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Project Cars Project Cars #425

Ford Focus Wagon: o início dos reparos do Project Cars #425

Saudações, parceiros gearheads! Vamos para mais um episódio dessa história? Afinal, o que são carros descartáveis? Talvez a resposta seja: “perfeitos Project Cars”!

Essa expressão — “carros descartáveis” —  se refere a veículos com milhagem alta que tendem a ser mais caros de se reparar do que se fossem simplesmente substituídos por outro. Um exemplo disso foi o Focus que seria um péssimo negócio para quem dependesse de um mecânico para efetuar os reparos necessários, onde a resolução de todos os problemas quadruplicaria o valor do qual ele estava sendo vendido, resultando em quase $4.000, suficiente para comprar um Audi A4 Wagon 2005 com milhagem alta, mas sem nenhum problema.

Por qual motivo estou falando disso se todos já sabiam que o Focus é considerado um carro descartável? Pois os outros Focus que apresentaram algum problema e não tiveram a oportunidade de serem reparados ou até de tornarem um Project Car e serem restaurados estão aqui, no junkyard.

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Pode parecer sádico, mas o junkyard é o meu playground. Visitar esse lugar é o meu programa preferido para os sábados e domingos livres.

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Ter um carro considerado descartável como Project Car significa encontrar peças originais em abundância em qualquer junkyard. O junkyard em questão possui 12 unidades de Ford Focus de diversos anos e tipos de carroceria, assim como centenas de outros veículos de outras marcas.

Esse local pode exigir um pouco de conhecimento e paciência, mas é crucial para efetuar reparos gastando muito pouco. Os preços podem variar de acordo com o junkyard, mas neste é possível comprar um farol por apenas $5 ou até uma transmissão completa por $170, tudo o que você precisa fazer é tirar você mesmo, com as suas próprias ferramentas. Se você pudesse apenas escolher um carro e pegar a peça que você precisa, não importa qual seja, você não se sentiria no paraíso também?

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Lembram do interior do carro com peças de acabamento quebradas ou faltando? Esses carros foram os doadores de cada uma das peças para deixar o interior perfeito, e custou apenas $50 por tudo.

Já com a mão na massa não demorou muito até decidir efetuar a limpeza profunda dos bancos e do assoalho, assim como remover aquela película velha. No fim do dia o resultado dos reparos foi gratificante.

Outra característica importante dos junkyards é a fonte de aprendizado. Antes de fazer alguma coisa no seu carro você tem a oportunidade de estudar e fazer em outro e isso pode ajudar a descobrir que tipo de imprevistos esperar daquele reparo e quais as ferramentas serão necessárias.

Era verão e, embora a sensação térmica seja mais confortável devido ao clima seco, faz mas muito calor. Minha esposa pediu que eu desse uma prioridade para o ar-condicionado, então foi o que eu fiz.

O sistema de ar-condicionado sempre foi um mito para mim mas, depois de alguns vídeos, aprendi que é possível diagnosticar uma sobrecarga de gás, ou a falta dele, através da atuação do compressor. O compressor possui uma embreagem acionada por um eletroímã que quando acionada, transfere o movimento da correia serpentina para o compressor, movimentando um cilindro e bombeando o gás para o restante do sistema. Se você tiver uma quantidade errada de gás no sistema o intervalo de engate e desengate dessa embreagem deve ser bem rápido, como de 4 em 4 segundos.

 

No meu caso era realmente um problema de carga então dei um pulo na autopeças e comprei um cilindro de gás freon que vem com um manômetro e com selante para qualquer vazamento pequeno no sistema por apenas $37. Infelizmente, quem não sabe fazer a recarga por conta própria, ou tem medo, precisa pagar $170 para um mecânico. Para mim bastou seguir os passos gravados na lateral do cilindro e eis que o ar frio emerge novamente das entranhas do Focus.

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Naquela época o vazamento de água e óleo ainda eram contornáveis com reabastecimentos periódicos, até que deixou de ser.

Lavando o carro, em um lindo domingo, passei a mão pelo pneu e fui espetado por algo. Girei o volante para ter uma visão melhor do que seria a ruína do restante do meu dia, ARAMES. O pneu havia comido até chegar nos arames e eu nem havia suspeitado pois nunca havia tido um problema de cambagem antes. Sabendo que teria que comprar um pneu e refazer o alinhamento para evitar esse problema novamente, aproveitei para verificar o problema da trepidação do volante pois já estava virando palhaçada não poder de passar de 95 km/h sem sentir desconforto.

Não demorou muito pra notar, não mais a folga, mas as férias do terminal de direção do lado do passageiro que fazia o conjunto inteiro trepidar em alta velocidade.

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O valor total do reparo ficou em $15. Efetuei a troca da peça utilizando o manual de manutenção procurando manter o alinhamento atual mesmo sabendo que, no dia seguinte, ele seria reconfigurado.

Ao retirar o carro dos cavaletes e dar a partida para tirar da garagem, uma nuvem de fumaça surge por baixo do capô. Fala sério, eu estava em um daqueles dias que não deveria ter acordado mesmo.

Fui verificar o que aconteceu e tudo o que concluí foi que a fumaça era proveniente do coletor de escape, olhando mais para cima encontrei a vilã, excelentíssima junta da tampa de válvulas vazando óleo sobre o coletor de escape que, por sua vez, queimava o mesmo quando o motor aquecia. Eu realmente estava em um dia muito ruim.

No dia seguinte levei o carro para a loja de pneus, comprei um pneu usado por absurdos $40 e efetuei o alinhamento por absurdos $95. Apesar do volante levemente torto, o carro agora podia chegar confortavelmente aos 140 km/h, sem mais trepidações e ainda preservando a integridade dos pneus.

Depois de mais uma semana de trabalho, determinado, fui arrumar o problema do vazamento de óleo na tampa de válvulas e, se tivesse tempo, dar uma olhada no vazamento de água.

Aqui ficarei devendo fotos pois era a primeira vez que eu fazia qualquer tipo de reparo dentro do motor, mesmo que só na tampa plástica dele. Tudo o que fiz foi seguir o tutorial a baixo com toda a destreza de um aprendiz ninja. Um problema que custaria $230 para ser reparado por um mecânico passou a custar $50 pela nova junta e 3 horas de muita paciência e reflexão pra não fazer merda. Na ocasião decidi ignorar o vazamento em baixo do motor, só pela força do cagaço mesmo.

Legal, no domingo consegui tempo pra dar uma olhada no vazamento de líquido de arrefecimento. Pela posição do vazamento no chão eu podia sugerir que o vazamento vinha do alojamento do termostato, mas bastou encostar em uma mangueirinha insignificante que entrava por cima do alojamento para receber a resposta no mesmo instante. Como uma artéria cortada, o líquido verde foi esguichado pela lateral da mangueira, mostrando uma rachadura próximo a ponta. Bastou cortar a mangueira até a parte danificada e reconectar com uma abraçadeira nova, abandonando a original que pressionou até cortar. Não faço ideia de quanto teria custado esse reparo em uma oficina mecânica, mas pra mim ele custou apenas uma abraçadeira de metal.

Sinceramente, vocês devem estar me achando maluco por ter comprado um carro que me meteu em tanta treta. Mas calma que ainda não acabou.

Dias depois, após mais um dia de trabalho, me deparei com um grande vazamento abaixo do carro. Dando aquela fungada gostosa no chão (imaginem a cena), constatei um vazamento de líquido de arrefecimento novamente. Teria a abraçadeira causado mais um corte ou então não ter ficado bem presa? Errado.

O culpado era o alojamento da válvula termostática que havia tido sua carcaça plástica trincada na região do parafuso de fixação inferior, causando o vazamento através do próprio parafuso. A carcaça plástica não poderia ser reparada e, neste caso, não gostaria de brincar com a sorte pegando uma válvula termostática no junkyard. Comprei um novo alojamento com a válvula termostática e demais componentes inclusos, bastando apenas recolocar os 3 parafusos novamente. Nem precisei de conteúdo técnico para me ajudar nisso e ainda gastei apenas $50 trumps pela peça necessária.

Por mais raro que ocorresse, eventualmente a transmissão deslizava, principalmente depois de ficar muito tempo em um engarrafamento, andando dentro da cidade ou com o carro muito carregado. Sempre que isso acontecia me dava aquele frio na barriga e a lembrança de que eu precisava arrumar aquilo o mais rápido possível, mesmo que eu não quisesse.

As causas de uma transmissão automática deslizando podem ser diversas, porém as condições indicavam um problema de superaquecimento do conjunto, seja por falta de fluído ou por fluído vencido. Se o fluído não estava faltando o único problema poderia ser a validade dele. Segundo os notas fiscais, a troca do fluído havia sido executada ainda em 2016 mas ouvi diversos relatos sobre mecânicos que somente disseram ter feito o serviço, já que o cliente, leigo, não teria nenhuma forma de verificar se o serviço foi feito de fato. Assumi que isso pudesse ter acontecido, e realmente aconteceu.

O fluído que saiu do cárter estava velho, preto e turvo, diferente da coloração avermelhada e transparente que um fluído novo apresentaria. O fluído não apresentava limalha, dessa forma poderia imaginar que as engrenagens da transmissão estavam em boa forma.

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Vou aproveitar e deixar uma reportagem em vídeo, em inglês, feita na província de Ontário, no Canadá. Foram escolhidos 3 veículos diferentes nos quais foi efetuada a troca dos fluídos de freios, transmissão, radiador e direção hidráulica. Cada veículo foi conduzido por uma pessoa diferente até a oficina com o objetivo de fazer apenas uma troca de óleo por $19.

Foram instaladas câmeras nos carros a fim de comprovar em imagens o que aconteceria com o veículo. O decepcionante resultado segue abaixo.

No primeiro veículo o mecânico informou que o fluído de freio e de direção hidráulica precisavam ser trocados pois aparentavam estar velhos, além de indicar ao condutor a troca de óleo por $29, informando que seria melhor.

Após o serviço, esse mesmo veículo voltou para o mecânico que havia feito a troca dos fluídos antes do teste e o mesmo constatou que não apenas não era necessário, como de fato o serviço cobrado não havia sido executado.

A situação se repetiu nos outros 2 veículos, mas indicando a troca do fluído de transmissão ou radiador. No caso do radiador o problema foi pior pois o mecânico sangrou um pouco do líquido de arrefecimento verde e colocou um laranja no reservatório de expansão. Lógico que o mecânico que havia feito a troca do fluído antes do teste foi obrigado e refazer a troca completa novamente, pois misturar dois tipos de líquidos de arrefecimento não poderia resultar em algo bom.

O dono da oficina não quis se manifestar inicialmente, mas posteriormente, em telefone, disse que isso jamais teria acontecido nas suas oficinas, mas que pessoas são pessoas e que, se isso aconteceu, com certeza ele concordaria que foi uma fraude. Um policial de Hamilton, cidade na província de Ontário, concluiu através dos registros de vídeo que vender um produto que não era necessário não era crime, porém vender um produto e não entregar ele é como roubar com um sorriso no rosto.

Um dos mecânicos que trabalhou nos carros negou ter atendidos os clientes e o outro se manifestou informando que não se orgulhava do acontecido, mas que era forçado pela empresa a efetuar essas vendas e não entregar, situação igualmente descrita por outros dois ex-funcionários entrevistados que, aparentemente, fizeram a denúncia.

Para a remontagem do conjunto, utilizei um kit composto pela junta do cárter e filtro da transmissão, adquirindo também 3 litros de Mercon V, suficientes para o reparo.

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Mesmo sabendo que outros fatores ainda poderiam causar o superaquecimento da transmissão dei a questão por encerrada e a transmissão não deslizou mais, mesmo depois de passar horas transitando vagarosamente em engarrafamentos.

Finalmente eu poderia descansar um pouco e aproveitar o carro, fazendo mais uma viagem para Las Vegas buscando no aeroporto amigos que decidiram recomeçar a vida aqui, assim como nós fizemos, e voltando pelo estado do Arizona, visitando o Grand Canyon mais uma vez e dirigindo mais de 8 horas durante a noite, no meio dos canyons, para chegar a tempo de limpar mais duas casas na sexta-feira.

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Primeiro dia

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Segundo dia

Foram 1.813 km percorridos em dois dias. Sem surpresas, o carro cumpriu o seu papel de forma excelente, muita divertida e extremamente confortável. Grande e espaçoso, o carro se mostrou perfeito para longas viagem deslocando até 4 pessoas e carregando uma quantidade considerável de malas, sem pesar no desempenho.

Percorrer 1.813 km no Brasil pode ser desafiador, ainda mais em somente dois dias, mas vale lembrar que esse carro possui controle de cruzeiro e o limite de velocidade entre os estados de Utah, Nevada e Arizona é cheio de trechos com limites que superam 130 km/h.

Mas calma, essa história ainda vai acabar um pouco melhor. Na volta da viagem resolvi fazer a troca de óleo e percebi que o pequeno vazamento em baixo do carro, que acreditava vir da junta do cárter, era causado pelo bujão do cárter que não havia sido devidamente apertado anteriormente. Obrigado pelo cagaço, senhores mecânicos!

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Depois de quase dois meses de aprendizado e trabalho duro, o Focus se mostra um carro confiável, divertido e pronto para um próximo passo na nossa relação. Era chegada a hora das modificações.

Por Daniel Rashid, Project Cars #425

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