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Sessão da manhã

Este vídeo vai te mostrar de uma vez por todas porque o Nissan Fairlady 240Z é um carro tão apaixonante

Foto: Courtney Cutchen

Você deve lembrar que ontem (16), falamos aqui sobre o Datsun 240Z 1976 de Sung Kang, o Han Lue de “Velozes e Furiosos”, e seu projeto para transformá-lo em carro de corrida, com direito a motor de Nissan Skyline. No entanto, o Datsun 240Z bem como sua versão japonesa, chamada Nissan Fairlady Z) é um carro clássico, e não são poucos os que preferem mantê-lo o mais perto possível  das especificações originais.

Dá para entender o apelo da originalidade para estes caras — até porque a sensação de sentar-se ao volante de um pedaço do passado conservado de forma impecável é quase indescritível. A nostalgia é uma das coisas que movem a humanidade, e por isso há quem defenda que devemos persegui-la a qualquer custo. Se, para isto, precisarmos pegar o caminho mais difícil, então que seja.

É esta a filosofia do jovem americano Glenn Chiou. Descendente de japoneses, Glenn já nasceu com um pé na cultura JDM e, sendo filho dos anos 90, ele era quase um adolescente quando a cultura import começou a ficar popular nos EUA, no embala daquela saga de filmes e daquela franquia de games de corrida que sempre mencionamos aqui no FlatOut.

Sendo assim, quando começou a dirigir, Glenn naturalmente deu preferência aos imports. Ele contou ao Petrolicious que teve alguns carros modernos (para a época) modificados com body kits de fibra de vidro, pinturas chamativas e motores preparados com turbo e nitro. No entanto, foi uma questão de tempo até que ele se encantasse pelos carros antigos.

Ao descobrir que era possível encontrar carros japoneses dos anos 60 e 70 a um preço acessível nos EUA, Glenn não perdeu tempo e começou a garimpar por algo que lhe interessasse.

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Glenn diz que começou a perder o interesse nos carros modernos de forma gradual — aos poucos, começou a ficar entendiado ao dirigir um projeto finalizado e sentia falta de uma experiência mais crua e envolvente, uma conexão maior com a máquina e mecânica mais old school, daquelas que sempre têm algo para resolver e nunca te deixam se acomodar sem graxa nas mãos. E, para ele, o Nissan S30 — nome comum ao Nissan Fairlady e ao Datsun 240Z  — era a materialização desta filosofia.

Seis cilindros em linha, carburadores, motor longitudinal e tração traseira. Carroceria de grand tourer, com capô longo e baixo, traseira curta, caimento suave no teto e apenas dois lugares — era a receita perfeita. Além disso, há o fato de o 240Z ter uma tradição respeitável nas pistas, dominando as corridas de turismo da SCCA em 1972, 1973 e 1975, sendo campeão três vezes com Bob Sharp (não o “nosso” Bob Sharp) ao volante. Ter um carro com prestígio no automobilismo era ainda melhor.

Glenn teve cinco ou seis exemplares do S30 antes de encontrar este carro, em 2010 — ele nunca deixou de procurar um exemplar perfeito, na verdade. E este carro estava bem próximo disso: enquanto comprava, vendia e modificava seus Z-Cars, ele conheceu o presidente do clube de proprietários de Datsun da cidade de Santa Cruz, na Califórnia — que também promovia eventos de autocross entre seus membros. Foi este cara quem apresentou Glenn ao automobilismo, e era dele o carro azul que protagoniza este post.

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O Nissan 240Z começou a ser vendido no Japão em 1969 e, como já comentamos aqui algumas vezes, era uma resposta a carros como o Jaguar E-Type e o Toyota 2000GT — grand tourers com belas linhas, motores razoavelmente potentes e marcados pela experiência purista ao volante. No entanto, o S30 também era um carro mais despojado e acessível. Somando todas as suas qualidades, o 240Z acabou se tornando logo de cara um sucesso no mercado doméstico e de importação, especialmente nos EUA, onde começou a ser vendido em 1970.

O detalhe é que o 240Z 1972 de Glenn não faz parte das importações oficiais, tendo sido levado aos EUA em 1973 depois de ser usado por apenas seis meses por seu proprietário original, um tenente da força aérea japonesa que morava em Tóquio. O carro trocou de mãos algumas vezes antes de ir parar nas mãos do amigo de Glenn, que não gostava muito do carro porque “o volante ficava do lado errado.”

Assim, o 240Z ficou parado em um canto de sua garagem (que tinha mais de 40 carros) por 18 anos, à mercê do tempo. O dono topou vendê-lo, com uma condição: a restauração deveria ser feita em sua propriedade, e o carro só sairia dali rodando.

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Durante seis meses, Glenn foi à casa do ex-dono de seu 240Z duas ou três vezes por semana para recuperar o carro. Tudo estava íntegro e o motor até funcionava, mas havia diversos detalhes a acertar — acabamento do interior com peças faltando, retrovisores quebrados, pintura gasta e todo o peso de quase duas décadas sem sair do lugar.

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Ao longo deste período, Glenn decidiu que o carro teria inspiração nos 240Z modificados na época. Estudioso da história do carro no Japão, ele conhecia todas as tendências de personalização dos anos 70, e fez questão de reproduzi-las em seu próprio carro. O volante era peça comum na época, bem como o pomo de madeira na alavanca de câmbio. As peças aerodinâmicas — lip na dianteira e a asa “rabo de pato” na traseira — vieram direto do Japão, visto que simplesmente não faziam parte da lista de opcionais do modelo americano.

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Na verdade, Glenn estima que seu carro é o único 240-L — primeira versão japonesa a oferecer o seis-em-linha de 2,4 litros e 151 cv — nos EUA. Ele tem contatos na comunidade de proprietários que, como todo grupo de entusiastas dedicados a um modelo especial, mantém registros de boa parte dos exemplares que rodam por lá.

Quando se vê o carro contornando desenvolto as curvas das estradas californianas, com a suspensão assentada e a postura de respeito que lhe conferem as RS Watanabe de tala larga, com o ronco alto encorpado do seis-em-linha e nada mais ao fundo, até conseguimos entender porque nem todo mundo concorda com Sung Kang e seu 240Z de corrida. Dá para entender porque Glenn tomou tanto cuidado ao modificar o carro apenas com peças de época (OK, aquela strut bar no cofre é moderna) e manter o estilo clássico.

E você, conseguiu entender por que gostamos tanto do 240Z?

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