Originalmente “limbo” não significa um lugar onde ficam as coisas esquecidas. O conceito surgiu na teologia católica medieval para designar um estado intermediário para almas que não mereciam o inferno, mas não podiam entrar no Céu por falta de batismo. Era um lugar de indefinição, diferente do purgatório.
Até pouco tempo atrás, o mercado de carros usados — no Brasil e no mundo — tinha seu limbo e seu purgatório. O limbo é onde ficavam os carros pouco queridos, não tão bons, mas que também não mereciam o inferno do esquecimento. Ali você encontraria um simpático Corcel II LDO, ou um Monza SL/E 1984, dos primeiros, com motor 1.8. O purgatório, é onde se encontravam os carros que tinham potencial, mas que precisavam ser purificad… digo, restaurados.
Mas em algum momento desta década esses dois lugares começaram a desaparecer. Não por esvaziamento, mas pela nova liturgia da cultura automotiva. Clássicos e esportivos sempre foram consagrados e tiveram seus devotos. Por isso, eles nunca foram baratos e sempre atraíram colecionadores e especuladores.
O problema foi a veneração dos carros comuns.
Aquele velho 4×4 relegado, que você queria para curtir no sítio, aquele cupê bonito, mas com um motor que não empolgava muito. Ou mesmo aquele carro careta, mas com um belo motor, ou ainda um hatch básico com potencial de preparação. De repente, esses carros deixaram de ser simples carros e viraram algo a mais. Um símbolo, um investimento. Um ponto de partida para algo além do carro como um objeto pessoal. Foi nesse momento, que ele já não precisava mais estar bom para ser valorizado. Basta estar no radar. Basta “ter potencial”. Basta caber numa narrativa.
O resultado disso é que o mercado de usados, antigos e velhinhos está ficando mais caro. Não por que os carros estão melhores, mas pela ressignificação do carro comum. O carro velho transformado em ativo, em troféu, em símbolo social. Você quer o carro por causa do que ele proporciona, mas o preço que você terá de pagar, é o preço desse carro como símbolo social, ou do potencial que o mercado atribui a ele — ainda que irreal.

Aqui, você deve estar pensando que esta é a lógica de qualquer mercado escasso — como o mercado de clássicos. Pode ficar confortável, porque isso é verdade. A diferença agora é que essa lógica está se estendendo além dos clássicos, colecionáveis, esportivos ou símbolos de uma época. Estou falando de carros mundanos. Carros comuns como um Toyota Corolla 1995, um Peugeot 205 1.4, um Fiesta Sport 2001, ou um Santana Exclusiv 1999. Carros que foram feitos aos montes, que não têm as qualidades tipicamente desejáveis em clássicos, mas que já estão precificados como se fossem. Antes mesmo do público desejá-los — ou seja, antes de haver demanda — carros como estes já estão “pegando preço”.
Talvez a explicação esteja na própria realidade. O carro atual já não atrai o público como os carros novos de 15 anos atrás. Não por ser “pior”— os carros nunca foram tão potentes, econômicos, seguros e confortáveis —, mas talvez justamente por serem tão bons. Não que o público queira um carro que traz dores-de-cabeça, mas tudo o que tornou os carros atuais tão bons, foi também o que fez deles todos iguais. E isso não é uma crítica ao design — embora ele esteja incluído nela.
O carro moderno não tem mais humanidade. Ele não nasce naturalmente. Ele vem condicionado por uma série de normas legais que definem como ele será. É o melhor carro que as normas e leis permitem que ele seja, e não o melhor carro que ele poderia ser. As regras rígidas têm esse efeito de deixar tudo muito igual. Já viu um exército? Não são todos iguais?
Quando tudo é igual, a individualidade se perde. Seu carro deixa de ser a sua cara. Você já não escolhe um carro porque ele combina com o seu gosto; você escolhe entre variações do mesmo pacote, calibradas para cumprir as mesmas exigências e agradar o mesmo consenso. O resultado é que o carro deixa de te representar e passa a apenas te atender: ele faz tudo certo, mas não diz nada sobre você. E, quando o objeto perde sua singularidade, o dono também perde a possibilidade de se expressar por meio dele — não porque precisa “se afirmar”, mas por que parte do prazer da escolha está justamente em reconhecer afinidades, preferências e desvios do padrão. Sem isso, sobra conveniência. E conveniência, sozinha, raramente vira paixão.
Agora some isso a outro fator da realidade atual: os carros estão ficando mais caros no mundo todo. Não foi só o Brasil que viu seus carros de entrada dobrarem de preço nos últimos cinco anos. O preço médio dos carros subiu em praticamente todo o mundo — ao menos nas partes do mundo em que o carro precisa ser tudo ao mesmo tempo por força de normas e leis. O que está acontecendo, na prática? Você precisa pagar mais caro por um carro que nem gosta tanto assim.
Mas você precisa de um carro. E aí você começa a olhar para trás. Para cinco anos atrás, talvez dez. Quem sabe 15 ou até mais, se você não usa o carro diariamente. De repente, a ideia de ter um carro mais antigo começa a ocupar sua mente. Então você começa a procurar aqueles carros comuns que achava legal — afinal, eles devem estar mais baratos depois de tanto tempo — e, meia-dúzia de cliques depois, descobre que eles também estão inflacionados.
Eles deixaram de ser carros comuns e se tornaram objetos de veneração. Não por serem clássicos, nem por serem colecionáveis ou por terem potencial no futuro. Apenas por que têm algo que o carro comum de hoje não consegue mais ter: personalidade.

E aí, o que acontece quando o carro deixa de ser “um velho legal” e vira “um velho valioso”, ele para de descer. Ele fica preso no degrau de cima. Não necessariamente na mão de especuladores — às vezes ele fica preso na mão de alguém perfeitamente normal, que só foi contaminado pela lógica de que aquilo não é mais só um carro e sim um patrimônio ou relíquia. O preço sobe e menos gente tem acesso ao carro. Aquele sujeito que estaria hoje descobrindo prazer em um hatch velho, um cupê barato, um 4×4 cansado, simplesmente não encontra mais uma compra que faça sentido. Não porque ele seja pão-duro, mas porque o carro irá consumir todo o orçamento dele. Antes, um carro “pra fazer”, custava quase nada. Hoje ele tem valor porque é “restaurável” ou “tem potencial de valorização futura”.
E essa não é a pior consequência desta veneração do carro comum. Esse comportamento muda o jeito de gostar de carro. O preço sobe, o carro deixa de ser um objeto de experimentação e passa a ser um objeto de validação. Você até pode comprar o carro, mas vai dirigir menos para não desgastar. Vai mexer menos para não desvalorizar. E aí o carro vira um quadro tridimensional na sua garagem. O hobby deixa de ser o uso e passa ser a posse, como acontece no mercado da arte ou das guitarras antigas. O carro começa a sair do mundo real. Ele vai para a garagem. Vai para o evento. Vai para o feed. Vai para a vitrine, mas não vai para a estrada, para as ruas, para as pistas.
É por isso que a discussão não é só sobre a subida dos preços, mas sobre o tipo de cultura que sobrevive quando o passado vira o único lugar onde ainda existe diferença, e quando essa diferença passa a ser negociada como raridade. Se a tendência continuar, as próximas gerações não vão ser apenas expulsas do mercado. Elas serão expulsas da cultura. Elas vão conhecer o carro legal como imagem, não como algo que elas poderão dirigir um dia — mesmo que seja um simples Polo GT 2011.

A ironia é que esse fenômeno não surgiu da má-fé. Ele aconteceu simplesmente por que todo mundo acha que está sendo sensato: o vendedor olha para o mercado e pensa que está na média. O comprador olha para o mercado e pensa que está se rebelando contra as fabricantes e seus preços e seus carros novos. No meio disso, o carro novo vira uma ferramenta cara, e o carro antigo um hobby que não justifica o preço para a maioria. A sensação agora tem um preço. Ela própria vira um ativo de mercado.
É por isso também que não dá pra culpar só a nostalgia. O Juliano não viveu os anos 1960 para querer um Alfa Giulia GTV. Eu nasci em 1984, mas sempre sonhei com uma Dino 246 GT (até o dia em que descobri que ela não comporta alguém de 1,85m). Não se trata apenas da lembrança do passado, mas de uma reação ao presente. Se o mercado fosse um paciente, ele certamente seria diagnosticado com depressão: não consegue viver o presente e, por isso, se volta excessivamente para o passado.
E essa depressão só irá se curar quando a gente parar de tratar valor financeiro como valor cultural. O mercado é o termômetro do desejo e do dinheiro, duas coisas que se contaminam. Porque, no fim das contas, hobbies sempre foram um lugar livre e tranquilo, onde você pode querer e fazer coisas sem precisar se justificar. E quando você se vê explicando por que um carro velho “vale”, você já começou a perder o jogo. E é exatamente essa perda — mais do que o preço — que deveria incomodar.
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