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Project Cars Project Cars #313

Project Cars #313: como troquei um Ford Ka 2006 por um Gol GTi 1991

Fala, galera tudo bem? Meu nome é Renato, tenho 24 anos e sou analista de T.I. É com muito prazer e alegria que chegou o meu dia: o dia de falar um pouco sobre o Tripa Seca, o Project Cars #313, meu Gol GTI 1991!

Muitas pessoas me perguntam quando eu comecei a gostar de carros, e quando me perguntam, eu viajo para 1998 (quando eu tinha apenas 7 anos). Tenho na minha mente os finais de semana que adorava dormir na casa dos meus avós. Eu acordava bem cedinho com o meu avô para irmos à padaria comprar os pães, e no trajeto curto de 1km ele ia me explicando e me ensinando a como trocar as marchas na sua VW Brasilia LS 1978, eu ficava simplesmente extasiado trocando as marchas no banco do carona me imaginando um dia podendo dirigir meu próprio carro por aí. Aliás, a Brasilia continua firme e forte ao lado do meu avô, são companheiros à 35 anos — ela foi comprada quase zero em 1980.

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Um pouco mais velho, já com 13 anos, outro VW já marcava minha vida, ao voltar da escola pegava carona com o meu vizinho que voltava da faculdade. Esperava sempre ele passar no ponto de ônibus para voltar pra casa em seu Gol GTS 1993 vinho todo original. Já naquela época todos os meus amigos adoravam o carro e ficavam admirando quando ele parava.

O som do escape Kadron era muito gostoso de se ouvir, o banco Recaro me encantava com a dureza de um legítimo banco esportivo, e os apoios de pernas que nunca havia visto em carro nenhum ótimo para encher de tralhas, enfim, um carro sensacional!

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Bom, pessoal, vamos à parte que interessa. O mês era junho de 2014 e eu já não estava tão satisfeito com o meu Ford Ka 1.0 GL 2006, meu primeiro carro, eu adorava pegar estrada, visitar cidades do interior de SP. Sou do ABC paulista, e quando fazia essas viagens, o desempenho do meu Ka não me deixava feliz, tinha muita dificuldade pra fazer ultrapassagens, e o conforto era só o suficiente. Então senti que já era hora de buscar um carro mais confortável e com mais potência para encarar rodovias com mais facilidade. Resolvi procurar um outro carro e, depois de pesquisar muito, decidi que meu próximo carro seria um Honda Civic. Pesquisei muitos modelos de 1998 até 2001, porém não encontrava nada bom o suficiente que o meu dinheiro pudesse pagar.

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Então chateado por não ter encontrado um bom carro por um valor razoável, abortei a ideia e decidi não trocar mais, durou até dia 1º de outubro de 2014, quando resolvi voltar as buscas despretensiosamente, quando por volta das 20:30h à procura de alguns Volkswagen, deparo com um Gol GTI.

Foi aí que minhas lembranças do Gol GTS reacenderam. Decidi abrir o anúncio e, quando abri, foi paixão à primeira vista! Minha mão começou a suar, meu coração foi a mil igual a um velho motor a diesel disparado, resolvi mandar um email para o anunciante, pedindo mais detalhes do carro e se aceitaria meu “Kazinho” na troca, e por volta das 20:37 da noite me chega um e-mail do proprietário, ai eu já estava à beira de um derrame, ele me detalhou mais o carro, e trocamos vários e-mails até que decidimos marcar um dia para ver o carro.

Então chegou um dos melhores dias da minha vida, mesmo com minha família querendo me internar em um sanatório por trocar um carro 2006 em um 1991, segui em frente, e no dia 9 de outubro de 2014  eu estava preparado para pegar a estrada até Cravinhos/SP, a cerca de 400 km de casa. Acordei cedo, fui muito ansioso para ver o Quadrado, saí de casa às oito da manhã, e por volta das 12:30 estava chegando.

Encostei ao lado de um posto de gasolina e mandei uma mensagem para o proprietário, ele me respondeu de volta informando que chegaria em 10 minutos até o lugar onde estava. Foram os 10 minutos mais longos da minha vida. Foi ali que comecei a ouvir lá longe o barulho forte e grave do meu futuro carro, e finalmente ele chegou! Eu até esqueci de conversar com o proprietário, só queria olhar para o quadrado e admirar suas linhas, fiquei alguns minutos olhando as lindas rodas BBS aro 14 originais, os spoilers laterais, o aerofólio traseiro, então naquele momento já havia decidido que aquele carro seria meu…

 

Fiquei tão vidrado no carro que até esqueci de olhar mais minunciosamente, vi que a estrutura estava muito boa, e o interior estava bem aceitável, bancos sem rasgos e sem nenhum amassado, a pintura estava boa, então fui dar uma volta no tripa seca e logo de cara fiquei simplesmente extasiado e um pouco emocionado por estar dirigindo uma lenda nacional. O torque do AP-2000 me deixou surpreso, acelerava muito forte, o cambio bem curto me parecia estar muito bom, então logo fomos preencher os documentos e por volta das 13:30 eu já era legalmente o dono do meu Gol GTi 1991, mesmo ano em que nasci.

 

Tratava-se de um cinza spectrus do primeiro ano da famosa frente “chinesinha” com todos os equipamentos comuns aos GTi: vidros elétricos, travas elétricas das portas, espelhos retrovisores elétricos, ar-condicionado e luzes de leitura. Ele só não tinha direção hidráulica, que tornaria-se de série em 1994. As únicas modificações feitas pelo proprietário anterior foram o escape feito todo em 2,5 polegadas e as molas dianteiras, que eram levemente rebaixadas. O resto era quase todo original.

Hoje o Gol GTI é considerado um clássico nacional, começou a ser vendido em 1989, ele marcou o início de uma era no Brasil, inaugurando a injeção eletrônica nos carros nacionais.

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Carros equipados com injeção eletrônica já eram comuns fora do Brasil, porém graças a uma inexplicável reserva de mercado, não podíamos ter carros desse tipo por aqui. Isso acabou em 1989, quando a Volkswagen lançou o Gol GTI em uma das suas cores mais emblemáticas, o Azul Mônaco. Foi um carro que marcou uma geração. Uma das suas características mais marcantes era a utilização da injeção eletrônica analógica Bosch LE Jetronic.

Uma das dificuldades enfrentadas por nós donos de veículos equipados com a LE Jetronic é a dificuldade do diagnóstico de erros, pois como não há entrada para scanners. Para identificarmos anomalias no sistema seriam necessários a utilização de multímetro, osciloscópio e outros aparelhos sempre com o esquema elétrico e os códigos de erros em mãos, o que torna o trabalho muito mais difícil e demorado.

Saindo de Cravinhos eu tinha pela frente 400 km para percorrer com um carro que eu mal conhecia. Enchi o tanque e caí na estrada. Foram cinco horas de puro prazer e alguns sustos. Logo de cara senti que o tripa seca estava com muita sede, acredito que estava fazendo uma média de 6 km/l, porém continuei andando a uma velocidade de 100 km/h, com algumas esticadas também porque ninguém é de ferro. Já chegando em SP, no trânsito lento, ele morreu uma vez mas voltou a funcionar normalmente. Ou não: aonteceu mais duas vezes até chegar em casa, então percebi que algo não estava muito bom. Depois de mostrar o carro ao meu irmão guardamos o Gol na garagem e naquela noite eu mal dormi pensando nos planos.

Na semana seguinte, estava louco para ir a um dos encontros mais tradicionais da linha VW quadrada, o encontro do clube Somos quadrados em São Caetano/SP.

Fui muito bem recepcionado pelo pessoal mais antigo, e foi muito legal ver pessoas de todas as idades curtindo um encontro de carros. Foi a primeira vez que conversei pessoalmente com gearheads que são apaixonados assim como eu. Saí de lá mais apaixonado ainda pelos quadrados e por significarem tanto no mercado automotivo nacional.

Voltando pra casa do encontro percebi que em determinadas rotações o carro perdia muita potência, e estava consumindo ainda mais combustível.

Então foi nesse momento que o carro começou a apresentar vários problemas. Ele começou a morrer muito, perder força,  consumir muito mais gasolina, e de uma hora pra outra começou a demorar muito pra ligar depois que morria.

A realidade deu as caras e tive que encarar os problemas. Não sabia cuidar de um carro mais velho, e confesso que o tripa seca está sendo uma escola pra mim. Estou aprendendo muito com ele, coisas que eu não sabia como funcionava, ou mesmo fazer algumas manutenções em casa.

Foi aí também que comecei a enfrentar muitos problemas com a injeção eletrônica, com o motor, na elétrica e também nos freios. Ah, e também a dificuldade da caça às peças originais, e de mão-de-obra especializada. Mas isso é o papo do próximo post.

Por Renato Oliveira, Project Cars #313

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