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Pensatas

O fim do petróleo pode não ser como você imaginava… e acontecerá daqui a 85 anos

Quando escrevemos sobre o mundo distópico que se aproxima para quem ama o cheiro de gasolina, a ideia era que a reportagem morresse em si mesma. Mas uma notícia recente trouxe de volta a certeza de que a realidade mudará bastante em um prazo historicamente curto. A reunião do G7, grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo, que ocorreu em Garmisch-Partenkirchen, na Baviera, Alemanha, teve como resultado a intenção de banir o uso de todo e qualquer combustível fóssil até 2100. É isso mesmo: nada de gasolina, diesel, querosene ou carvão até o final deste século nos países mais industrializados do mundo. O fim do petróleo não será por esgotamento dos recursos, pelo visto, mas por desistência de utilizá-lo.

A dica sobre a notícia veio do leitor Gustavo ATS (valeu a dica, xará!). Ainda que a decisão precise começar a ser implementada, há grandes chances de que isso ocorra ainda este ano, na COP-21, uma conferência climática da ONU que será realizada em Paris nos dias 7 e 8 de dezembro. Um acordo por lá pode ser o começo do fim para o petróleo e seus derivados, mas também para as minas de carvão. Energia nuclear, em teoria, estaria livre de restrições, só que o documento deu a entender que haverá uma busca por fontes de energia renováveis e limpas, algo que a nuclear não é, exatamente.

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Merrcedas só elétrrica? Deal with it, Angie

Um mundo sem petróleo em tão pouco tempo pode parecer loucura, mas um estudo recente do pesquisador Mark Z. Jacobson, da Universidade Stanford, divulgado pelo site “I Fucking Love Science!“, mostra que os EUA poderiam se ver livres não só dos combustíveis fósseis, mas também de energia nuclear, em apenas 35 anos, ou seja, até 2050. Isso daria ao país 50 anos de lambuja para chegar à meta estabelecida pelo G7.

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O tal estudo acabou se transformando em projeto, chamado The Solutions Project, e ele lista, Estado por Estado, o que deve ser feito para mudar a matriz energética. No Texas, por exemplo, 63,9% da energia viria de fonte eólica, com geradores em terra e no mar, 35,3% de fonte solar e o restante de hidrelétricas, de fonte geotérmica e até do movimento do mar.

Com os ganhos de eficiência de equipamentos elétricos, incluindo os carros, o consumo de energia cairia em 40%. Seriam criados mais de 500 mil empregos, haveria uma economia de US$ 54,2 bilhões em custos de saúde, pela eliminação de causas de doenças respiratórias, e o custo da energia elétrica cairia para US$ 0,087 por kWh, em vez dos atuais US$ 0,107.

O site chega ao extremo de dizer quanto cada texano economizaria por ano com a mudança. Só em energia, seriam US$ 384 a menos. Contando custos com despesas médias e outras coisas, a economia anual chegaria a US$ 11.923. Por pessoa. Em uma casa com quatro pessoas, seriam US$ 47.692 a mais no bolso. Não parece muito? Só em Wyoming, a economia anual, por pessoa, seria de US$ 77.783!

Os países mais resistentes à mudança eram o Canadá e o Japão, ambos bastante dependentes dos combustíveis fósseis, mas eles não colocaram restrição à meta, algo que é considerado uma vitória pessoal de Angela Merkel, chanceler da Alemanha, tratada agora como uma heroína do clima.

Isso significa necessariamente o fim dos motores a combustão? Não necessariamente, pois restrição é apenas aos combustíveis fósseis. Se ele for renovável, como etanol, metanol ou mesmo os novos combustíveis extraídos do ar pela Audi, como a e-benzin e o e-diesel. A questão é não aumentar a quantidade de gás carbônico na atmosfera.

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Isso é apontado como o maior responsável pelo agravamento do efeito estufa, um fenômeno natural que conserva a temperatura do planeta em níveis propícios à vida. O objetivo dos países do G7 é coibir as emissões do gás em no mínimo 40% até 2050. No melhor dos mundos, em 70%. Com isso, eles querem que o aumento da temperatura global não ultrapasse os 2ºC  em relação às temperaturas globais nas eras pré-industriais.

Pela questão da eficiência energética, é bem possível que o motor a combustão seja aposentado dentro deste intervalo, mas os esforços da Audi na obtenção de um combustível alternativo mostram que os fabricantes não pretendem abandonar a fórmula tão fácil. Da forma como são produzidos, os combustíveis sintéticos da marca alemã são uma outra forma de armazenamento de energia, ainda mais eficiente do que a da maior parte das baterias. E mais limpa, se pensarmos nos resíduos que as baterias podem deixar.

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As grandes petroleiras estão de olho no movimento. A Shell, por exemplo, tem participação na Cosan, a maior produtora de etanol para combustível do mundo. A BP, sigla de British Petroleum, mudou de nome em 2001 para “Beyond Petroleum”, ou além do petróleo, e se define hoje como uma “empresa de energia”.

Como a produção de etanol a partir de cana de açúcar ou mesmo de milho não parece capaz de suprir a demanda mundial por combustível, já se estuda há anos uma forma de produzi-lo a partir de biomassa, com a quebra das moléculas de celulose por enzimas. Mas esse ainda é um processo caro, especialmente depois que a demanda por petróleo dimiuiu, fazendo o preço do barril Brent cair de mais de US$ 100 para cerca de US$ 40 e ficar, atualmente, na casa dos US$ 60.

Tudo isso só confirma uma das frases mais famosas do engenheiro, filósofo e transcendentalista Richard Buckminster Fuller, que certa vez disse: “Você nunca muda as coisas combatendo a realidade existente. Para mudar algo, crie um novo modelo que torne o atual obsoleto”. Também é dele a frase “A melhor maneira de prever o futuro é desenhá-lo”. E ele está sendo desenhado sem combustíveis fósseis. Melhor irmos nos acostumando com isso.

 

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