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Heresia ou delícia? Toyota AE86 com V8 LS3 de quase 600 cv!

Uma das coisas que tornam o Toyota AE86 um carro legal é o fato de sua diversão ser inversamente proporcional ao seu tamanho e à sua potência original — para muitos, os 130 cv de seu motor 1.6 eram suficientes, aliados ao câmbio manual, baixo peso e tração traseira. Contudo, tem gente que quer sempre mais — como os caras da Driftworks, que colocaram nada menos do que um V8 LS3 de competição em um AE86!

Por esta vocês não esperavam, não é mesmo? Nem a gente, meus amigos. O projeto foi levado a cabo pela Driftworks para ser “um carro de drift único e competitivo, com pneus enormes e um grande motor aspirado, respeitando o estilo original do AE86”. Phil Morrison e James Robinson, diretores da Driftworks, sabiam muito bem o que tinham em mente. Com bastante planejamento e mão de obra de primeira, eles conseguiram fazer um dos carros de drift mais populares da Europa — goste você ou não da heresia nipoamericana (quantos fãs de JDM não irão lamentar o fato de o 2JZ do Toyota Supra não ter sido utilizado?), um feito admirável.

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A princípio, a ideia seria usar o motor V8 LS1 e o que mais fosse possível do carro da Ascar (versão da Nascar para o Reino Unido), além de realizar alguns upgrades no que fosse necessário no AE86. Como veremos, um projeto desta magnitude sempre traz alguns imprevistos, mas os caras conseguiram contorná-los.

O primeiro passo foi desmontar o carro de corrida e dar uma olhada no que seria aproveitado: motor, câmbio — uma caixa manual dog box de quatro marchas da Jerico —, sistema de lubrificação por cárter seco e eixo rígido. Mas, antes disso, que tal um passeio com o monstro anglo-americano?

Agora, veja o bicho desmontado:

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Era a hora de trabalhar na carroceria do AE86 para aplicar os reforços estruturais — e foram precisos MUITOS deles. Pudera: o AE86 foi feito para suportar 130 cv de um quatro-cilindros de 1,6 litros, e receberia um V8 de corrida. Por esta mesma razão o eixo rígido com diferencial original daria lugar ao do de Ascar, maior, mais largo e mais pesado — a foto abaixo é uma amostra visual da diferença entre os dois componentes. O sistema de suspensão escolhido para a dianteira foi fabricado com peças da própria Driftworks — amortecedores ajustáveis do tipo coilover e bandejas também ajustáveis.

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Assim como o eixo-rígido, vários componentes que o AE86 receberia eram maiores e mais pesados. Sendo assim, recortes nos para-lamas e no túnel da transmissão, além de novos pontos de solda e uma gaiola de proteção foram algumas das modificações realizadas na carroceria. Ao contrário do que se costuma fazer com um carro de competição, o objetivo aqui não era “simplificar e adicionar leveza”, e sim aumentar a resistência e a segurança do carro, sem se preocupar tanto com o ganho de peso.

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Com o carro devidamente reforçado, o motor poderia ocupar seu lugar no cofre — surpreendentemente espaçoso, diga-se. Contudo, após análise mais cuidadosa, o motor LS1 não estava em sua melhor forma e precisaria de muito investimento pra ser retificado. Sendo assim, os caras partiram para um LS3 crate engine — o mesmo do Camaro SS. Com 6,2 litros, o V8 de alumínio entrega 435 cv a 5.900 rpm em sua forma original. Com as modificações feitas pela Dynotorque, oficina contratada pela Driftworks (e que já colocou motores V8 em mais de 30 AE86!) — pistões e bielas forjados, novo comando de válvulas, corpos de borboleta individuais —, a potência chegou a mais de 590 cv a 6.900 rpm.

 

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Para resfriar o conjunto, o radiador vindo de um Nissan 350Z foi reposicionado na traseira, e as entradas e ar foram parar no vigia, feito de Perspex. Um detalhe bacana: o suporte do radiador foi feito usando partes da carroceria do carro de corrida!

Esta foto mostra os detalhes do escapamento feito sob medida. Para que se pudesse manter a altura reduzida em relação ao solo, os tubos receberam abafadores bem compactos da Magnaflow.

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Os encarregados de reduzir a velocidade do carro seriam os freios do Ascar, mas a decisão final foi um conjunto de freios a disco da Nascar, com pinças de seis pistões na dianteira e quatro pistões na traseira.

Com tudo montado, o carro foi colocado no chão. A equipe da Dynatorque aproveitou para fazê-lo funcionar pela primeira vez, e depois o AE86 teve suas dimensões medidas para que se pudesse confeccionar os alargadores de para-lamas em fibra de vidro.

Um dos maiores objetivos neste aspecto foi preservar a identidade visual do Corolla e, ao mesmo tempo, dar a ele uma postura agressiva e imponente. Usando caixas de papelão, foram feitos os blocos de clay que serviriam para se esculpir os moldes. Um trabalho meticuloso garantiu peças que abrigariam as enormes rodas CCW Classic de medidas 17×8 na dianteira e 18×10,5 na traseira, com pneus Toyo Proxes R1R 245/35 e 285/30, respectivamente.

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As peças foram confeccionadas em Kevlar pela Magic Aero, bem como as portas, capô e tampa traseira de fibra de vidro — esta última, decorada por um aerofólio TRD.

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Para a pintura, escolheu-se um tom de laranja bem berrante, arrematado com detalhes pretos — bicolor, como o AE86 original, porém com personalidade própria e bem chamativo, como todo bom carro de drift.

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O interior foi devidamente depenado e equipado apenas com o essencial para a prática das derrapagens controladas: bancos concha Cobra Sebring Pro, painel fabricado sob medida, quadro de instrumentos digital Race Technologies Dash2, volante Nardi edição especial Driftworks e a gaiola de proteção completa. No total, o carro pesa 1.193 kg, distribuídos em ideais 50% sobre cada eixo.

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Aliás, este carro é uma bela mistura de estilos e origens: carroceria e estrutura de um dos mais queridos esportivos de rua já fabricados no Japão, mecânica americana de um carro de corrida que competia em uma categoria europeia, e mão de obra britânica. Haters gonna hate.

O carro ficou pronto há pouco tempo, e a matéria sobre todo o processo saiu ontem no Driftworks. Nela, você pode conferir mais fotos detalhadas e se embrenhar com todos os aspectos técnicos do projeto. Usando de um pouco de tudo, os caras conseguiram fazer um carro que pode te inspirar ou te incomodar — mas que jamais vai passar despercebido.

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