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Car Culture História

Gassers: como surgiram os primeiros e mais icônicos carros de arrancada


Se você tivesse que descrever a primeira coisa que vem à sua cabeça quando se fala em arrancada, são altas as chances de que sejam muscle cars empinando, com seus V8 roncando alto e embaralhado, ou dragsters Top Fuel de 8.000, 10.000 cv. Mas a verdade é que as arrancadas percorreram um longo caminho antes de se tornarem uma das maiores e mais diversificadas categorias do automobilismo, como são hoje. E vieram de era com bem menos recursos e, para alguns, muito mais adrenalina: a era dos Gassers.

É curioso como eles são bem menos lembrados pelo público em geral do que outros tipos de carros de arrancada, visto que eles estiveram entre os primeiros a surgir. A origem das arrancadas remonta às disputas de recordes de velocidade em BonnevilleSalt Flats, Utah, que a partir de 1949 passaram a ser organizadas pela South California Timing Association (SCTA), que promovia corridas desde a década de 30.

Este vídeo não tem áudio e fica bem mais legal com alguma música matadora de fundo

Buscando, mais uma vez, expandir sua atuação, a SCTA realizou em 1950 a primeira corrida de arrancada nos EUA. A chamada Santa Ana Drags aconteceu no Sul da Califórnia e era uma variação dos desafios das planícies de sal. A diferença era que, em vez de tentar alcançar a maior velocidade possível, os carros corriam em uma reta limitada, contra o relógio.

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Contudo, as arrancadas só começaram a ficar populares quando um ex-funcionário da SCTA , Wally Parks, tornou-se editor da Hot Rod Magazine — fundada em 1948 — e criou sua própria associação de pilotos de arrancada, a National Hot Rod Association (NHRA), em 1951 — a fim de, como ele mesmo disse, “organizar o caos” que eram as competições na época, estabelecendo regras e padrões de segurança.

A primeira competição foi realizada em 1953 e, três anos depois, a NHRA promoveu seu primeiro campeonato nacional de arrancada. Àquela altura já existia uma divisão bem definida de categorias: os dragsters, que usavam chassis de fabricação própria, e os custom, que era carros de rua modificados. Os custom eram distribuídos entre coupesedanroadster. Estes últimos precisavam ter boa parte dos itens originais de fábrica — faróis e lanternas, buzina, limpadores de para-brisa, por exemplo. Os motores, contudo, praticamente não tinham restrições para a modificação.

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Para conseguir mais potência, a solução mais comum era a instalação de motores maiores nos modelos da Ford e da Chevrolet e de marcas menores como Willys, Studebaker ou Anglia, além da adoção de compressores mecânicos do tipo Roots. A transmissão costumava ser de três marchas. Contudo, havia um tipo de custom nas pistas de arrancada cuja maior característica era a suspensão dianteira.

O fato era que as receitas de preparação de motores já eram conhecidas e limitadas — um V8 Flathead da Ford ou um Pontiac 389, compressor Paxton e você tinha metade de um carro vencedor.

O problema era a outra metade: chão — nem todo mundo conseguia. Para ser rápido de verdade, um carro de arrancada precisava de um entre-eixos curto e um centro de gravidade relativamente alto (para uma melhor transferência de peso). Ah, e precisava ser um carro barato.

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Uma das tentativas mais curiosas de se conseguir tudo isso resultou nos carros que ficaram conhecidos como Gassers.  O termo vem do fato de que eles surgiram entre as categorias que queimavam gasolina e não etanol ou nitrometano.

Sua característica mais marcante, porém, não tinha a ver com o motor — e sim, como já dissemos, à suspensão dianteira. Para levantar o centro de gravidade, alguém chegou a conclusão de que uma boa solução seria levantar o motor — modificando o eixo dianteiro e dando aos carros uma aparência bastante distinta, com pneus dianteiros finos e pequenos e borrachudos bem maiores na traseira.

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Uma das maneiras de levantar a dianteira do carro era adaptar ao chassi o eixo rígido de uma picape ou caminhão — além de robustos, eram surpreendentemente mais leves do que os sistemas originais do carro e, por isso, ajudavam na distribuição de peso (em que auxiliava, também, o reposicionamento das baterias para a traseira). Contudo, a utilização deste método não era tão comum quanto se costuma pensar — boa parte dos pilotos de arrancada preferia levantar a suspensão original dos carros usando feixes de molas semi elípticas e barras Panhard.

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Por todo o carro eram adotadas mais algumas soluções para a redução de peso: interior depenado, janelas de Plexiglass e painéis de fibra de vidro na carroceria.

Completando o visual que já era bastante chamativo, muitos pilotos pintavam os carros com cores berrantes e escreviam neles com letras chamativas, além de reposicionar as saídas de escapamento, que iam parar nos para-lamas dianteiros.

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Foto recente, carros modernos, receita antiga

Os Gassers acabaram se tornando, em poucos anos, uma das categorias mais populares da NHRA: a facilidade para encontrar carros baratos e a relativa simplicidade das modificações atraía cada vez mais participantes até meados daa década de 60, quando uma mudança nas regras da NHRA deu um novo rumo aos Gassers.

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A categoria passou, em 1967, a permitir carros com chassis tubulares, feitos sob medida, cobertos com carrocerias de metal ou fibra de vidro. Também foi liberada a modificação no entre-eixos do carro, que agora poderia ser encurtado. Foi o início da classe Altered — por causa do entre-eixos alterado —, cuja aparência é bem semelhante à dos últimos Gassers e, por esta razão, carros das duas categorias são muito confundidos entre si até hoje.

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Quase imediatamente após a mudança nas regras, iniciou-se entre os competidores a tendência de retornar a suspensão dianteira à altura normal — um entre-eixos curto em um carro alto demais, naturalmente, causava uma perda gigantesca de estabilidade. Foi ali que surgiu o embrião de uma das categorias mais populares da arrancada hoje, os Funny Cars. No início, eles tinham um visual  bem semelhante à dos carros de rua, mas com algumas proporções meio fora de lugar (altura e entre-eixos, principalmente), o que dava a eles uma aparência “engraçada” — dali surgiu o nome. Hoje, eles lembram vagamente modelos de produção.

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Tudo graças àqueles carros de arrancada da década de 50 com eixo rígido de caminhão na dianteira.

Ainda que, desde a década de 70, os Gassers tenham desaparecido das categorias de topo da NHRA, clubes menores nunca deixaram de promover campeonatos regionais, onde os nostálgicos fãs dos Gassers podem vê-los disputando puxadas com motores ainda mais potentes do que no passado. É um deleite para quem curte os primórdios da história do automobilismo dos EUA e, claro, não dispensa a oportunidade de ver carros preparados acelerando.

[ Post sugerido pelo leitor Miguel ]

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