundada em 1971, e desde o início especializou-se na preparação dos motores rotativos — especialmente do pequeno Mazda RX-3, que tinha seu pequeno Wankel de 1,2 litro preparado para chegar perto dos 300 km/h no quarto-de-milha.

Só para te dar uma ideia do potencial do RX-3 e de seu motor 1.2

Sendo assim, não havia oficina melhor para realizar a tarefa encomendada pela Mazda: transformar uma de suas picapes B-Series em um hot rod — que, além do bom desempenho, deveria ter um visual bacana, para mostrar que picapes ainda eram cool. E que belo trabalho eles fizeram!

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A base foi uma B2000, versão da picape equipada com um quatro-cilindros de dois litros e parcos 80 cv — definitivamente, uma das maiores prioridades foi dar  um jeito na potência.

Por sorte, com o envolvimento direto da Mazda no projeto, não foi difícil conseguir um coração à altura. Como não poderia deixar de ser, o motor escolhido foi um Wankel — e não qualquer Wankel, mas o 13B turbinado que equipava o Mazda RX-7 da época.

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Sim, uma picape com motor de RX-7. No entanto, provavelmente não era o modelo que você está imaginando — a terceira geração, que ficou famosa em Gran Turismo e em “Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio”, terceiro filme da franquia —, mas sim o RX-7 de segunda geração, conhecido como FC.

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Equipado com a versão mais potente do motor 13B, que usava um turbocompressor para entregar até 215 cv, o RX-7 FC Turbo era capaz de chegar aos 100 km/h em 6,7 segundos, com máxima de 230 km/h. Some a isso um belo visual, com dianteira em formato de cunha, faróis escamoteáveis, linhas predominantemente retas e perfil muito harmônico, e o resultado é um dos esportivos japoneses mais emblemáticos do fim dos anos 80.

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A transmissão automática de quatro marchas do RX-7 também foi aproveitada (embora existisse uma versão manual de cinco marchas, o câmbio automático era mais adequado para os americanos). Não há informações sobre o desempenho, mas certamente a picape agora andava muito mais. Também não conseguimos descobrir se sistema de suspensão do RX-7, do tipo McPherson na dianteira com braços arrastados na traseira, foi instalado, mas é fato que a B2000 passou a rodar muito mais baixa do que a original, e que as rodas de 16 polegadas são do RX-7.

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Foto: Mike Garrett/Speedhunters

Por dentro, a Racing Beat aproveitou que os anos 80 ainda não tinham acabado e forrou os bancos e revestimentos de porta com couro, instalou um rádio Panasonic de última geração no painel, e arrematou tudo com costuras combinando com a cor da carroceria. E, do lado de fora, a B2000 também virou uma festa oitentista, com pintura em dois tons, um novo body kit feito sob medida e uma dianteira alisada — algo bem comum em carros customizados por aqui na mesma época, diga-se.

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Foto: Japanese Nostalgic Car

O toque de exclusividade ficava por conta das modificações na caçamba, que recebeu preparação para acomodar um jet-ski. Era parte da proposta da Mazda, que buscava capturar a atmosfera das praias californianas nos anos 80. Por isto, a picape foi batizada como California Haulin’, nome que foi pintado (e não adesivado!) nas laterais.

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Foto: Mike Garrett/Speedhunters

A trajetória da picape é meio nebulosa. Ao longo dos anos, ela participou de alguns encontros de carros japoneses e até apareceu à venda em um anúncio publicado em um blog há oito anos. Depois disso, mais nenhuma informação concreta — quer dizer, até o último fim de semana, quando a California Haulin’ deu as caras em um evento realizado em Orange County, na Califórnia, e foi clicada por Mike Garrett, do Speedhunters. Sem dúvida, trata-se de um pedaço da história que é desconhecido até para os mais fervorosos fãs da Mazda.

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