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Car Culture

Por que você deveria conhecer Brock Yates

Brock Yates morreu ontem, nas últimas horas da terça-feira (5) aos 82 anos. Ele sofria do Mal de Alzheimer e, depois de 12 longos anos, “finalmente sucumbiu” à doença, como descreveu seu filho Brock Yates Jr. ao anunciar a morte do pai no Facebook.

Ser tirado ao poucos deste mundo por uma doença mental tão devastadora, que vai lentamente acabando com a memória e a lucidez das pessoas, é uma ironia triste para aquele que foi um dos grandes nomes do jornalismo automotivo em todos os tempos.

Se você lembra do nome de Brock Yates por aqui, não é por acaso: ele foi o criador da Cannonball Baker Sea-to-Shining-Sea Memorial Trophy Dash, ou simplesmente Cannonball Run, a corrida de rua mais famosa dos EUA, cuja história já foi contada aqui no Flatout. Ser o cara que organizou uma corrida através dos Estados Unidos, para protestar contra limites de velocidade que achava baixos demais, diz muito sobre quem era Brock Yates e por que você deveria conhecê-lo.

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À frente, Brock Yates. Atrás, Dan Gurney

Na época, na época, os EUA estavam prestes a impor um limite de velocidade nacional de 55 mph (88 km/h) em suas rodovias. O país (e o resto do mundo) estava atravessando a crise do petróleo, que fez os preços dos combustíveis disparar e, para o governo da época, obrigar o povo a reduzir a velocidade era uma forma de poupar combustível. Para Yates, isto era ridículo — ainda mais nos EUA, com suas longas retas desertas e carros com motores V8 bons de acelerar.

Apenas um jornalista automotivo influente seria capaz de criar uma corrida ilegal e não-oficial, sem a sanção de qualquer organização automobilística, atraindo até mesmo pilotos profissionais, e ainda cobrir tudo na revista para a qual escrevia. Foi pelas páginas da Car and Driver, onde Yates começou a trabalhar em 1964 como editor-executivo, que se noticiou a vitória de Brock Yates e Dan Gurney, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1967, ao volante de uma Ferrari 365GTB/4 Daytona. A dupla percorreu mais de 4.600 km em menos de 36 horas. Gurney chegou a dizer: “em momento algum ultrapassamos os 270 km/h”, mas a dupla tomou uma multa por excesso de velocidade ao passar a 217 km/h em um trecho com velocidade máxima de 110 km/h.

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Brock Yates, seu Dodge Charger e os participantes da última Cannonball Run, em 1979

Quando entrou para a Car and Driver, Yates tinha uma missão clara: fazer a revista se destacar das demais por meio de um olhar mais crítico e desbocado da indústria automotiva americana. Deu certo: em 1968, ele criticou as três grandes de Detroit por sua postura apática no mercado automotivo, enquanto os importados japoneses ganhavam popularidade, atingindo seu auge na década de 1970. As fabricantes começaram a ouvi-lo, mesmo que a contragosto.

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Sua escrita também acabou indo parar em Hollywood. Em 1981, depois de cinco edições da Cannonball Run, Yates foi convidado para escrever o roteiro de um filme inspirado na corrida. E olha só: o diretor de “Quem não corre, voa” (The Cannonball Run, 1981) foi Hal Needham, que anos antes havia dirigido a icônica cena de perseguição de Bullitt (1968), e também escreveu o roteiro da sequência, “Um Rally Muito Louco” (The Cannonball Run II, 1984). Os dois filmes renderam mais de US$ 100 milhões na bilheteria, tornando-se duas das películas mais bem sucedidas da década de 1980. E, antes disto, Yates também havia ajudado a escrever, em 1980, o roteiro da sequência de “Agarra-me se Puderes” (Smokey and the Bandit, de 1977).

Em 1984, Yates idealizou outro evento. A ideia era parecida com a da Cannonball Run, com a diferença de que se deveria respeitar os limites de velocidade. As instruções eram simples: partindo de Darien, Connecticut, os participantes deveriam dar uma volta ao longo dos EUA, percorrendo diversas rodovias, em um percurso que poderia ter até 10.000 km. O evento é disputado até hoje, e inclui eventos em circuitos de corrida nas diversas cidades por onde o percurso passa.

 

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Yates também era colecionador de automóveis, pelo que se sabe. Ele não era do tipo que fica exibindo seus carros por aí, mas em 2013 um deles ficou famoso ao aparecer no programa “Em Busca de Carros Clássicos”, do Discovery Turbo. O apresentador Wayne Carini foi contratado para vender o Eliminator, um hot rod feito a partir de um Ford 1925, equipado com um V8 small block Chevrolet acoplado a uma caixa manual BorgWarner T10, de quatro marchas. Yates comprou o carro em 1996 e, depois de uma restauração, correu com ele em eventos históricos, como a Monterey Car Week, até 2003.

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Yates permaneceu por quase 40 anos na Car and Driver, e seu estilo ácido, suas opiniões bem definidas e seus argumentos incisivos e imutáveis ajudaram a moldar o atual formato do jornalismo automotivo. Ele foi dispensado em 2006 (porque era muito caro, como ele mesmo disse depois), e até mesmo seus últimos editoriais pela revista foram memoráveis. Yates também escreveu 15 livros sobre automóveis.

Em outubro de 2001, sua coluna na revista falava sobre como os carros de câmbio manual já eram minoria, sobre como em breve teríamos conexão com a internet dentro dos nossos carros e sobre como o futuro nos deixaria apenas com a função de virar o volante, pois o carro faria todo o resto sozinho. Bem, ainda existe pilotagem e os carros autônomos ainda vão demorar um pouco para chegar (mais por questões éticas do que por questões tecnológicas, é verdade), mas ele está certo: mais do que nunca, sentimos falta de carros que envolvam de verdade o motorista. Ou o piloto.

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Brock Yates era um dos nossos. Na verdade, um dos maiores deles.

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