dezembro de 1997 takaoka japao o primeiro prius sai da linha de produçao tres anos antes metade da engenharia da toyota apostava que a ideia ia implodir a outra metade achava que mesmo funcionando ninguem em sa consciencia compraria aquele carro seis meses antes do lançamento os prototipos pegavam fogo as baterias morriam no meio do teste o sistema de gerenciamento travava e ele ainda tinha um icone de tartaruga no painel que acendia quando o carro estava prestes a desligar sozinho por falta de energia nas baterias — um aviso que e o oposto do que se espera de um carro do futuro quase 30 anos depois contudo o prius vendeu mais de 20 milhoes de unidades e alem de mostrar ao mundo como deve ser um hibrido ele mostrou que entre a assepsia pouco pratica dos eletricos e as emissoes dos motores de combustao interna existe um caminho que pega o melhor de cada lado e faz uma soluçao equilibrada curiosamente o prius quase nao pode fazer isso por que ele quase morreu antes de chegar a linha de produçao e a historia de como isso nao aconteceu e mais interessante que o carro em si para entender o nascimento do prius voce precisa esquecer a imagem dos bairros nobres da california ou dos motoristas de uber de sao paulo voce precisa viajar mentalmente para a cidade de toyota na provincia de aichi em 1993 a cena e contraditoria o japao estava de ressaca a bolha economica especulativa havia estourado violentamente no inicio da decada mergulhando o pais no que ficaria conhecido como a decada perdida mas a toyota a toyota estava blindada o caixa era infinito o lexus ls400 havia acabado de humilhar a mercedes benz em escala global e o toyota production system tps era a religiao industrial que o resto do mundo tentava converter sem sucesso eles eram intocaveis e isso preocupava eiji toyoda eiji entao presidente honorario do conselho e sobrinho do fundador sakichi era o homem que havia transformado a toyota de uma fabricante de teares em uma superpotencia automotiva ele olhava para os corredores da empresa e alem do sucesso via tambem uma certa acomodaçao dos executivo — era algo que ele diagnosticou como doença da grande empresa em uma reuniao de conselho eiji fez uma pergunta simples mas que caiu como uma granada na sala devemos continuar fazendo carros do jeito que fazemos agora a toyota sobrevivera ao seculo 21 se continuarmos assim a frase soou alarmista para muitos executivos confortaveis em suas cadeiras de couro especialmente por que eiji nao estava bebendo chas aromaticos para clarividencia nem consultando oraculos xintoistas ele estava simplesmente atento aos relatorios de inteligencia industrial e ao cenario geopolitico a preocupaçao de toyoda vinha de tres fatores distintos que convergiram no inicio dos anos 1990 — e indicavam que o futuro do automovel seria diferente daquele que se sonhava na epoca o primeiro fator era a guerra do golfo a grande crise do petroleo ja havia sido amenizada durante os anos 1980 mas a invasao do kwait em 1990 deu inicio a um conflito regional que desestabilizou o preço do petroleo — que chegou a dobrar no final daquele ano — e lembrou o mundo que crises nao sao anunciadas elas acontecem em dois momentos primeiro aos poucos depois de repente depender 100% do petroleo era uma estrategia arriscada a poluiçao em toquio nos anos 1990 o segundo fator foi a mudança da consciencia ambiental a motivaçao para as primeiras regulamentaçoes de emissoes surgidas no final dos anos 1960 foi o smog a combinaçao nebulosa de gases que acizentava os ceus das metropoles da epoca foi ele que provocou a adoçao dos catalisadores nos anos 1980 e acelerou a adoçao dos sistemas de injeçao eletronica mas naquele inicio dos anos 1990 a cupula da terra no rio de janeiro — conhecida como eco 92 deixou claro que o smog era apenas um sintoma de algo maior o mundo passava por mudanças climaticas aceleradas pela açao humana o co2 embora essencial para a vida na terra estava sendo lançado na atmosfera de forma desequilibrada e isso afetava o clima e diferentemente da poluiçao lançada pelo escape dos carros a filtragem do co2 e impraticavel em um veiculo de passeio a unica maneira de reduzir as emissoes desse composto organico e queimar menos combustivel o terceiro fator era a norma zero emission vehicle do comite de recursos do ar da california carb na sigla em ingles que exigia das fabricantes a produçao e venda de veiculos com menos emissoes em metas progressivas como os eua eram o maior mercado da toyota — e o maior mercado do planeta na epoca — ela precisava sair na frente nessa corrida uma vez que sua imagem nos eua foi construida com confiabilidade mecanica mas tambem eficiencia em termos de consumo de combustivel diante deste cenario a toyota nao demorou a formalizar sua preocupaçao com o futuro assim em outubro de 1992 meses apos a eco 92 foi lançado o toyota earth charter uma serie diretrizes de boa convivencia ambiental que a primeira vista pareciam apenas uma adequaçao diplomatica ao espirito da epoca na pratica era um memorando interno avisando a todos os departamentos que a era da performance pura havia acabado a partir daquela data a eficiencia ambiental nao era mais um bonus de engenharia mas um pilar central da estrategia corporativa para tirar esta estrategia do papel em setembro de 1993 a toyota criou o comite g21 — global 21st century — que tinha a missao de investigar e definir como deveria ser o carro do seculo 21 liderado inicialmente por yoshiro kinebuchi o conceito original que saiu das pranchetas do g21 era essencialmente um seda racionalizado um super corolla que seria pequeno por fora e grande por dentro com entre eixos longo e cabine avançada e deveria ter consumo de combustivel 50% melhor ao de um corolla da epoca — a meta era 20 km/l o plano de kinebuchi era refinar o motor a combustao interna ao seu limite a aposta tecnologica era a injeçao direta de gasolina gerenciada eletronicamente combinada a uma transmissao cvt de alta eficiencia focando obsessivamente em reduçao de peso e aerodinamica era uma proposta solida conservadora e segura e tinha tudo para dar certo exceto por uma coincidencia improvavel — e que provou que eiji toyoda estava certo em setembro de 1993 o recem empossado presidente os eua bill clinton criou o programa parceria para uma nova geraçao de veiculos ou pngv a parceria era do governo americano com as fabricantes locais eles despejariam bilhoes de dolares em subsidios para desenvolver tecnologias que tornassem um carro de passeio capaz de rodar ate 80 mpg 34 km/l ate 2004 o problema e que honda nissan e toyota foram sumariamente excluidas da parceria estava claro que os eua estavam protegendo suas fabricantes da invasao japonesa — a honda havia acabado de emplacar o accord como o carro mais vendido dos eua e todas elas estavam aumentando rapidamente sua participaçao no mercado a leitura da toyota contudo foi outra se gm ford ou chrysler entao parceira da mitsubishi descobrissem como fazer um seda de 34 km/l antes da toyota ela perderia um dos pilares de sua imagem no mercado americano eiji toyoda estava certo a toyota era um dinossauro perfeitamente eficiente aguardando um asteroide eles precisavam evoluir e rapido no inicio de 1994 o projeto g21 mudou de status a diretoria deu o sinal verde para que aquele estudo teorico se tornasse um carro de produçao real mas a diretoria percebeu que um carro desenvolvido com foco extremo na eficiencia corria um risco enorme de se tornar um produto barulhento aspero e desconfortavel eles precisavam de alguem que olhasse para o carro como um produto final nao como um experimento cientifico o projeto nao poderia mais ser liderado por kinebuchi — ele precisava de alguem com um olhar diferente esse alguem era takeshi uchiyamada takeshi uchiyamada em foto atual uchiyamada era um estranho no ninho tinha 47 anos e era novato em termos de liderança jamais havia sido chief engineer de um carro antes alem disso sua especialidade tecnica nao era motores nem suspensao nem aerodinamica ele vinha do setor de nvh noise vibration and harshness — ruido vibraçao e aspereza e por isso nao tinha lealdade a nenhum setor da engenharia motores vs chassi ele era um generalista um integrador de sistemas era o cara certo para o projeto o problema e que ele discordava disso quando o vice presidente da toyota masami iwasaki o chamou em sua sala para oferecer a liderança do g21 sua primeira reaçao foi recusar a oferta eu nao posso aceitar eu sou um engenheiro de testes e nvh eu nunca desenvolvi um carro inteiro eu nao sei como projetar uma suspensao ou desenhar um motor voces precisam de um chief engineer de verdade ele tinha razao na toyota os chief engineers eram como deuses que conheciam cada parafuso de cada sistema do carro uchiyamada sentia que nao teria autoridade tecnica para comandar os veteranos de powertrain e chassis mas iwasaki tinha uma visao que uchiyamada nao enxergava a resposta do vice presidente foi a definiçao da missao exatamente eu nao preciso de alguem que saiba desenhar uma suspensao melhor que o departamento de chassis se eu colocar um cara de motor no comando o carro sera apenas um motor se eu colocar um cara de chassi sera apenas um chassi o g21 precisa de integraçao eu preciso de um gerente que faça todos esses departamentos que se odeiam trabalharem juntos uchiyamada foi essencialmente empossado a força saiu da sala com o cargo mas carregando a insegurança de quem sabe que comandaria uma equipe de engenheiros ceticos e uma meta dificil mal sabia ele que sua primeira grande tarefa seria ainda mais dificil no inicio do segundo semestre de 1994 uchiyamada e sua equipe estavam confiantes eles nao haviam reinventado a roda mas haviam otimizado cada milimetro dela o pacote combinava o futuro motor 1 5 com injeçao direta uma nova transmissao cvt de atrito reduzido e um sistema que desligava e religava o motor em paradas de transito sim o atual stop start as simulaçoes mostravam que eles atingiriam um consumo de 20 km/l — o que representava uma melhora de 50% sobre um corolla na industria automotiva onde se mata e morre por 3% de eficiencia entregar 50% era uma realizaçao herculea uchiyamada entrou na sala de akihiro wada o todo poderoso vice presidente executivo de p&d esperando um aperto de mao e a luz verde para construir os prototipos wada ouviu a apresentaçao olhou os graficos e entao com a calma de quem prepara uma surpresa perfeita destruiu o projeto sua meta de 50% e insuficiente para o seculo 21 rejeitado uchiyamada tentou argumentar com a fisica explicou que o motor a combustao interna tem um teto teorico e que com a tecnologia atual 50% era o limite da realidade a resposta de wada foi pegar o proprio relatorio da equipe apontar para uma opçao que eles haviam listado como inviavel se a abordagem convencional nao entrega o dobro entao parem de insistir nela voces listaram o sistema hibrido como uma possibilidade teorica transformem isso em realidade uchiyamada saiu daquela reuniao desnorteado e com um problema existencial o super corolla estava morto o prazo para o salao de toquio era de apenas 12 meses e ele um engenheiro de acustica que nunca havia liderado um carro agora tinha que liderar o desenvolvimento de uma tecnologia que a toyota nao dominava wada sabia disso mas com o pgnv mirando quase 35 km/l ele nao estava exigindo o impossivel porque era sadico e sim por que a sobrevivencia da toyota dependia daquilo a ordem de wada deixou a equipe desnorteada dizer façam um hibrido e facil; fazer funcionar e o problema na epoca os sistemas conhecidos eram problematicos os hibridos em serie onde o motor so carrega bateria eram ineficientes em alta velocidade e os hibridos paralelos onde ambos movem o carro eram complexos e davam trancos nas mudanças de motorizaçao a propria toyota havia feito um prototipo hibrido em 1968 e desistido por causa da complexidade ao longo daquele semestre a equipe avaliou teoricamente nada menos que 80 layouts diferentes de transmissao todos foram descartados um apos o outro eles precisavam de um caminho do meio um sistema que dividisse a força de forma inteligente sem a complexidade de dezenas de embreagens foi essa busca pelo elo mecanico perdido eles começaram a pesquisar o que ja havia sido estudado ate entao no inicio de 1995 a equipe de transmissao fez uma viagem no tempo na biblioteca da toyota enquanto tentavam inventar o futuro o engenheiro koichi ogawa e sua equipe perceberam que a resposta nao estava na eletronica mas na mecanica eles encontraram papers da trw dos anos 1970 e manuais de engenharia de transmissoes da decada de 1940 a resposta estava la escondida a vista de todos a transmissao planetaria a transmissao planetaria era o cambio do ford model t e dos tanques da segunda guerra mas ogawa percebeu que se conectasse o motor a combustao um gerador e um motor eletrico as tres partes moveis da planetaria ele nao precisaria de embreagem nem de conversor de torque nem de correias — ele teria um cambio continuamente variavel cvt sem correias apenas controlando a velocidade do gerador eletrico assim nasceu o conceito basico do toyota hybrid system ths com a concepçao do ths a equipe do g21 começou a correr contra o relogio a toyota tinha se comprometido a apresentar o conceito do carro do seculo 21 no salao de toquio em outubro daquele ano uchiyamada e sua equipe tinham tinham o arranjo do ths o motor a combustao e um motor eletrico so faltava um detalhe fundamental a bateria para um hibrido funcionar como o planejado — recuperando energia nas frenagens e ajudando na aceleraçao — voce precisa de uma bateria capaz de tolerar cargas e descargas violentas em segundos a tecnologia escolhida pela toyota eram as baterias de niquel hidreto metalico nimh era a unica quimica que oferecia um equilibrio aceitavel entre densidade de energia e durabilidade — era superior as baterias de chumbo acido e mais seguras que as baterias de ions de litio da epoca o problema era que ninguem no mundo fabricava baterias de nimh suficientemente grandes para um carro com a confiabilidade necessaria para produçao em massa as celulas experimentais superaqueciam vazavam ou simplesmente morriam apos alguns ciclos de carga rapida a joint venture com a panasonic que viria a ser a peve estava trabalhando dia e noite mas a fisica nao colaborava eles nao estariam prontos para outubro de 1995 sem baterias viaveis a equipe recorreu ao bom e velho improviso usar supercapacitores eles nao armazenam muita energia mas a toyota nao precisava disso so precisava fazer o carro funcionar subir ao palco fazer uma demonstraçao curta de aceleraçao eletrica e impressionar publico e imprensa era inutil para o mundo real — o carro teria uma autonomia ridicula e nao conseguiria sustentar velocidades de cruzeiro — mas para o salao estava perfeito foi uma mentira funcional o toyota prius concept apresentado no salao de toquio de 1995 com sua carroceria azul e design estranho nao era um mock up de argila ele andava o sistema hibrido com a planetaria estava la funcionando os detalhes ora sao meros detalhes quando as capas foram retiradas no makuhari messe em outubro de 1995 a imprensa mundial aplaudiu a toyota prometia um consumo de 30 km/l o dobro da media do mercado o design era questionavel mas a tecnologia sob o capo parecia magica o sistema ems energy management system gerenciava a troca de energia entre motor e rodas de forma imperceptivel o publico viu o futuro a diretoria da toyota viu o sucesso de marketing mas uchiyamada e a equipe de engenharia parados nos bastidores suavam frio eles sabiam a verdade que o publico ignorava aquilo nao era um produto viavel para piorar a diretoria mudou em 1996 a toyota ganhou um novo presidente hiroshi okuda okuda era agressivo impaciente e tinha um faro politico aguçado ele olhou para o cronograma do g21 que previa o lançamento para o final de 1998 ou 1999 e riscou a data muito tarde a conferencia do clima da onu cop3 sera em kyoto em dezembro de 1997 o mundo inteiro estara olhando para o japao falando sobre meio ambiente eu quero esse carro a venda em dezembro de 1997 uchiyamada perdeu um ano inteiro de desenvolvimento em uma canetada em dois anos eles precisavam fazer as baterias nimh funcionarem sem explodir miniaturizar os inversores e criar um software de controle que nao existia o inferno do desenvolvimento estava apenas começando sob essa pressao esmagadora a equipe correu para construir o primeiro prototipo funcional real ja equipado com as baterias de nimh niquel hidreto metalico que estavam sendo desenvolvidas as pressas pela joint venture com a panasonic em novembro de 1996 o primeiro prototipo ficou pronto a equipe inteira se reuniu no galpao de testes o piloto de testes entrou ajustou o cinto e girou a chave nada aconteceu o carro nao ligou o painel nao acendeu silencio absoluto na engenharia automotiva quando um prototipo nao liga geralmente e um fio solto ou um fusivel queimado mas o prius era diferente o problema nao era mecanico; era logico as ecu dos diferentes sistemas bateria inversor motor nao estavam conversando o sistema de segurança da bateria cortava a força porque achava que havia um curto o inversor nao armava porque nao recebia sinal do motor a equipe de uchiyamada passou 49 dias consecutivos trabalhando dia e noite apenas para fazer o carro se mover eles reescreviam codigos de madrugada trocavam placas de circuito pela manha e tentavam ligar o carro a tarde e nada foram quase dois meses de um carro morto ocupando o centro do laboratorio zombando da equipe de elite da toyota finalmente no 50º dia o carro ligou o motor eletrico zumbiu o motor a gasolina entrou em açao o piloto engatou o d e o carro saiu do lugar rodou 500 metros e morreu apagou e se recusou a ligar novamente a equipe teve que empurrar o prototipo revolucionario de volta para a garagem o diagnostico revelou o calcanhar de aquiles do projeto os inversores o sistema hibrido exige que a corrente continua dc da bateria seja convertida em corrente alternada ac para os motores e vice versa milhares de vezes por segundo lidando com centenas de volts quem faz esse trabalho sujo sao os transistores de potencia os igbts insulated gate bipolar transistors os igbts da epoca simplesmente nao aguentavam o tranco eles superaqueciam e estouravam sob a carga de acelerar um carro de 1 200 kg a toyota estava queimando inversores como se fossem fusiveis cada vez que o piloto pisava fundo um modulo de potencia virava fumaça a equipe de uchiyamada percebeu que nao poderia comprar essa peça de fornecedores ninguem tinha igbts robustos o suficiente para uso automotivo pesado a toyota teve que fabricar seus proprios semicondutores — foi preciso construir uma fabrica de eletronicos dentro da fabrica de carros para fazer transistores capazes de sobreviver ao inferno termico de um sistema hibrido propulsor aquela altura o calendario indicava o inicio de 1997 o lançamento seria em dezembro e o carro mal conseguia dar uma volta na pista de testes sem se autodestruir faltando menos de 10 meses para o prazo final — a conferencia de kyoto — a toyota tinha resolvido o problema dos igbts fabricando seus proprios semicondutores e o carro ja conseguia andar sem queimar circuitos mas andar e uma palavra forte para esta fase do projeto o prototipo era uma experiencia terrivel o sistema hibrido nao tem embreagem nem conversor de torque entao a conexao e mecanica direta metal contra metal na engrenagem planetaria quando o motorista pisava no acelerador o motor eletrico reagia com o torque maximo imediato meio segundo depois a ecu decidia ligar o motor a gasolina para ajudar o motor 1 5 atkinson entrava em açao dando um tranco forte nas frenagens era ainda pior o sistema tentava recuperar energia freio regenerativo mas quando a velocidade caia e o freio hidraulico precisava assumir a transiçao era desajeitada o carro ora freava demais ora parecia solto os pilotos de teste da toyota saiam dos carros balançando a cabeça enquanto a equipe de calibraçao lutava para suavizar os trancos via software uma batalha ainda maior acontecia no porta malas a bateria a joint venture com a panasonic peve entregou as celulas de niquel hidreto metalico que eram essencialmente pilhas grandes parecidas com as pilhas d soldadas em bastoes o problema desse tipo de bateria e que se carregar demais 100% ela superaquece e degrada rapido; se descarregar demais 0% ela inverte a polaridade e morre se nao for ciclada corretamente ela degrada e perde capacidade de armazenamento a toyota sabia que se a bateria precisasse ser trocada a cada dois ou tres anos como a do seu celular ou laptop o projeto seria um fracasso comercial e ambiental a bateria precisava durar a vida util do carro a soluçao foi uma obra prima de gerenciamento de software que define o prius ate hoje a ciclagem rasa shallow cycling resumidamente os engenheiros programaram a ecu da bateria para ser paranoica o sistema jamais permite que a carga real suba acima de 80% ou caia abaixo de 40% os valores exatos variam conforme a geraçao mas o principio e esse o painel do carro mente para voce quando ele mostra bateria cheia ela esta na verdade em 80% quando mostra vazia ainda tem 40% ao manter a bateria sempre nesse sweet spot termico e quimico a toyota conseguiu fazer uma tecnologia instavel durar 10 15 20 anos em agosto de 1997 a quatro meses do lançamento a calibraçao chegou ao nivel aceitavel para colocar o carro em produçao o problema agora era fabrica lo em grande volume como montar um carro que tem dois motores uma bateria de alta tensao e quilometros de fiaçao laranja em uma linha de produçao comum nao havia tempo para automaçao total os primeiros prius foram montados com um nivel absurdo de trabalho manual era quase uma manufatura engenheiros de processo montavam as baterias com luvas de alta tensao checando conexoes manualmente uma a uma em dezembro de 1997 contra todas as probabilidades contra a fisica contra o bom senso financeiro e contra o cronograma o primeiro toyota prius produzido em serie codigo nhw10 saiu da linha de produçao em 10 de dezembro de 1997 um dia antes da assinatura do historico protocolo de kyoto o toyota prius começou a ser vendido no japao o slogan era just in time for the 21st century bem a tempo do seculo 21 mas tambem um trocadilho com o modelo administrativo just in time do sistema de produçao da toyota — tps ou toyotismo a verdadeira surpresa no lançamento nao foi o slogan nem os 28 km/l e sim seu preço o carro chegou as lojas custando ¥2 15 milhoes equivalente a us$ 16 500 na epoca enquanto um corolla custava cerca de ¥1 5 milhao us$ 11 500 na epoca para o consumidor comum parecia caro — ainda que a diferença compensasse pelo consumo menor do prius para os executivos da concorrencia contudo aquele preço era um misterio ao somar o custo do motor eletrico do gerador do pacote de baterias nimh dos inversores com semicondutores proprietarios e da transmissao planetaria a conta nao fechava estima se que o custo de produçao de cada prius da primeira geraçao fosse o dobro do preço de venda a cada prius vendido a fabricante perdia segundo estimativas de analistas de mercado entre us$ 10 000 e us$ 30 000 — um caso evidente de loss leading para testar a tecnologia no mundo real e criar uma barreira de entrada intransponivel para os rivais e por isso tambem que esta primeira geraçao nhw10 foi vendida exclusivamente no japao a toyota sabia que o carro ainda era na pratica um beta publico se as baterias começassem a queimar ou o carro começasse a fritar inversores seria melhor que isso acontecesse perto da fabrica para garantir que o experimento nao virasse um desastre de pr a toyota montou uma força tarefa de qualidade com uma unica regra clara se um prius acendesse uma luz de alerta em qualquer lugar do japao a concessionaria nao deveria tentar consertar eles ligavam para a sede e os engenheiros da equipe de desenvolvimento viajavam pessoalmente para diagnosticar o carro o cliente recebia um carro reserva de luxo mil desculpas e dias depois seu prius devolvido com componentes atualizados — e todos os dados do carro coletados pela toyota e esses dados foram providenciais por que revelaram um problema serio do nhw10 ele era excelente para o transito travado de toquio mas inadequado para o resto do mundo entre 1997 e 2000 enquanto o prius era testado pelo japao a engenharia da toyota fazia a adaptaçao para o mercado global o maior desafio dessa etapa foi revelado pelos dados coletados no japao o sistema hibrido original foi calibrado para o anda e para das cidades japonesas com regeneraçao constante e baixa carga termica os eua contudo sao o oposto la o carro precisa entrar em uma interstate acelerar ate 120 km/h 75 mph e manter essa velocidade por horas as vezes sob o sol escaldante da california ou do deserto nos testes de validaçao contudo ficou claro que para o mercado americano o motor 1 5 atkinson de 58 cv era fraco demais e precisaria operar em regimes elevados de rotaçao para manter 120 km/h — o que acabaria com a economia de combustivel e com o conforto de rodagem mas isso seria apenas a parte mais perceptivel a falta de potencia faria o motor eletrico tentar compensar a entrega descarregando e superaquecendo a bateria a partir destes testes nasceu o nhw11 o prius de exportaçao ele ficou pronto em 2000 e estreou com o facelift do prius original sob a carroceria contudo era um carro significativamente diferente começando pelo motor que recebeu um comando variavel de valvulas vvt i fazendo a potencia aumentar de 58 cv para 70 cv e permitindo ao carro viajar em velocidades rodoviarias a bateria tambem foi atualizada um pacote menor mais leve e com arrefecimento otimizado — isso claro alem da reprogramaçao da ecu o nhw11 desembarcou nos eua em 2000 com uma estrategia de marketing cirurgica a toyota sabia que nao venderia o carro para o cliente convencional da marca quem compraria o prius eram os geeks os early adopters ele era um carro economico como no japao mas nos eua ele era tambem um gadget sobre rodas dirigir um prius em 2001 no vale do silicio era como ter o iphone 18 antes de todo mundo houve ainda um segundo perfil de comprador o cliente com consciencia ambiental nao apenas por que ele queria economizar mas tambem por que ele queria mostrar ao mundo que esta consciente sobre a preservaçao de recursos e emissoes foi o começo de um fenomeno cultural tao improvavel quanto duradouro leonardo dicaprio e cameron diaz começaram a aparecer nas paginas de paparazzi dirigindo o prius logo o carro deixou de ser uma excentricidade de engenharia para se tornar um acessorio de moda intelectual e politica dicaprio e seu prius nhw11 a toyota pretendia vender apenas 1 000 unidades do prius por ano em seis anos vendeu 123 000 carros — 1 700 por mes em junho de 2003 a primeira geraçao do prius cumpria sua missao provou que a tecnologia funcionava onde quer que fosse usada preparou o e garantiu a segurança para que em 2003 a verdadeira revoluçao chegasse com a segunda geraçao — desta vez sem perder dinheiro durante quase tres decadas analistas e entusiastas rotularam o hibrido como uma tecnologia de transiçao a narrativa era clara o prius seria apenas uma ponte temporaria um mal necessario ate o dia em que baterias perfeitas e carregadores onipresentes tornassem o motor a combustao obsoleto a ironia final da saga de eiji toyoda akihiro wada e takeshi uchiyamada e que 30 anos depois a ponte se revelou o terreno mais solido de todos o toyota prius se consolidou como o meio termo viavel para o mundo moderno enquanto a industria mergulhava na corrida do ouro dos eletricos puros bev enfrentando gargalos de mineraçao de litio redes de energia sobrecarregadas custos proibitivos e principalmente falta de interesse do publico o sistema hibrido da toyota permaneceu como a soluçao sustentavel baseada na realidade sob o ponto de vista analitico o prius consolidou a logica de alocaçao de recursos da toyota a regra do 1 6 90 com a quantidade de materia prima necessaria para construir a bateria gigante de um carro 100% eletrico e possivel fabricar baterias para seis hibridos plug in ou noventa hibridos convencionais como o prius original takeshi uchiyamada e o prius ao escolher o caminho hibrido o prius democratizou a eficiencia ele permitiu que milhoes de motoristas reduzissem seu consumo pela metade hoje sem exigir que mudassem seu estilo de vida sem exigir reformas na rede eletrica das cidades e sem depender de subsidios estatais eternos para serem comprados o prius provou que a revoluçao nao precisa ser uma ruptura dolorosa ele entregou o que o projeto g21 prometeu la em 1993 um carro que usa a tecnologia para otimizar o uso de recursos naturais o prius matou o argumento de que eficiencia exige sacrificio ele financiou a cadeia de suprimentos de eletrificaçao global pagou pelo desenvolvimento dos motores eletricos e inversores que hoje equipam seus rivais e fez tudo isso mantendo a liberdade de ir e vir que define o automovel no fim o carro do seculo 21 que eiji toyoda tanto temia nao construir nao era uma nave espacial eletrica e autonoma era apenas um seda inteligente que sabia quando desligar o motor e quando acelerar equilibrando se perfeitamente na linha tenue entre o idealismo ambiental a realidade economica e a vontade do motorista veja aqui os capitulos anteriores
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