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Car Culture

MetalCrafters: a família que constrói os carros conceito que você vê por aí

Quando você visita um salão de automóveis internacional e um no Brasil, o que primeiro salta aos olhos é que os conceitos lá de fora são modelos que se pode ligar e sair dirigindo. Os daqui são mock-ups, estruturas de fibra de vidro sobre rodas, ou às vezes nem isso. Por que isso acontece? Por custo, mas também porque não temos aqui na região nenhuma empresa com o porte ou o conhecimento da Gaffoglio Family MetalCrafters. Mas quem são os caras?

Juan Carlos Gaffoglio

O argentino Juan Carlos Gaffoglio, nascido em 1935, em Buenos Aires, era um mecânico de mão cheia. Menino, ia à funilaria do tio aprender o ofício e tinha como vizinho ninguém menos do que Juan Manuel Fangio, que sempre precisava de peças novas para seus carros.

Eram os anos do pós-Segunda Guerra Mundial e quem tinha carro, na Argentina, não descolava peças no eBay ou nos desmanches, como os peritos em manutenção de carros difíceis hoje dizem se virar. Era preciso fabricar peças de carroceria. E foi essa a escola de Juan. Já adulto, ele abriu sua própria oficina em Olavarría, cidade da província de Buenos Aires, onde trabalhou por cerca de 15 anos. Em 1965, aos 30 anos, ele se mudou para a Califórnia, de onde voltou em 1968.

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Trazia na bagagem ferramentas avançadas, do tipo que não se fabricava em seu país, e abriu a melhor funilaria do país, em Buenos Aires. Ganhou uma boa grana até 1973, quando Juan Domingo Perón iniciou seu terceiro mandato presidencial. A situação econômica degringolou e Gaffoglio decidiu voltar para a California com seus três filhos maiores, George, Ruben e Marcelo, deixando a oficina para trás. Nela, Juan e um primo, seu sócio, já fabricavam carrocerias em pequena escala.

Nos EUA, Juan virou John e pastou um bocado até achar seu rumo. Ele e os dois filhos maiores trabalharam por vários anos em concessionárias e funilarias, mas não paravam muito em lugar nenhum. Primeiro, porque a grana era pouca (US$ 18.000 anuais, ou US$ 1.500 por mês). Segundo, porque Gaffoglio dizia que ele e os filhos trabalhavam de um modo muito diferente do americano. E foi essa a sorte do trio.

Em 1979, Gaffoglio se encheu de novo, desta vez de ser empregado, e abriu sua própria oficina, em Santa Ana. Ela ficou conhecida pela habilidade dele e também por transformar a Ferrari Daytona em modelos Spyder. Também faziam consertos primorosos em supercarros. Foi logo no primeiro ano de funcionamento que o destino sorriu para o empreendimento.

A Chrysler lutava para se manter de pé. Enquanto negociava com o governo dos EUA um empréstimo para continuar funcionando, Lee Iacocca, recém chegado da Ford, decidiu fabricar um protótipo para injetar vida nova na empresa. Com o sindicato em pé de guerra, Iacocca pediu a um assistente seu para viajar até a Itália para conseguir construir o veículo. Mas o assistente nem chegou a pegar o voo para Roma.

Em uma escala em Nova York, vindo de Detroit, o tal assistente ligou para um sobrinho na Califórnia e ficou sabendo que ali já tinha um cara capaz de construir um carro inteiro. Bastava que ele tivesse as ferramentas necessárias para isso. O cara era Juan “John” Gaffoglio, cuja oficina o sobrinho do assistente costumava frequentar. Em vez de ir pra Roma, o assistente foi pra Califórnia.

Às 23h daquele mesmo dia, ele bateu nos portões da família Gaffoglio, para conversar pessoalmente com o patriarca. Uma semana depois, Juan viajou a Detroit e recebeu a proposta de trabalhar em um galpão alugado, secreto, para tocar o projeto. O Imperial ficou pronto em 28 dias. Juan e George trabalharam dia e noite no conceito e, no fim, receberam US$ 20 mil pelo trabalho. Ali começou a Gaffoglio Family. O nome MetalCrafters, algo como artesãos do metal, viria depois, a conselho de Lee Iacocca. Para o experiente executivo, Gaffoglio Family soava a coisa de mafioso. Juan, humilde, acatou o conselho. E a Metalcrafters constrói todos os protótipos da Chrysler desde então.

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O Chrysler ME é obra da famiglia 

Dodge Viper, Plymouth Prowler e todos os outros carros que ilustram essa reportagem são obra deles. A Chrysler, agora parte do grupo FCA, é o principal cliente dos MetalCrafters, mas eles trabalham também para outras empresas, como Audi, Mercedes-Benz, BMW, GM, Ford, Hyundai, Kia, Proton, Mazda, Isuzu e Nissan. A empresa já construiu mais de 500 carros conceito. São cerca de 15 por ano, a um custo médio de US$ 2 milhão cada um.

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O Mustang comemorativo de Lee Iacocca, aliás, foi fabricado pelos MetalCrafters.

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Segundo o filho mais velho de Juan, George, a empresa não é de designers, mas sim de construtores. Assim, quando surge algum desenho de carro-conceito, a MetalCrafters ajuda a empresa a concretizá-lo e quebra a cabeça para achar soluções elegantes, especialmente para modelos conversíveis.

E fazem isso apenas com o desenho feito pelos designers, muitas vezes apenas um esboço do que deve ser feito. Foi a eles que a Mercedes-Benz recorreu para materializar o AMG Vision Gran Turismo que estrela o jogo Gran Turismo 6, apresentado no Salão de Los Angeles de 2013

Engraçado é que, pelo vídeo, parece que a Mercedes-Benz foi quem teve todo o trabalho para transformar o sonho em realidade. Foi não… tem dedo dos MetalCrafters no conceito. Foram eles que o botaram para rodar.

A MetalCrafters hoje está em Fountain Valley, na Califórnia, e conta com uma estrutura de meter inveja em muito fabricante. Cerca de 180 funcionários, a maior parte deles treinado pelos próprios Gaffoglio, operam uma prensa de 1.800 toneladas e US$ 1,6 milhão, uma máquina de fresagem computadorizada de US$ 1,5 milhão, scanners digitais a laser, equipamentos de corte a laser de componentes de vidro, aço, alumínio e borracha e uma série de outras maravilhas.

Há dois turnos de trabalho para atender a todas as encomendas em três prédios de segurança máxima com pouco mais de 14.800 m². Mais de 120 câmeras vigiam o ambiente, por dentro e por fora, 24 horas por dia. Tudo para garantir o sigilo dos projetos. E para pegar o povo no flagra, como um filho de Juan que jurava que não fumava mais e que o pai filmou pitando nas horas vagas.

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Segundo os Gaffoglio, a construção de um conceito involve 800 passos, cada um com cerca de 10 subprocessos, o que dá um total de 8.000 etapas para cada automóvel. A MetalCrafter pode tocar dez projetos ao mesmo tempo.

Todas as etapas são listadas em planilhas gigantescas. Os empregados, ao final de cada dia, registram o que já foi realizado a fim de organizar o andamento e estabelecer as prioridades. É o método que dá aos MetalCrafters sua maior vantagem competitiva, além da qualidade: a velocidade de execução.

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Todos os carros fabricados pela empresa aguentam o tranco. Podem ser levados à velocidade máxima, testados em circuitos e servem até para realização de crash tests.

Mas a empresa foi criando novas fontes de renda. Como não usa policarbonato, mas sim vidro de verdade em seus conceitos, a MetalCrafters fabrica os vidros. Hoje, ela fornece para projetos arquitetônicos e vidros especiais para aviões. Também virou fornecedora de peças de reposição e de acessórios para veículos como o Viper e fabrica carrocerias de CFRP para carros de competição.

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Uma das empreitadas da empresa foi uma parceria com o designer Chip Foose para fabricar o Hemisfear, um cupê de produção limitada a 50 unidades que foi vendido a US$ 300 mil cada um. Ela também quase ajudou a trazer a marca Duesemberg de volta à vida e quase se estabeleceu no Brasil.

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Outra parceria constante é com a Galpin, que já rendeu a criação do Ford GTR1, uma versão personalizada do Ford GT de 2005, mas com 1.038 cv e 102,2 mkgf por meio de seu motor 5.4 V8 biturbo. O carro tem produção limitada a 24 unidades.

O produto mais recente da parceria foi o Rocket, um Mustang 2015 modificado pelo designer Henrik Fisker, com carroceria de CFRP feita pela MetalCrafter, agora também artesão de fibra de carbono. O modelo será vendido também em baixa escala.

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Existem também os casos curiosos, como modelos feito sob medida para os superricos. A MetalCrafters, por exemplo, criou um Lamborghini Gallardo com 12 polegadas (30 cm) a mais de entre-eixos para que o jogador de basquete Shaquille O’Neal, de 2,16 m, coubesse dentro dele. Ficamos curiosos para imaginar se a adaptação permitiu que ele usasse os pedais do carro com seus sapatos número 51…

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Também fez cerca de dez carros com mecânica Bentley para o Sultão de Brunei, que o pessoal do Autoblog Argentina mostrou em um post de 2009.

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Não há muito limite para o que os MetalCrafters podem construir. Além dos carros, eles também já construíram ônibus, como o New Era.

Ou aviões, como o Piper Jet.

Além dos carros conceito, ônibus, aviões, vidros e peças de reposição, a MetalCrafters também faz veículos para filmes, como os Mercedes-Benz ML usados no filme O Mundo Perdido – Jurassic Park, de 1997. O ML foi lançado em fevereiro. O filme, em maio daquele ano, mas as filmagens ocorreram a partir de setembro de 1996. O BMW i8 dirigido por Tom Cruise em Missão Impossível 4 saiu das oficinas da empresa.

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Os negócios com o cinema renderam mais um braço de negócios, a Camera Ready Cars, que cria carros de filmagem para todo tipo de necessidade.

Fiat 500 JLo

Com a família bem encaminhada nos EUA e os negócios indo de vento em popa, Juan se encheu de trabalhar. Aposentado, voltou para a Argentina e vive hoje em Balcarce, cidade onde fica o Museo Fangio. Uma forma de voltar à velha vizinhança, ainda que Fangio não esteja mais aqui fisicamente.

Tentei de tudo que foi jeito falar com George, Juan, Ruben ou quem quisesse responder a outras perguntas que eu tinha e que a pesquisa que resultou neste post não ajudou a sanar. Não tive resposta deles. Um dia eu trombo os Gaffoglio por aí, possivelmente em algum salão cujas estrelas eles tenham criado, e converso com os caras para fazer uma outra reportagem, mais completa, sobre o trabalho sensacional que eles desenvolvem.

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Voltando ao Juan e a Balcarce, por lá ele também é membro da Fundación Juan Manuel Fangio e doou, para o Museo Fangio, um de seus primeiros protótipos, a Dodge Rampage, que seria fabricada em série e vendida com sucesso nos EUA. Rampage é o nome que a nova picape média da Fiat, o projeto 226, deve receber quando for vendida nos EUA sob a marca RAM. Uma demonstração de carinho ao velho cliente. E de gratidão por uma vida de tirar o chapéu. Tomara que Juan não se encha dela por muitos anos.

 

 

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