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Project Cars Project Cars #472

Modo soviético: a restauração do meu Lada Samara 1990, o Project Cars #472

Olá, amigos e leitores do Flatout! Me chamo Adenilson Oliveira, sou natural de Salvador/BA, mas hoje moro em Itabuna/BA. Irei contar a história do meu Lada Samara e como começou essa paixão por carros.

Digo que começou em 1993, com seis anos de idade por causa dos… ônibus! Sim, isso mesmo. Pode soar meio louco, mas meu contato gearhead foi por eles. Acabei que também curto os coletivos. O que você me perguntar sobre ônibus de 1994 em diante te respondo. Chassis, marcas, carrocerias, motores etc. Mas de carro mesmo, acredito eu, foi entre 1997 e 1998. Nessa época, moleque de 11 anos, brincava na rua de boa (coisas que ainda eram possíveis em Salvador), e tinha um vizinho que herdara um Chevette do pai. Era dourado, com as calotinhas originais cromadas e tudo mais. Ano 1979, ao que me lembro.

Enquanto meus amigos batiam o bába (aquele futebol de rua, como falamos aqui na Bahia), eu ficava lá o ajudando. Lembro-me de mainha chiando “vá jogar bola”, mas adorava aquilo, de ficar vendo esse vizinho consertar o carro.

Painho nunca teve carro, mainha idem, ambos nem dirigir sabem. Vivíamos andando de ônibus Salvador toda. Eu adorava dar rolé quando adolescente, rodar meia cidade só pra passear mesmo (e curtir o buzu). Carro na família só veio em 2007 por minha irmã, um Gol 1.0 16V Plus 2001/2001 preto, no qual apelidei de “bixinho” (infelizmente não tenho fotos). Dava altas rasgadas nele (rasgada aqui é esticar as marcas), sob os protestos da mesma. Infelizmente esse carro bateu num poste (minha irmã sobreviveu, mas o carro não) e deram PT.

Um ano depois, em 2008, comprei um Gol G5 1.0, bem na semana de lançamento (final de junho de 2008), modelo 08/09. Hoje ele tem 160.000 km e foi apelidado de GolBus. Este carro está comigo desde então.

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E o Samara? Como começou? Da mesma forma dos buzus, foi algo inusitado. O gosto pelo Samara e pela Lada deu-se em 2004, na época do colégio. E uma matéria que amo de paixão é história. No terceiro ano do segundo grau (hj ensino médio), dava assuntos de Revolução Industrial, Primeira Guerra, Segunda Guerra, e esses assuntos sou apaixonado.

Felizmente o colégio que estudava tinha sala de informática, era uma novidade total na época. Tempos de Bate-Papo UOL, Zipmail, Hotmail que travava toda hora e tudo mais (as galeras das antigas vão lembrar disso). Pesquisando, achei os carros da Lada. E descobri que ambos foram vendidos aqui no Brasil entre 1990 e 1995. Não me perguntem como, mas acabei me apaixonando. Olhei o Laika, o Niva e vi o Samara, foi o que mais me agradou.

Eu dizia sempre: “Ainda compro um Lada”. Dizem que a Lei da Atração funciona. Foi só pensar em querer ter um Lada, qualquer que fosse, os carros simplesmente brotavam. Qualquer lugar de Salvador que eu fosse,tinha algum Lada (isso em 2004!). Vi Laikas detonados, acabados, Nivas idem (vi um branco, rasgando o motor numa rua) e os Samara. Esses mesmo foram os que mais apareciam. Lembro-me que vi quatro (três vermelhos e um branco quatro portas). Desses, tinha um vermelho duas-portas, meio surrado e com a lendária escada no teto (em 2004!), rodando a Cidade Baixa (pra quem é de fora, Salvador é dividida em Cidade Alta e Cidade Baixa). Via esse Samara próximo a Praia da Ribeira, com a escada no teto (já vi hoje em dia JAC J3 com escada no teto. Em Salvador tal veículo tem boa aceitação e reputação). Terminou o ano, veio 2005, virei funcionário público e deixei de lado um pouco isso e toquei a vida.

Porém  nada é por acaso e não precisa ter razão. Em 2011, já com o GolBus, passo num posto da PRF, na entrada de Simões Filho/BA, na BR-324, vejo um Samara apreendido. Fazia anos que tinha visto um. Depois sumiram com o tempo.

No interior, batia perna na BR-415, que liga Ilhéus a Vitória da Conquista, passo por Ibicaraí, a 26 km de Itabuna, e vejo um carro vermelho que não me era estranho. Encosto o carro, e é um Samara (VÉI, É UM SAMARA, BICHO!!!). Esse tirei fotos, descobri que o motor tinha fervido e que iriam retificar o cabeçote. Tempos depois, esse mesmo carro parou em Itabuna, mas teve um fim triste. Como era sucata (o número do chassi fora removido), acabou desmanchado. Quase compraria, até saber disso.

Olhava na internet os anúncios de Samara, todos fora da Bahia. O problema nem era comprar e sim trazer. Devido à distância o frete fica caro. Tava até desanimado, achando que era algo distante, até que meu cunhado, andando num bairro daqui, me disse que viu um Samara. Não acreditei muito, pois os Ladas aqui na Bahia são raríssimos, mesmo o Niva. Como a Bahia é um estado grande (de Barreiras a Ilhéus dá facinho mais de 1.000 km). A maioria está escondida pelos rincões, ou virou sucata, e os poucos sobreviventes estão em mau estado.

Enfim, não acreditei no que ele disse até me levar. Quando o vi, caí de costas e pensei: “P8rra, um Samara aqui!?”. Procurei saber acerca, fui ao banco pegar dinheiro pra comprar. E a compra foi um imbróglio sem precedentes.

O *&#$ que me vendeu o carro tinha me falado que onde o mesmo estava anteriormente, tinham tirado o motor, pra reparos. Acreditei e acabei comprando, mas o besta aqui comeu o H do cara (comer H é o mesmo que cair no conto). Eis que chego, cadê o motor? Aí foi chiada. Não queria devolver o dinheiro, exigi o valor do motor e tudo mais. Acabei que deixei pra lá.

 

Quanto ao motor, muitos perguntam pra mim: “Por que não coloca um motor CHT/AP”? Aí digo que quero original, que o custo de adaptação sairá o valor do carro, pois aqui é mais difícil fazer tal serviço e não queria de jeito nenhum. Fora que aqui acho mais facilmente CHT do que AP (o mesmo não acha com facilidade como em SP desde 2011!). Ou seja: motor AP aqui na Bahia é mais raro que um Lada!

Comprei o carro escondido da esposa, quando ela soube, virou uma fera. Oxe, falei que iria me separar que casar foi a pior coisa. Ela chorou, mas acabou tendo de aceitar.

Enfim, o Samara é 1.3 1990/1991, azul, quatro portas. Apelidei-o de Samarina, devido a uma música do cantor Edson Gomes (o Rei do Reggae aqui na Bahia), chamada Samarina, cujo trecho dela é assim: “Samarina linda meu amor/Samarina, ô Samarina/Onde quer que você vá/Eu vou” (pesquisem no Youtube). Aqui é coisa normal galera ouvir reggae.

Comprei-o em julho de 2015. O carro ficou um tempo parado, mas pude dissecá-lo (leia-se desmontar). Pensem em um carro simples. Fiz os cuidados necessários enquanto o mesmo estava inoperante, sem o motor. Limpei as lanternas, reapertei parafusos, troquei relês e ainda comprei dois cilindros de roda traseiros (os mesmos do Uno Deus das Estradas), que veio sem, custando a fortuna de 20 temers cada um, foi só montar.

No dia que trouxe pra casa, foi hilário. Chamei um vizinho, peguei um cambão amarramos na Pampa e viemos para casa. Enchi os pneus. Suspensão não batia nada, a despeito de o carro ter 26 anos e aqui, apesar de ser uma cidade grande (quinta maior da Bahia, 223.000 habitantes, segundo o IBGE), ter muitas ruas ainda de terra batida. O velocímetro funciona perfeitamente.

Durante o processo de conhecimento do carro, percebi coisas simples, mas que já vinham de série nele que num popular 0 km hj é opcional ainda. Observei que no painel de instrumentos do Samara, para a época, ele é bem completo. Além das luzes tradicionais comuns a vários carros, ele vem com econômetro e voltímetro. Os cintos de segurança traseiros são retráteis de série, coisa que no meu Gol G5 eram opcionais.  Num carro feito na Rússia de 1990 isso soa como um tapa na cara.

Ele tem regulagem interna dos faróis (o Samara) por uma chave seletora, dimmer (que regula a intensidade da iluminação do painel), limpador traseiro de série, com desembaçador, ar quente (que no meu tá isolado), mas que pra mim não tem serventia alguma aqui na Bahia, estado quente. Regulei os trilhos dos bancos, lubrifiquei fechaduras, entre outros.

Enquanto ainda não comprei o motor, e esperando cair o dinheiro de indenização por danos morais contra o plano de saúde (contarei na parte 2 em detalhes), fui focando em coisas miúdas, que numa reativação/restauração, é tão importante quanto a mecânica em si.


Ao que é sabido, os plásticos do Samara são relativamente frágeis, pois no ano que o meu foi fabricado, na antiga URSS, que ruiu em 1991, a Lada fabricava meio que TUDO do carro. Não é como hoje, que os assentos eram feitos por empresa X, painel de instrumentos por empresa Y e por ai vai. Nessa dissecação dele, poucas coisas que eram fornecidas de fora. Os vidros mesmo são fabricados na Suécia, as lentes dos faróis eram feitos na Tchecoslováquia (atual República Tcheca, terra da Skoda, e da Eslováquia). Hj a Lada faz como as demais fabricantes, as peças são feitas por fornecedores diferentes, fora que a Autovaz pertence a Renault hoje em dia.

Hoje o estado atual dele é esse:

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Mas enfim, fui comprando as miudezas, conforme em fotos. Todos esses itens foi comprado no Ebay, Ladaway, aliexpress e Mercado Livre. Chegaram, sem problema algum, de cobrança de impostos, apenas a conhecida demora dos Correios, pra quem tem hábito de importar as peças/acessórios.

No próximo capítulo dessa novela russo-brasileira, misturada com vodka, dendê e cacau, contarei a saga da compra do motor original, remontagem e o início da operação do mesmo, rodando pelas suas próprias rodas.

Abraços e luz na vida de vocês! Пака, пака, спасибо.

Por Adenilson Oliveira, Project Cars #472

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