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Project Cars Project Cars #379

Project Cars #379: como se faz uma Café Racer a partir de uma Honda CG125?

E aí, pessoal! Achei bem legal o retorno dos leitores quanto à primeira parte desse #ProjectBikes falando um pouco sobre minhas primeiras experiências com meu primeiro carro, e principalmente sobre a história da buzina dos Gatões. Muito obrigado, vocês são foda!

Como havia dito no final da parte um, acabei por encontrar a moto ideal pras minhas condições em uma loja perto de casa, e após uma negociação rápida, entrei num acordo com o dono e fechamos negócio.

Com a moto na mão, já era mais fácil visualizar pra que lado partir com ela, baseado nas idéias que já tinha em mente. Era hora de tirar o projeto do papel e colocar em prática.

Desde quando comecei a planejar a compra de uma moto, foquei em buscar o máximo de informação sobre os modelos que tinha em vista, o que dava certo nelas, o que não funcionava bem, e principalmente receitas já usadas em outros projetos e estilos diferentes, tudo pra ganhar tempo e principalmente economizar na hora de comprar peças acabar comprando alguma coisa que não desse certo ou que não ficasse bom (lembre-se que até então eu não tinha contato algum com as motocas, pra saber com propriedade o que daria certo e até mesmo como funcionava certas coisas).

A linha de idéia que segui foi uma personalização de baixo custo, puxando a moto pra um estilo que ainda a deixasse funcional, a ponto de rodar pela cidade normalmente, sem me preocupar com a condição de asfalto (ou falta dele), que me permitisse pegar estrada quando precisasse, que fosse confortável de pilotar e claro, qu e que não me trouxesse problemas com a lei. Decidido isso, e com base nas pesquisas que vinha fazendo, encontrei um blog muito conhecido pelo pessoal do mundo das motos custom chamado Garagem Café Racer, além também dos grupos e páginas no Facebook como Café Racer Brasil e Bratstyle Brasil. Essas páginas se tornaram minha enciclopédia, onde passei a conversar com alguns membros tirando dúvidas e conhecendo outros projetos de vários estilos que me inspiraram.

Com toda uma bagagem de informação teórica sobre as motos e estilos diferentes de personalização, passei a selecionar o que funcionaria bem ou não no meu caso, baseado no chassi da moto, potência do motor, integridade da estrutura e também o que a lei permite ou não. De todos os estilos que pesquisei, o que mais me chamou atenção foram justamente as Café Racers, pela história dessa vertente, desenho das motos, e a possibilidade de dar um ar esportivo pro veículo, sem perder a classe e a sofisticação.

Pra entender um pouco da história desse estilo:

O termo Café Racer, é um derivado cultural direto do termo Rocker, que eram os jovens ingleses que andavam de moto Inglaterra a fora em alta velocidade, vestindo suas jaquetas de couro e cabelos engomados, nos idos da década de 60. Naquela época, a expansão das rodovias era um chamativo pros aficionados por velocidade.

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Os jovens ingleses de um grupo de motoqueiros, conhecidos por Rockers, tocavam o terror pela Inglaterra dos anos 60

Com isso, os motoqueiros da tinham como objetivo bater o “Ton Up”, que era basicamente atingir 160Km/h. Hoje em dia pode não parecer muita coisa, mas lembrando que estamos falando de veículos de 50 anos atrás, com uma tecnologia bem mais limitada. Motos que alcançavam essa marca no velocímetro naqueles anos custavam caro, então à saída pros jovens da época era aliviar o peso das motos para o mínimo possível e mexer no motor buscando o máximo de desempenho. Na estética, além do alívio de peso, eram adotados também guidões mais baixos, pedaleiras reposicionadas, além de tanque e banco retrabalhado, buscando uma posição de pilotagem mais esportiva e aerodinâmica. Basicamente são as avós das esportivas de hoje em dia.

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Uma Triton, basicamente um motor de Triumph Bonneville, enxertado num quadro Norton. Unindo o melhor motor, com a melhor estrutura ciclística inglesa. Ícone máximo do estilo Café Racer

Ok, a parte do Racer eu entendi, mas o que tem a ver o Café com toda essa história?

 

Um dos pontos de encontro para os adeptos desse estilo eram justamente as lanchonetes da época, denominadas Cafés. Diz à lenda que os motoqueiros apostavam corridas entre as músicas que eram tocadas nos jukebox, onde os pilotos deviam alcançar um ponto específico e voltar antes da música terminar.  Um desses cafés denominados Ace Café, localizado em Londres, está na ativa até hoje e é ponto turístico pra quem aprecia a cultura.

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Ace Café no seu auge, e atualmente.

Entre as motos britânicas da época estavam às clássicas Triumph e Norton, mas com o crescimento da indústria e a chegada das motos japonesas no mercado europeu, mais confiáveis e modernas na mecânica e tecnologicamente, selaram o destino para as motos inglesas, que acabaram ficando ultrapassadas. Junto, vieram os movimentos criminalizando o modo “delinqüente” dos motoqueiros, reduzindo muito os adeptos dessa cultura e estilo.

Videozinho pra dar aquela imersão na cultura:

Terminada a aula de história, de volta ao projeto!

Diferente dos carros, não tem muito que se pode fazer numa moto sem que você se esbarre em alguma norma do DETRAN quando se fala de personalização, e várias dessas normas não são claras o suficiente e te deixam na dúvida sobre o que você pode fazer e o que não é permitido. Basicamente, a moto deve ter todos os itens de segurança e sinalização, e devem ser funcionais!

Para lamas muito pequenos, ausência de velocímetro, sinaleiras e outros itens são expressamente proibidos e garantem problemas com a polícia caso te parem. Alteração no número de passageiros também é proibida, e a presença das alças e pedaleiras na garupa pro passageiro também é obrigatória.

Alterações no chassi são proibidas, porém, há a possibilidade de vistoriar a moto no Inmetro para que seja aprovada a legalização, e isso meu amigo, é o mais complicado, pois nesse Brasil grande sem porteira, cada vistoriador, aparentemente, trabalha de um jeito e a aprovação sempre é uma incógnita (quem já legalizou suspensão ou motor do carro sabe como é chato e burocrático!)

As alterações que se podem ser feitas sem problemas são:

– Tanque, com pequenas alterações e que ofereça segurança. Não é claro quanto aos modelos feitos de fibra;

– Rodas e Pneus, desde que respeitem os limites dos para lamas;

– Guidão, sem problemas;

– Velocímetro, obrigatório. Conta giros é opcional e podem ser suprimidos ou modificados, assim como demais mostradores de temperatura,voltagem, combustível e etc.;

– Banco, pode ser modificado (formato e material), porém deve manter o número de passageiros;

– Iluminação, permitida, desde que se mantenha funcional. Você pode trocar os modelos das setas e faróis, por exemplo, para outros modelos que usem LEDs ou outras formas de iluminação, exceto xenônio;

– Escape, permitido sem problemas; (Mas fique atento para barulho excessivo!)

– Para Lamas, permitido, mas deve ser funcional; (Peças muito pequenas são garantia de levar água ou outras coisas indesejáveis na cara quando tiver andando.)

– Suspensão, permitida inclusive mudança pra modelos a gás;

– Placa Lateral, só com legalização, mas já vi quem roda sem autorização, então fica na conta e risco. Independente da posição deve ter luz iluminando;

– Cor, permitido a troca normalmente, seguindo o protocolo para alteração de cor no DETRAN. Se usar duas cores, a predominante deve ser a mesma que consta no documento.

Seguindo essas idéias ao personalizar sua motoca, você não terá problemas maiores, mas lembre-se que no Brasil, variam as regras de estado pra estado, então toda pesquisa antes de mandar o machado é válida! Muita gente costuma fazer modificações básicas, passar pelo Inmetro e depois de aprovado e documentado, modificar de maneira mais hardcore, e essa opção vai da conta e risco de cada um também. Se for fazer, se preocupe em ter notas fiscais de tudo que comprar e dos serviços prestados. Se for você mesmo quem vai mexer, existe uma declaração que será apresentada no Inmetro atestando isso. É chato? Muito, mas pelo menos você anda tranqüilo sem se preocupar em ser multado ou até mesmo ter a moto recolhida pela polícia.

Ciente de todos esses detalhes passei a pesquisar peças e itens de acabamento que encaixariam na idéia inicial que tive, montando na cabeça o que viria a ser meu projeto, tendo o cuidado pra não cair de forma alguma no Inmetro ou na mão de algum guarda com a caneta quente. De cara, adquiri um novo farol dianteiro (escolhi o mesmo usado nas Suzuki Intruder, por ser fácil de achar, simples de instalar e ter visual clássico), guidão, velocímetro, manoplas, manetes de freio/embreagem e um novo jogo de setas, todos universais e de modelo coringa, que dariam certo em qualquer estilo de customização, afinal, os originais estavam bem queimados e judiados do tempo (Zé Frisinho tá tendo um infarto agora). Encomendei as peças no Mercado Livre, e como a loja ia fazer uma revisão geral antes de me entregar, já pedi pra instalar as novas peças também.

Foi aí que começou um dos primeiros problemas. Todos esses itens são de instalação simples e supõe-se que em pouco tempo já estariam instalados, certo?!

Quase todo dia eu passava na loja pra ver como estava o andamento da instalação, que parecia não estar andando muito rápido, por causa de alguns problemas na instalação das novas setas (que eram de LED, e as originais usavam lâmpadas comuns e pra isso seria necessária alguma adaptação).

Uma semana das peças já entregues e nada ainda da moto estar pronta. Dia indo e vindo e a vontade de andar só aumentando. A data limite era uma sexta feira à tarde. Saí do trabalho às 17h, passei na loja e a moto ainda não estava pronta, pois faltava o manete de embreagem. Tive que esperar até as 18h pra que ficasse pronta de fato. Chave na mão, pé no pedal de partida e lá vou eu andar com a moto pela primeira vez (15 dias depois do previsto quando fechamos negócio), como se fosse uma criança andando de bicicleta pela primeira vez.

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Exemplo de como a moto se parecia originalmente, com guidão alto, painel e farol tijolão

O trajeto da loja até a primeira esquina devia ter uns 20 metros, e só nesse percurso deixei morrer umas cinco vezes até eu finalmente começar pegar o jeito da embreagem e acelerador. Tava praticamente aprendendo a pilotar de novo, depois de 5 anos (a última tinha sido no exame do Auto Escola, como havia dito na primeira parte). Saí da oficina e rodei com ela cerca de uma hora pela cidade (uns 40 foi só tentando fazer pegar de novo a cada esquina no pedal, já que a CG 87 não tem partida elétrica), com aquele sentimento de satisfação e felicidade. Era a primeira vez que sentia o vento no rosto, a sensação de liberdade viciante, que de cara me apaixonei e sabia que estava só começando.

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Detalhe pro novo farol e o novo velocímetro, que já deram uma aparência bem mais interessante pra motinha

No próximo texto contarei como foi o início de fato do projeto, junto de mais alguns contratempos que acabaram sendo essenciais pra concepção final da moto, e apresentarei as figuras que foram responsáveis em fazer tudo isso acontecer. Até lá!

Por Felipe Queiroz, Project Cars #379

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