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É verdade que Henry Ford fez um carro de maconha?

É, sim. Quer dizer, quase. Mas… do que a gente estava falando mesmo?

Ah, sim, do carro de maconha de Henry Ford. Sim, um carro que queimava maconha! Esta história circula pela internet de tempos em tempos e é especialmente popular entre os sites dedicados à erva mas, como toda boa polêmica (porque, bem, este é um assunto polêmico), é cheia de meias-verdades. Mas, de fato, Henry Ford fez um carro que não apenas queimava óleo de cânhamo — que é o nome que se dá aos derivados da planta Cannabis, como fibras, extrato e óleo — como combustível, mas também tinha a carroceria feita com fibras da planta.

Esses derivados da Cannabis São produtos que costumam ter concentração baixíssima ou até mesmo nula de tetra-hidrocanabinol — o famoso THC, princípio psicoativo da maconha — e são usados pela indústria têxtil, em artesanato ou na composição de medicamentos. Aparentemente, também dava para fazer carros com eles, como Henry Ford teria provado na década de 1940 ao fazer um carro usando maconha. Alguém mais lembrou de Cheech and Chong?

Há diversos mitos a respeito do carro de cânhamo, ou Hemp Car, em inglês. Os detalhes a respeito do carro se perderam no tempo, mas é verdade que ele existiu — há fotos e vídeos dele na Internet. Segundo consta, os painéis de sua carroceria eram feitos de uma combinação de fibras de soja e cânhamo, e a Ford também projetou o motor para queimar álcool de cannabis.

Os primeiros registros de utilização da cannabis pela humanidade datam de 2.500 a 3.000 anos atrás nas civilizações do sul da Ásia, como os hindus (que batizaram a erva como ganja). Também há indícios de consumo de maconha pelos habitantes do Egito no ano 950. Civilizações da América do Norte e da América Central também consumiam a planta medicinalmente e, por razões que você provavelmente imagina, como “poção do amor”. No início do século XX começaram a surgir as primeiras restrições ao uso da erva em países como os EUA, a África do Sul e, acredite se quiser, na Jamaica — onde só recentemente começaram a ser dados os primeiros passos em direção à descriminalização.

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Dito isso, naquela época a maconha ainda não era um tabu tão grande quanto hoje — e é bem provável que só por isso o projeto de Henry Ford tenha sido levado adiante.

Sua intenção era, na verdade, ajudar os agricultores depois do fim Grande Depressão, crise econômica que abalou os EUA na década de 1930. Como a indústria automotiva crescia vertiginosamente na época, Ford acreditava que utilizar plantas para construir carros seria benéfico para a economia. As fibras vegetais foram usadas para criar os painéis de plástico de um protótipo que foi apresentado em agosto de 1941.

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De acordo com publicações da época, como o New York Times, o carro de plástico seria cerca de 140 kg mais leve que um modelo com carroceria de metal e seria dez vezes mais resistente a impactos — e ainda custaria mais barato. Ele usava uma estrutura tubular com 14 painéis de plástico reforçado com fibras naturais.

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A fórmula do plástico foi outra parte da história que se perdeu no tempo mas, como aponta o blog The Angry Historian, havia mesmo cânhamo em sua composição. Olha só o que disse a edição de 30 de março de 1941 do NYT:

Ainda que o plástico utilize o mesmo tipo de liga empregada em alguns plásticos já comuns, que não foram desenvolvidos pela Ford, a porção que resta vem das fazendas, na forma de fibras resistentes como o cânhamo e rami.

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Produção das chapas de plástico e maconha

Então sim, é verdade que Henry Ford fez um carro que utilizava cânhamo em sua construção. No entanto, é comum encontrar artigos dizendo que as fibras da cannabis correspondiam de 70% a 100% da composição da carroceria, o que não é verdade — a quantidade de fibra de cânhamo não passava de 10%. De qualquer forma, o bio-plástico era bastante resistente — relatos da época dizem que Henry Ford golpeou o carro com um machado e a carroceria continuou intacta.

Fala-se também que o carro era movido por um motor V8 de 60 cv que, veja só, era movido a etanol produzido com cânhamo. Ele era bastante otimista quanto à utilização do álcool como combustível. De acordo com o site HempCar.org, ele teria dito o seguinte ao New York Times:

O combustível do futuro virá das frutas e vegetais, como maçã, ervas, serragem — praticamente qualquer coisa [que seja derivada dos vegetais]. Há combustível em cada pedaço de matéria vegetal que possa ser fermentada. Há álcool suficiente na colheita de um ano de um acre de batatas para mover o máquinário usado para cultivar os campos por cem anos.

É mais difícil comprovar a veracidade da afirmação de que o combustível usado pelo Hemp Car viesse mesmo do cânhamo mas, levando em consideração o que Henry Ford disse, não é de se duvidar.

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A imagem, publicada em um site dedicado à “cultura canábica” diz que este foi um dos primeiros carros de Henry Ford, e que ele era quase todo feito de cânhamo, mas não foi bem assim

Os defensores da ideia acreditam que esta seria mais uma revolução iniciada por Henry Ford — de fato, em 1978 o Fiat 147 tornou-se o primeiro veículo produzido em série com motor movido a álcool, ainda que este viesse da cana de açúcar, e não da maconha.

No entanto, o projeto não foi levado adiante e, ao que tudo indica, a razão para isto tem relação direta com a proibição da planta nos EUA a partir de 1937 e com o início da Segunda Guerra Mundial em 1939, que levou boa parte da indústria automotiva a produzir veículos militares e esquecer um pouco os combustíveis e materiais alternativos.

 

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