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Project Cars Project Cars #181

Project Cars #181: começando a preparar minha Harley Davidson para pegar a estrada

Fala, galera! Tudo certo? Depois de apresentá-los à minha Harley-Davidson Sportster 883, chegou a hora de falar sobre as modificações. Vamos nessa?

É fato conhecido dentre os proprietários de Sportster que você consegue instalar nelas um guidão de até 9” de altura sem precisar trocar os cabos de comando ou linha do freio dianteiro. Como esse guidão era de 8”, isso não deveria ser problema. Quer dizer, desde que o serviço tivesse sido feito direito (o que eu esperaria de um mecânico “especialista em Harley-Davidson” e com muitas indicações – ainda que algumas contra, o que é de praxe nesse mercado restrito, não existe 100% de unanimidade sobre mecânico nenhum).

O fato é: os cabos de comando originais são, sim,  suficientes para esse guidão, só que a regulagem do cabo da embreagem precisa ser feita direito. E cinco dias depois da revisão, quando eu estava voltando do trabalho pra casa, a embreagem (que estava mal regulada e enforcada de leve) começou a patinar. Não só a patinar, mas efetivamente a fritar. Subindo a ladeira do Park Shopping para o Guará II (quem é de Brasília conhece, não é tão íngreme), eu quase não consegui chegar em casa, com uma baita fumaceira de embreagem queimada.  Cheguei em casa quase me arrastando, sob chuva (detalhe que não era época de chuva, foi uma daqueles aguaceiros que dão a louca de cair no meio da época de seca), a 10 km/h.

No dia seguinte, chamei o guincho e levei a moto de volta ao mecânico. Os discos de fricção da embreagem haviam fritado completa, sendo que quase 12 horas da moto parada o cheiro de “disco frito” ainda era fortíssimo.

O problema: eu havia acabado de comprar a moto via consórcio e estava com a vistoria para transferência de propriedade marcada no Detran para dali a 10 dias. Não havia tempo hábil para esperar um kit de discos vir dos Estados Unidos. Na concessionária local (eu estava disposto a pagar o preço dada a pressa), não tinha as peças para pronta entrega. Um camarada no Facebook me indicou um carinha que vendia um kit de discos paralelos no MercadoLivre, por 500 reais (o kit da mesma marca custa 50 dólares nos Estados Unidos, sendo efetivamente a marca mais barata disponível na loja JPCycles). Como eu tinha pressa, não tinha jeito. Paguei os 500 reais num kit de embreagem de qualidade supostamente duvidosa.

Trocados os discos, a moto voltou a funcionar. O mecânico “especialista” me avisou que precisaria fazer ajuste na embreagem dentro de alguns quilômetros por conta do assentamento dos discos novos. Fiz a vistoria no Detran, dei entrada na documentação do banco e da seguradora.  E depois de 800km, os discos começaram a patinar de novo, dessa vez sem queimar, só patinar. Regulei o cabo (nas Harleys você regula o cabo de embreagem em dois locais, um no manete, e outro atrás da tampa lateral da embreagem, chamada de “derby cover”). Voltou a funcionar. Mais três dias (não cheguei a rodar 100km), começou a patinar novamente.

Levei de volta ao mecânico (dessa vez pilotando), o qual, sem nem olhar para a moto, já condenou os discos de embreagem que eu havia comprado em caráter emergencial, dizendo “esses discos que você comprou não prestam, compre coisa decente que você não terá mais problemas”.  Bom, ainda que eu tivesse um relato de um conhecido que já tinha instalado discos da mesma marca e rodado 30 mil km sem qualquer problema (e trocado os discos na mesma oficina e com o mesmo mecânico), não vou negar que eu estava desconfiado de um jogo de discos de embreagem de 50 dólares (ainda que custasse 500 reais aqui). Então, pesquisando e com base em relatos e indicações, comprei  os discos da marca Barnett, muito bem conceituados no mercado americano e muito elogiado por colegas do Fórum H-D e pelo próprio mecânico. Fiquei 15 dias sem moto, esperando as peças chegarem dos EUA (onde me custaram 130 dólares mais frete e imposto), e aproveitei (já que o seguro morreu de velho) pra comprar um jogo de cabos de comando mais longos, tendo em vista que eu ainda desconfiava de todos os relatos de uso de guidão de 8” com cabos originais, e uma mola diafragma de acionamento da embreagem nova (o “platô” da embreagem da moto é composto por duas peças, uma mola diafragma e uma placa de pressão), já que suspeitei que ela poderia ter destemperado com o calor quando a embreagem fritou da primeira vez.

Chegando os discos, levei ao mecânico, que os trocou (cobrando novamente a mão de obra de R$ 150,00) e instalou os cabos de comando novos (mas não a mola, apesar do meu pedido para fazê-lo).  Mas… os discos “meia boca” não estavam queimados nem com qualquer aparência de desgastados, então achei por bem os guardar para alguma necessidade futura.  E ele ainda me falou “embreagem de Sportster é assim mesmo, dá problema direto, se acostume”.  Esse problema me chateava, eu comprei a moto pensando em rodar bastante (inclusive na estrada) mas não estava confiando na máquina. A todo momento eu rodava achando que se eu forçasse a aceleração um pouco mais, eu ia ficar na mão de novo.

Rodei mais 1000km… e começou a patinar de novo. Regulei, rodei mais 500… patina. Nova regulagem, mais 200km, patina. Nova regulagem, não pegava mais, não tinha mais jeito, não ia subir a rampa da garagem do prédio se não fosse rebocada. Mas o mais curioso, patinava até chorar, mas não queimava.

Eu confesso pra vocês que embora eu sempre tivesse facilidade pra desmontar acabamentos (ex: tirar tanque, desmontar peças da moto) e mexer com parte elétrica, eu sempre tive um medo irracional de mexer na mecânica por conta própria, dado o medo de fazer burrada e ter um prejuízo maior ainda. Mas eu estava há tempos levando a moto em um mecânico muito bem recomendado (em que pesem algumas poucas recomendações contra, coisa que todos eles têm) e não dava jeito. Recomendações no Fórum H-D diziam: “cara, tu tem o manual de serviço, arruma essa porcaria sozinho, é fácil”. Meu. Eu nunca tinha feito nada de mecânica, nem limpar carburador ou trocar pastilha de freio, já ia pegar logo de cara um diagnóstico de embreagem que mais parecia uma caveira de burro enfiada sob o banco da moto do que um defeito de diagnóstico simples? Pensei, pensei, a moto na garagem impossibilitada de andar já há 15 dias (e não estava a fim de gastar mais 100 reais de guincho sem saber pra onde levar, já que todos os mecânicos especializados em Harley aqui em Brasília tinham suas recomendações favoráveis e contrárias) e lembrei do dito popular “o que é um peido pra quem já está todo cagado” e resolvi estudar o manual de serviços (eu já tinha feito isso quando desmontei o tanque para a customização conforme citarei em outra parte). Manual na mão, seção de embreagem, vamos lá.

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A primeira coisa a fazer foi matar minha desconfiança, e medir os discos de embreagem “baratinhos que foram caros” , aqueles que guardei quando instalei os Barnett, com um paquímetro.  Qual não foi a minha surpresa ao ver que eles estavam perfeitamente dentro das especificações? Ou seja, não estavam gastos. Bom, pelo menos já sei: existe uma chance de eles não serem a causa do problema.

Então olhei o manual de serviços, rotina de diagnósticos para embreagem patinando. Essa rotina de diagnósticos é composta por quatro passos.

 

1 – Verificar o ajuste do cabo de embreagem, no manete e no sistema de acionamento atrás da derby cover (já tinha ficado especialista nesse ajuste, pois o fazia toda hora e não gasto mais que cinco minutos para fazê-lo);

2 – Verificar a placa de pressão do platô de embreagem;

3 – Verificar a mola diafragma do platô de embreagem;

4 – Substituir os discos de fricção e separadores.

Ou seja, quando deu problema, o mecânico foi direto do passo 1 para o 4 (o mais caro!) sem nem passar pelos 2 e 3. A conclusão daí é óbvia.

Tomei então a decisão de fazer tudo por conta própria. Iria precisar de ferramentas especiais (para compressão da mola diafragma da embreagem, sem isso não seria possível desmontar tudo pra verificar). A ferramenta é cara (US$ 150 nos EUA + frete e imposto), para algo que teoricamente eu iria usar apenas uma ou duas vezes. A mola de embreagem da Harley é pesada, e as ferramentas de compressão de mola das motos nacionais não dão conta, fora a questão da medida.  Então… resolvi mandar fazer minha própria ferramenta, fazendo o projeto com base em idéias coletadas na Internet (novamente, o Fórum H-D salvou o dia, tinha gente que fazia isso até com tubo de PVC cortado e uma chave combinada furada no meio) e levando para um torneiro, que a fez a partir de um cilindro de nylon. Usaria o próprio parafuso e porca de ajuste da embreagem para apertar a ferramenta (e a mola) e pronto. Por R$ 60 (entre material e serviço), eu tinha uma ferramenta de compressão de mola perfeitamente funcional.

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E toca-lhe o fim de semana (e como se tratava de um trabalho “inédito” para as minhas mãos, resolvi dessa vez deixar de lado o hábito do isopor com latinhas e gelo ao lado das ferramentas) para desmontar a tranqueira!

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Embora a mola de embreagem fosse o passo 3, como eu tinha uma mola novinha dando sopa em casa resolvi testá-la primeiro. Mas antes disso, desmontei tudo, e medi os discos de fricção e os separadores um a um, e não só estavam totalmente dentro das especificações, como estavam exatamente, até a terceira casa decimal do paquímetro digital, na mesma medida dos discos que eu havia guardado em casa (lembram?). Já sabia que não eram os discos.

Coloquei a mola nova e, para a minha surpresa, o problema continuou. A moto continuava imobilizada.

Então, me restava verificar o item 2. Dada a pressa (a moto estava na garagem do prédio, com a tampa da primária desmontada, um plástico embaixo pra não sujar tudo de óleo, uma zorra, tava vendo a hora que ia tomar uma chamada do síndico). Pensei: uma peça que nos EUA custa US$ 10 + frete, já achei uma paralela por R$ 150 no MercadoLivre (no mesmo vendedor que me vendeu os discos de embreagem de R$ 500), pela experiência que eu tive com a mola eu imagino que a placa de pressão original de fábrica deve custar o mesmo ou mais barato. De fato, era mais barato mas pra variar… não tinha no estoque da concessionária. Então eu decidi que precisava dar um jeito de testar antes de gastar 180 reais assim (peça mais sedex). O próprio atendente do setor de peças da H-D sugeriu que eu fosse em um mecânico do outro lado da cidade (também especialista em HD), pois ele poderia ter alguma peça usada boa que eu poderia usar pra testar. Cheguei lá, bati um papo com ele e ele deixou eu fuçar a caixa de ferro velho, e no meio achei uma placa de pressão da Sportster, a qual foi vendida pra mim por uma cerveja (ele não queria cobrar, pois não sabia se a peça estava boa ou resolveria meu problema, mas eu fiz questão de pagar já que estava lá e levando a peça por minha conta e risco).

Chegando em casa, resolvi comparar as duas. No paquímetro, não se vê diferença perceptível de medida, mas… visualmente, nota-se a diferença. A minha placa de pressão antiga estava totalmente lisa, enquanto essa que eu catei no ferro velho tinha um restinho de superfície de fricção nos cantos. Pegando um disco de embreagem velho embebido em óleo e testando a fricção nas peças desmontadas, a placa de fricção que tirei da minha moto escorregava. A do ferro velho, dava fricção.

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Montei tudo e testei. A moto voltou a funcionar perfeitamente.

Como o seguro morreu de velho, comprei uma peça nova (fiquei com medo daquela faixa fininha de atrito que sobrava danificar os discos, pois era uma faixa de fricção tão fina que era quase uma superfície de corte). Desmontei tudo de novo, coloquei a peça nova, regulei tudo uma única vez após a montagem e… já rodei 12.000 km sem nem precisar reajustar o cabo de embreagem. Os discos de qualidade “duvidosa”? Doei para um amigo que precisava, que já rodou 20.000, com direito a duas viagens pelo Sul, sem qualquer sinal de problema.

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O referido mecânico especialista , que condenou os discos instalados, que não seguiu as orientações do manual de serviços, que dizia que “embreagem de Sportster é problemática mesmo”, nunca mais viu minha cara nem meu dinheiro.

Bom, esse processo de diagnóstico me animou a começar a fuçar mais por conta própria. O trabalho de manutenção mais simples de se fazer em moto depois da troca de óleo, que é a troca de pastilhas de freio e sangria, que eu tinha pânico de fazer, comecei a encarar sozinho.

Porém, quando troquei os pneus da moto, fui alertado que os rolamentos da minha moto não estavam exatamente bons. De fato, eles estavam começando a fazer barulho, e pediam troca. Como não gosto de fazer gambiarra usando marreta e a ferramenta especial pra sacar e instalar rolamentos é muito cara (para algo que se usa vez ou outra), entra naquela situação do custo-benefício de levar em um mecânico X fazer em casa (hoje eu só levo moto em mecânico se precisar de alguma ferramenta cara demais ou grande demais que eu não tenha).

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Então, levei a moto ao mecânico, não o que não soube consertar minha embreagem, mas um outro que também é cheio de recomendações (e nenhuma negativa até que eu fui lá). Oficina organizada, mecânico com boa vontade inclusive pra ensinar aquilo que você precisa pra se virar em caso de emergência na estrada.  Trocados os rolamentos das duas rodas, na hora de montar tudo, o freio traseiro parou de funcionar.  Não acredito que tenha sido alguma burrada do mecânico (até porque acompanhei todo o processo, ao contrário do mecânico anterior que se recusava a mexer na sua moto na sua frente) , mas sim que o cilindro mestre traseiro já estava ruim e o problema só se manifestou depois de tirada a roda (quando os pistões do freio traseiro saíram do lugar). O problema: faltava uma semana para o Motocapital!!!!!!!!!!! (o evento motociclístico do ano em Brasília, e o terceiro maior encontro motociclístico anual do mundo, perdendo apenas para Sturgis e Daytona Beach, nos EUA).  Pra variar (novidade…), o reparo do cilindro mestre não existia no estoque da concessionária. O mecânico então sugeriu pedir no fornecedor dele, e ele me garantiu que a peça chegaria até terça, no máximo até quarta-feira. E lá vou eu pra casa com a moto sem o freio traseiro (experimente andar de moto no trânsito sem freio traseiro que você vai ter noção do perigo, frear só com o dianteiro – principalmente nas cruiser – é pedir pra tomar chão, principalmente na 883R que tem um freio dianteiro meio superdimensionado e sem ABS), com medo de perder o evento do ano (e eu já tinha decidido: se for pra ir de carro nesse negócio eu fico em casa).

O problema: ele se esqueceu de me avisar terça ou quarta de que semana.

Quinta liguei: Chegou minha peça? Ainda não. Sexta: chegou? Não. Motocapital já era. Ir de carro por causa de moto quebrada seria deprê demais, então acabei nem me animando de ir.

Semana seguinte: terça: nada. Quarta: nada. Quinta: nada. Já morrendo de raiva por ter perdido o evento. Semana seguinte (semana do dia dos pais) a ladainha continou, e ele me disse: faz o seguinte. Pede a peça e traz aqui qualquer dia da semana pra instalarmos, por causa do atraso e pelo fato de ter dado o problema quando desmontamos pra trocar os rolamentos nem vou cobrar a mão de obra, são vinte minutos de trabalho. Perguntei: Você vai estar aqui a semana toda, ou vai viajar pro dia dos pais? Vou estar aqui a semana toda. Pedi a peça em Porto Alegre (paralela) na quarta-feira à noite, chegou pra mim na sexta à tarde (lembrando que há três semanas o mecânico não conseguia a mesma peça), acordo cedo sábado de manhã (pra não pegar trânsito sem freio), feliz da vida que ia finalmente arrumar minha moto e voltar a rodar e… dei com a cara na porta.

Sim, ele resolveu viajar com a família. Se deu ao trabalho de mandar , na quinta-feira, um e-mail para todos os clientes desejando um feliz dia dos pais, mas esqueceu-se de avisar que não abriria no sábado (eu não fui o único a dar com a cara na porta, tinha outro cliente lá). É mole?

Voltei pra casa, então, puto da vida, decidido a (novamente) resolver por conta própria. Eu que sempre fui medroso até pra trocar pastilha, estudei o manual de serviços e desmontei o cilindro mestre de freio traseiro pra fazer  o reparo (e aproveitei até pra trocar as pastilhas dianteiras que pediam troca). Três horas depois a moto estava rodando de novo, e eu feliz da vida por ter superado mais um medo de mexer nas coisas sozinho. (tava tão chateado que não tirei fotos deste processo).

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Lição aprendida nesse um ano e meio que eu tenho essa moto? Não conte apenas com os outros, procure fazer, sempre que compensar financeiramente, as coisas por conta própria: é mais prazeroso, e você sabe que se for feita alguma besteira, foi você mesmo quem fez. Fora o dinheiro economizado para gasolina, churrasco e cerveja.

Vocês devem estar pensando: É difícil manter uma Harley, então? Essa é uma questão que será respondida no próximo post. Fique ligado!

Por Bira Muniz, Project Cars #181

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