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Car Culture

Os carros mais caros leiloados em 2025

FlatOuter que se preza sabe que temos duas matérias tradicionais em todo início de ano: a lista dos carros que completam 30 anos e agora podem ser importados, e a lista dos carros mais caros leiloados no ano passado. Os “novos-clássicos” você já viu aqui. Agora, é hora de dar uma olhada em como foram os recordistas nos leilões de 2025.

A lista deste ano está dominada pela Ferrari, como sempre. Ela ocupa metade da lista mas desta vez ela não está no topo. A lista também confirma duas previsões que fizemos no início de 2024: a de que carros de Fórmula 1 modernos seriam cada vez mais frequentes por aqui, e que os hipercarros também passariam a figurar nestas listas. O que eu não previa era que os hipercarros fossem tão novos como foram neste ano: dois deles foram fabricados em 2025 (!) — o que diz muito sobre o estado atual das coisas na indústria, mesmo entre os hipercarros.

Mas chega de enrolação e vamos à lista:

10º Ferrari F40 LM GTC Michelotto – US$ 11.005.000

Uma F40 LM por si é algo suficiente para gerar disputas acirradas em qualquer leilão. Afinal, há apenas 19 delas por aí e não é sempre que um dos 19 proprietários está disposto a vendê-la. Mas neste caso, repare que ela tem a sigla GTC depois de LM e é isso que a colocou nesta lista.

GTC aqui tem o significado clássico da sigla  — Gran Turismo Competizione —, ou seja: uma derivação para as pistas. A RM Sotheby’s divulgou como uma especificação para o “campeonato europeu de GT da FIA”, mas esta era uma nomenclatura interna da Michelotto, que estava desenvolvendo o pacote para o regulamento que, mais tarde, daria origem ao GT1 do BPR Global GT.

O pacote era um upgrade baseado na configuração da Michelotto das F40 LM para a IMSA, que já elevava a potência para 720 cv, e consistia de turbos maiores, intercoolers mais eficientes, nenhuma restrição na admissão, mas ainda mantendo a cilindrada original de 2,9 litros. O resultado eram 760 cv — o que faz dessa configuração a mais potente de todas as F40. Como se não bastasse, a Michelotto fez apenas três carros com esta configuração.

O carro foi vendido originalmente a um colecionador suíço que, sem campeonatos para correr na época, a usou somente em eventos privados de pista e a expôs em encontros e exibições pela Europa. Em 2002 ele vendeu o carro a outro colecionador suíço, recomprou o carro em 2007 e, no mesmo ano, o revendeu a um entusiasta alemão que usou o carro nos desafios de clássicos da Ferrari/Maserati. Em 2009 o carro foi certificado pela Ferrari Classiche, quando se descobriu que ela tinha rodas trocadas por modelos mais estreitos, porém de maior diâmetro.

Em 2014 o carro foi restaurado pela Michelotto e, no ano seguinte, foi vendido a um investidor americano de Las Vegas. Nos últimos dez anos, o carro ainda trocou de mãos três vezes e finalmente foi leiloado pela RM Sotheby’s em agosto, durante a Monterey Car Week por US$ 11.005.000 — praticamente o dobro da última F40 LM leiloada, o que faz dela a Ferrari F40 mais cara já negociada publicamente.


McLaren Formula 1 Team MCL40A 2026 – US$ 11.480.000

Não, não é um erro de digitação: um dos carros que a McLaren irá usar nesta temporada de 2026 da Fórmula 1 já foi vendido. O leilão foi uma sacada de mestre da McLaren, que embolsou US$ 11.480.000 ainda durante o desenvolvimento do carro. O comprador levará o carro completo, com um motor e câmbio e terá acesso à fábrica da McLaren, além do acesso aos camarotes da McLaren em Le Mans, na Indy 500 e em dois GP da Fórmula 1, mas só irá receber o carro no início de 2028.


Ford GT40 MkII 1966 – US$ 13.205.000

Este é um dos oito Ford GT40 MkII construídos para 1966, quando a Ford tentaria, pela terceira vez, superar a Ferrari em Le Mans. O carro foi desenvolvido em parceria da Ford com a Holman-Moody e a Shelby e tinha como principal mudança a adoção do motor V8 427 vindo da NASCAR. Esse exemplar em questão, o chassi P/1032, foi construído pela Shelby e entregue à Holman-Moody, que era a outra equipe operando pela Ford no Mundial de Carros Esporte (WSC) naquele ano.

A estreia do carro foi nas 12 Horas de Sebring de 1966, quando Walt Hansgen e Mark Donohue conquistaram a segunda posição na prova. Depois disso, o carro passou por testes no Arizona, nas mãos de Ken Miles, para os preparativos finais para Le Mans.

Repintado na cor marrom “Emberglo” com destaques em verde, ele estreou em La Sarthe com uma série de problemas mecânicos que o acabariam tirando da prova: primeiro uma semi-árvore se quebrou logo após a largada, depois, a cobertura do motor saiu voando na Hunaudières a mais de 300 km/h. Donohue conseguiu recuperá-la e prendê-la ao carro, mas logo em seguida o diferencial Weismann não aguentou o tranco e abandonou a prova.

Depois de Le Mans o carro foi usado para exposição nos Salões do automóvel na Europa e, em 1968, acabou doado ao Museu do Indianapolis Motor Speedway. Por essa razão, ele se tornou um dos GT40 mais íntegros daquela campanha de 1966. Além disso, entre 2006 e 2011 o carro foi revisado e restaurado pelos engenheiros que prepararam o carro para Le Mans. Some isso ao fato de ter sido pilotado por Ken Miles e Mark Donohue, e fica claro a razão de ele ter estabelecido um novo recorde de preço do Ford GT40.


Ferrari F2001 “Schumacher Crown Jewel” 2001 – US$ 18.100.000

O nome do carro diz tudo: a jóia da coroa de Schumacher. Foi o chassi usado pelo piloto na vitória em Mônaco e na Hungria na temporada de 2001. Como a vitória em Hungaroring garantiu o título de Schumacher — a quatro etapas do fim do campeonato — o carro acabou conhecido como “jóia da coroa”.

Curiosamente, esse chassi (211) era um carro reserva da Ferrari. Durante os treinos do GP de Mônaco, Schumacher danificou a suspensão do carro principal e acabou trocando-o por este. Largando em segundo, ele aproveitou o erro de David Coulthard na largada e o abandono de Mika Häkkinen para assumir a ponta e ficar lá até o final, com uma vantagem insana de 18 segundos sobre Rubens Barrichello.

Depois de Mônaco o carro voltou à reserva, mas acabou “escalado” para o GP da Hungria, onde Schumacher cravou a pole e liderou 71 de 77 voltas. Com a vitória, ele conquistou seu quarto título mundial, tornando-se o terceiro piloto a realizar o feito, ao lado de Prost e Fangio.

O histórico do carro não acaba aqui: em 2002 ele foi dado a Michael Schumacher, e integrou a coleção do piloto até novembro de 2017, quando ele foi leiloado pela primeira vez. Já na época ele fez história ao ser arrematado por US$ 7.500.000 (US$ 10.000.000 em valores corrigidos para 2026). O comprador enviou o carro para a fábrica da Ferrari, onde ele foi preparado para participar do programa Corse Clienti.

Agora, em maio de 2025, o carro voltou a Mônaco, onde a RM Sotheby’s realizou um leilão durante o fim de semana do GP, e foi arrematado pelos € 15.980.000, equivalente a cerca de R$ 18.100.000.


Gordon Murray Special Vehicles S1 LM 2025 – US$ 20.630.000

Não confunda GMA com GMSV, são parecidas, mas não iguais: a GMA faz os modelos de série, enquanto a GMSV faz os modelos especiais, como este S1 LM, que á a homenagem de Murray aos 30 anos da vitória do McLaren F1 em Le Mans. Só cinco unidades serão produzidas (sim, serão, no futuro), todas com um V12 de 4,3 litros que canta até 12.100 rpm e entrega 710 cv às rodas traseiras por meio de um câmbio manual.

Como a McLaren, o leilão do carro foi uma forma de captar recursos para o desenvolvimento, mas nesse caso especificamente, mais recentemente foi revelado que o comprador do modelo também comprou os outros quatro e se tornou investidor de Murray na GMA. Esta sim foi uma jogada de mestre: não por ter inflacionado o carro da fabricante em que ele está investindo, mas também por que, ao colocar o carro em leilão, ele consegue uma prova real de quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ele.

Além disso, o carro tem um significado especial na carreira de Murray, não só por homenagear o F1, mas também por que o próprio Murray contou que, enquanto trabalhava no carro, descobriu um câncer no esôfago. Ele credita ao projeto a energia necessária para superar a quimioterapia.

Ainda que o carro tenha sido comprado por alguém com interesse em sua valorização, o valor surpreende porque até pouco mais de 30 dias atrás, o McLaren F1 mais caro leiloado publicamente era dos McLaren F1 LM originais que, em 2019, foi leiloado pelo equivalente a US$ 24.360.000. Mais impressionante ainda, é que este S1 LM sequer é o carro novo mais caro do mundo, como veremos mais adiante.


Ferrari 250 GT SWB California Spider Competizione 1961 – US$ 25.305.000

Até aqui todos os carros tinham uma história especial que explicava os valores suntuosos desembolsados por eles. Esta não. Esta é apenas uma Ferrari 250 GT dos anos 1960, e isso basta para que ela custe mais de US$ 20.000.000.

Evidentemente não é uma 250 GT qualquer, mas uma 250 GT SWB California Spider “Competizione”. Ela foi encomendada nova por um gentleman driver alemão que somente disputou subidas de montanha e corridas locais com ela. O nome “Competizione” se deve à sua carroceria de alumínio – uma das duas fabricadas com essa liga em vez de aço. O conjunto mecânico é o mesmo de todas as 250 GT SWB: o V12 168 de 3 litros com três Weber DCL6, produzindo 280 cv a 7.000 rpm, combinado a um câmbio de quatro marchas, e freios a disco nas quatro rodas.

O carro passou a maior parte de sua história na garagem do produtor de TV americano Greg Garrison, que trabalhou com Dean Martin nos anos 1960 — mesma época em que comprou o carro. Garrison ficou com a Ferrari até 1999, quando a vendeu para seu último proprietário.

Curiosamente, o carro não é mais original: ele foi repintado duas vezes. Originalmente prata (Grigio Argento), ele foi pintado de vermelho em 1963 e com este tom de cinza escuro (Grigio Fumo) pelo último proprietário. Mesmo assim, a carroceria de alumínio e os faróis cobertos falaram mais alto e ela foi arrematada por US$ 25.305.000, superando a recordista anterior, uma 250 GT SWB California, também de 1961, mas com carroceria de aço, que foi arrematada em 2015 pelo equivalente a US$ 24.541.000.


McLaren F1 1994 – US$ 25.317.000

Este exemplar, leiloado em 5 de dezembro de 2025, em Abu Dhabi, foi o 14º dos 64 McLaren F1 “básicos” produzidos, e foi entregue originalmente à família real de Brunei, pintado de amarelo (Titanium Yellow) e tinha interior de couro preto e alcantara. O carro acabou exportado para o Reino Unido onde foi comprado por um americano que já havia tido outros F1 na garagem por intermédio de David Clark, ex-diretor da McLaren Cars.

Antes de ir para os EUA, o carro passou por uma revisão completa na McLaren e passou os três anos seguintes em Nova York antes de ser levado para a Califórnia. Em 2006 o carro foi vendido novamente e voltou para a fábrica da McLaren em 2007 para uma renovação completa que custou nada menos que US$ 500.000.

E eu disse renovação por que foi o que fizeram com ele realmente: o carro foi personalizado com a cor branca (Ibis White) e foi um dos oito exemplares a receber o cobiçado High-Downforce Kit, que inclui o aerofólio fixo e elementos visuais do modelo GTR, além do interior do F1 LM com acabamento em fibra de carbono.

O carro ainda é valorizado por que foi autografado por dois dos maiores pilotos de F1 da história: antes da repintura, a soleira de porta exibia o autógrafo de Michael Schumacher, datado de sua estreia na Ferrari em 1996. Após a repintura, ele foi assinado por Lewis Hamilton, que na época estava estreando na McLaren. E ao contrário de muitos F1 que permanecem guardado em coleções, este chassi 014 rodou 13.711 milhas (22.000 km) pelos EUA com seu último proprietário.

Mas sabem qual o fato mais impressionante desse carro 14? Apesar das modificações e do uso extensivo, ele foi arrematado por US$ 25.317.000 e se tornou o F1 mais caro já negociado publicamente — considerando todas as versões do modelo.


Ferrari Daytona SP3 Tailor Made 2025 – US$ 26.000.000

Esta Daytona SP3 “Tailor Made” é a razão pela qual o S1 LM não é o carro novo mais caro do mundo: este exemplar, o 600º (ou 599+1, considerando que a Ferrari não costuma mudar o número total de unidades de série) foi desenvolvido pela própria Ferrari através de seu programa de customização “Tailor Made” para a Ferrari Foundation, que o leiloou para arrecadar recursos que foram doados para ações filantrópicas ligadas à educação.

O carro é exatamente como todos os demais exemplares da Daytona SP3, exceto pela combinação exclusiva da pintura “meio-a-meio” Giallo Modena e fibra de carbono exposta, e o acabamento da cabine com um revestimento exclusivo dos bancos com fibra de carbono exposta por todos os lados.

Como foi leiloado por uma causa beneficente (algo que, nos EUA, rende isenção fiscal sobre o valor excedente ao de mercado), ela acabou arrematada por US$ 26.000.000 — cerca de quatro vezes o valor médio das 599 SP3 regulares.


Ferrari 250 LM 1964 – US$ 36.344.960

Essa dispensa explicações: foi a Ferrari que venceu as 24 Horas de Le Mans em 1964, foi a única Ferrari da era Enzo Ferrari a disputar seis provas de 24 hora (três vezes Le Mans e três vezes Daytona), foi pilotada por Masten Gregory e Jochen Rindt, é “matching numbers” (ou seja: motor, câmbio e chassi combinados do jeito como saíram de Maranello há 62 anos, e pertenceu à NART e ao museu de Indianapolis. É suficiente para você?

Com esse histórico ela, evidentemente, se tornou a 250 LM mais valiosa de todas, custando o dobro do valor nominal da antiga recordista, que foi arrematada em 2015 por US$ 17.600.000 (equivalente a US$ 23.350.000 em 2026). Mesmo com valores corrigidos, ela custa mais que a antiga recordista e a F40 GTC lá do início da lista.


Mercedes-Benz W196R Stromlinien 1954 – US$ 53.917.370

O topo da lista tem mais um exemplar do único carro que conseguiu desbancar as Ferrari 250 de competição do ranking dos carros mais caros leiloados: o Mercedes W196. Nascidos nas oficinas do departamento de competição da Mercedes, comandado na época por Rudolf Uhlenhaut, eles foram os carros que dominaram o automobilismo nos anos 1950, antes da tragédia de Le Mans (que também envolveu um W196).

A primeira vez que um W196 superou uma Ferrari foi em 2013, quando um exemplar monoposto de Fórmula 1, pilotado por Juan Manuel Fangio, Hans Hermann e Karl Kling na temporada de 1954, e vencedor dos GP da Suíça e da Alemanha naquele ano, foi arrematado por US$ 29.600.000 — algo em torno de US$ 40.000.000 em 2026.

Depois, em maio de 2022, a própria Mercedes-Benz decidiu leiloar um dos dois 300SLR Uhlenhaut Coupé, a versão fechada do W196 de corridas de estrada, criada por Rudolf Uhlenhaut para seu uso pessoal. Sendo um carro raríssimo e que jamais fora oferecido ao público, ele superou todas as expectativas e chegou a inigualáveis US$ 143.000.000 — que, corrigidos para 2026, são cerca de US$ 153.651.000.

Por isso, quando soube que um W196R de Fórmula 1 com carroceria aerodinâmica (Stromlinienwagen) seria leiloado, apostei em recorde mais uma vez. Nem poderia ser diferente. Os últimos dois foram recordistas, por que ele não seria? Veja o que eu disse na época:

“Ainda que o modelo aerodinâmico não tenha vencido um GP, ele foi pilotado por Fangio e Moss, tem uma carroceria raríssima, foi do acervo do museu de Indianápolis, nenhum modelo deste foi leiloado até hoje e será leiloado no próprio museu da Mercedes.”

E, de fato, ele foi não apenas o carro mais caro de 2025, mas também o segundo carro mais caro leiloado até hoje em valor nominal, depois de atingir insanos US$ 53.917.370 — e o terceiro, se considerarmos o valor corrigido da Ferrari 250 GTO 3413GT que foi leiloada em 2018 por US$ 60.600.000 em valores de 2026. E como a Ferrari nem o 300SLR Uhlenhaut são carros de Fórmula 1, este W196R aerodinâmico é o carro de F1 mais caro da história.