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Car Culture

Eurotrip: uma viagem de 4.000 km de carro pela Europa — parte 2


Cruzar um país ou um continente ao volante de um carro é o sonho de dez entre dez entusiastas. O leitor Yuri Franzoni da Silva realizou este sonho na metade deste ano, quando alugou um carro em Paris foi até a Suíça dirigindo ao lado de sua esposa. Nesta mini-série de posts ele irá contar em detalhes sua aventura que inclui estradas perfeitas, museus cheios de graxa e gasolina e dicas para quem pegar a estrada no Velho Mundo. 

 

Outra fronteira, outra vignette

4000 km de carro pela Europa

Ao entrar na Áustria, nenhuma fiscalização na aduana do país – pra falar a verdade, nem enxerguei nenhum posto de fiscalização naquela região. Porém, sabendo da lei local, parei no primeiro posto que encontramos aberto para comprar o vignette (mais um) para rodar nas auto-estradas de lá. É o mesmo esquema da Suíça, mas na Áustria você pode optar por vignettes que duram 10 dias, dois meses ou um ano. O vignette de 10 dias custou cerca de oito euros. Comprei, colei no vidro e seguimos adiante.

O caminho entre Füssen e Innsbruck é espetacular. Passamos por uma região de serra no Alto Tirol, com declives e aclives bastante acentuados, curvas do século 19 que costeavam montanhas… uma pena que nossas fotos nesse trecho ficaram terríveis por conta da muita chuva que pegamos e da neblina no caminho, além do horário, fim da tarde, que nos desencorajou a parar nos trechos que poderíamos. Tanto é que chegamos ao nosso hotel em Innsbruck às 21:00 daquele dia.

4000 km de carro pela Europa

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O trajeto pelas montanhas do Tirol, que levam à belíssima Innsbruck que o tempo não ajudou a fotografar

Innsbruck é uma cidade magnífica, incrustada na região do Tirol, um dos cartões-postais da Áustria. Vale a visita – leve roupa para inverno, pois apesar de termos passado por lá no final de junho (verão), pegamos temperaturas na casa dos cinco graus. Nessa cidade, também, pernoitamos no melhor hotel de todo nosso trajeto — o Basic Hotel Innsbruck, que de “Basic” não tinha nada. Tinha estacionamento (pago), a portaria não prometia grande coisa, mas o quarto era fantástico, novo, tudo reformado e bem amplo. Depois de ter tomado chuva na cabeça o dia inteiro (dentro e fora do carro), aquilo foi um prêmio para nós.

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De lá, começamos nosso trajeto rumo à Itália. Inicialmente, nosso roteiro previa sairmos direto para Veneza, passando pelo caminho recomendado pelo Google Maps, pelo Via Michelin e pelo próprio GPS que nos acompanhava — seriam cerca de 250 km de viagem apenas.

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Inicialmente… pois lá pelo fim de abril, saiu um post aqui no FlatOut! indicando os melhores roteiros para uma viagem gearhead. Não podia perder essa chance…

 

Conferindo “a melhor estrada do mundo”

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Sim, nós resolvemos visitar o Passo dello Stelvio. Isso quase dobrou o trajeto do dia – no total, rodamos mais de 600 km até chegarmos ao hotel daquela noite — mas valeu cada centavo e cada minuto gasto na empreitada. Como leitor assíduo do FlatOut! você deve saber que o Passo dello Stelvio fica no norte da Itália, numa região próxima à fronteira com a Suíça.

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Para chegar lá saindo de Innsbruck, continuamos no caminho que cortava as montanhas do Tirol, que nos levou à fronteira com a Itália, perto da cidade de Curon Venosta. Todo o trecho que fizemos até antes da entrada para o Passo dello Stelvio já teria valido a pena a mudança de rota…

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Só este trecho já teria valido o desvio

…mas o que veio depois foi simplesmente espetacular. Até a Raquel, que estava um pouco reticente de dobrarmos a quilometragem do dia “só pra passar por uma estradinha” acabou mudando completamente de ideia.

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Estradinha, é?

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O Stelvio, na minha opinião, foi o trecho mais impressionante pelo qual passamos durante todo o trajeto de carro, e com toda certeza um dos mais bonitos da viagem.

4000 km de carro pela Europa

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Dá pra entender porque tantos passam devagar por aqui… inclusive eu

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Começamos a nossa subida de montanha e encontramos uma série de pousadas e restaurantes no caminho. Paramos para almoçar em um deles. Até então, nós tínhamos comido relativamente MAL em todo lugar que passamos – a maioria das vezes devido à falta de opções, porque almoçávamos tarde e em cidades pequenas, o que nos obrigou a encarar um McDonalds ou Burger King (no mínimo seis vezes cada um!).

Meu amigo leitor, minha amiga leitora… tiramos o atraso. Além do restaurante propriamente dito ser excelente, estávamos finalmente na Itália! Pedimos um prato de massa cada um e uma pizza para o almoço. O rango que veio era tão graúdo que além do almoço, a pizza serviu de janta também… tudo por 30 euros. Se comparado com Londres, onde gastamos 24 libras para comer duas porções de fish & chips (em português, peixe frito sem sal nem gosto e batata frita engordurada e molenga… nem deu pra comer o prato inteiro), aquilo era uma pechincha.

Pança cheia, vamos em frente. Começamos a subida da montanha, passando pelas 48 curvas numeradas e encontrando paisagens como essas:

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As curvas em sequência eram tão divertidas que até minha esposa se animou a filmar e gravar fotos em sequência – que até dão uma boa ideia do que é subir o Stelvio:

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Chegamos ao topo, encontramos muitas motos, muitas casas de souvenirs, alguns restaurantes, uns dois ou três hoteis e pousadas. O topo do Stelvio abriga uma estação de esqui. Conferimos e seguimos adiante – muitos chegam ao topo e retornam pelo mesmo caminho.

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Porém, como estávamos a mais de 300 km de distância de Veneza, nosso ponto de chegada naquele dia, e já passava das 15:00 quando chegamos ao topo, infelizmente não pudemos continuar na estrada do Stelvio até o seu final, na cidade italiana de Bormio (e eu voltei pra cá com uma desculpa esfarrapada para fazer esse roteiro novamente antes de morrer!).

Décimo quarto conselho: vá conhecer o Passo dello Stelvio. E tire um dia inteiro só pra isso.

Então, um pouco depois de passar pelo topo da montanha, entramos à direita e rumamos em direção à fronteira Suíça. Saímos em um pequeno vilarejo e logo após… novamente na fronteira italiana. Em resumo, fomos parar no mesmo local de onde entramos para conhecer o Stelvio. Dali seguimos adiante até Veneza.

 

Veneza e a primeira mordida dos pedágios

No caminho a Veneza, passamos pela região das montanhas Dolomitas, local de paisagens maravilhosas, que infelizmente não pudemos conhecer com calma por falta de tempo disponível no nosso roteiro. Mas deu para conferir um pouco na estrada:

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As Dolomitas

Mas além de boa comida e paisagens fantásticas, a Itália nos trouxe algumas mordidas no bolso… Na França, passamos por apenas um pedágio mas não dá pra ter uma base muito consistente para opinar – só saímos de Paris em direção à Bélgica. Na Bélgica, Holanda e Alemanha, não pegamos um pedágio sequer em todo o caminho. Já na Suíca e na Áustria,

tivemos de comprar os vignettes, que foram relativamente caros (especialmente na Suíça, ainda mais por estarmos só de passagem). Na Itália que a mordida dos pedágios foi mais forte.

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Nesse país, a taxa é calculada pela quilometragem que você rodar em auto-estradas: quando você entra em uma alça de acesso, a primeira coisa que aparece é uma cancela automatizada – estilo estacionamento de shopping – que te dá o comprovante de “entrada”. Então você roda o quanto quiser na auto-estrada, trocando de rodovia se necessário, e na saída para qualquer cidade ou estrada secundária, você invariavelmente passa por um posto de cobrança, que calcula a taxa de acordo com o seu ticket de entrada. Simples e eficaz. Assim, chegamos em Veneza às 20:00 – mas não sem antes torrar uns 13 euros em pedágio.

Eu já estava psicologicamente preparado para a (outra) mordida que seria estacionar em Veneza. Quer dizer, não bem na Veneza dos canais, quase isso. O mais perto que você consegue chegar de carro é em um estacionamento na chamada “Mestre”, a parte continental da cidade. Largamos o carro por lá – ao relento, no último andar, pois estava lotado – e morremos com 26 euros por 24 horas de estadia. Pois é, doeu no bolso. Então, talvez seja uma boa ideia achar um local para deixar o carro mais longe da cidade (talvez em alguma cidade vizinha?) e usar o transporte público para chegar ao destino.

Pegamos nossa bagagem para aquela noite, atravessamos a Ponte della Costituzione, passamos diante do Termini (o terminal ferroviário da cidade) e achamos – com algum esforço – o nosso hotel. Tratava-se de um antigo mosteiro, que fora reformado e virou um hotel. Muito bom o lugar, um café da manhã saboroso, pessoal bem treinado, acomodações adequadas… valeu a pena o esforço. Veneza à noite é fascinante – até mesmo quando você se perde e não acha o caminho de volta, como aconteceu com a gente…

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Quase 21:00 em um dia de verão em Veneza

…mas é de dia que a cidade mostra toda a sua beleza, com os seus canais esverdeados:

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Meio-dia de verão em Veneza

Décimo quinto conselho: não tente achar atalhos para voltar ao seu hotel em Veneza. Ainda mais à noite.

Partimos de Veneza em direção a Bolonha. Até a Áustria, eu dirigia como o típico turista, curtindo o trajeto e preocupado em não atrapalhar o trânsito dos locais, pois o senso de civilidade dos motoristas dos países que passamos até então é bem maior do que o nosso. Já durante os trechos italianos, estávamos nos sentindo em casa de novo – pode-se dizer que grande parte da nossa cultura no trânsito veio da Itália, no sentido negativo. O pessoal de lá também não é muito de respeitar leis, preferenciais, limites de velocidade – e olha que a fiscalização é onipresente, eletrônica, presencial, velocidade média do percurso, radares fixos, móveis… mesmo assim, de maneira geral, os motoristas ainda são um pouco mais civilizados do que aqui (exceto em Roma, vocês vão ver). Almoçamos em um buffet num posto de gasolina pelo caminho, onde enchemos outra vez o tanque do Astra.

 

Lambos! Lambos everywhere

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Nem entramos em Bolonha, pois nosso objetivo era Sant’Agata Bolognese. Saímos da auto- estrada em Bolonha e lá se foram mais dez euros e uns quebrados em pedágio. Terra da Lamborghini (não brinca!), cuja fábrica e museu ficam à beira da estrada que leva à cidade. Por azar, não pude conhecer o museu que fechava às 17:00 (chegamos lá 17:15), mas deu para conferir a Lamborghini Shop, torrar mais um pouco de dinheiro e tirar umas belas fotos.

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De cima para baixo: Fábrica e Centro Eccelenza Lamborghini, Lamborghini Shop e Museo Lamborghini

Décimo sexto conselho: programe-se direito para não perder uma atração como essa. A não ser que você não se importe em tomar algumas multas pelo caminho, não dá para exagerar no acelerador nas estradas secundárias da Europa. A fiscalização é onipresente e a mordida é dolorida.

Estávamos nós saindo do museu/loja/fábrica, quando o trânsito parou para atravessarmos sobre a faixa de segurança. Do outro lado, damos de cara com isso:

4000 km de carro pela Europa

Apenas uma proteção para a dianteira? Ou algum segredo em teste? Não sei, só prestei atenção na arrancada da criança…

O trânsito parado, eu atravessando e tentando sacar a câmera… e minha esposa registrando com o iPhone na mão. E o trânsito esperando pela gente… e italianos sendo italianos, gritando para a gente andar logo… mas não consegui conter minha cara quando vi aquilo. Atravessamos, e cara do Lambo continuou parado, como que fazendo pose.

Enquanto eu ligava a câmera, abriu um espaço razoável à frente daquele carro e o motorista resolveu dar aquela puxadinha bem de leve, como deve imaginar. Não sei se era algum modelo em testes, algum segredo ou se era só uma proteção que estava na dianteira daquele Lambo. Além disso, não consegui puxar a câmera rápido o suficiente para pegar a arrancada… mas ouvir o berro daquele motor não tem preço. Ou até tem.

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Repare a tabela de preços ao lado do carro. Ser pobre é phoda…

 

Na próxima parte: a fábrica da Ferrari, a torre de Pisa, o trânsito de Roma, Florença e o fim da viagem. Leia neste link a primeira parte da viagem

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