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Project Cars Project Cars #409

Project Cars #409: a história da minha picape Ford F100

Olá, amigos gearheads. Vou começar contando um pouco de mim e o que levou ao meu Project Car, sei que é um projeto um pouco diferente do que estão habituados a verem no site.

Como qualquer criança dos anos 80 meu brinquedo preferido eram os carrinhos, muitos deles eram desmontados para ver o funcionamento (alguns não tiveram conserto depois por perda de peças ou outros motivos…), fui criado quase até os seis anos em um sítio e por isso o gosto por caminhonetes. Meu avô paterno tinha um caminhão Chevrolet 1951 apelidado de Inaia (quem é descendente de italianos sabe o significado do nome), esse caminhão era o mais tradicional, verde escuro, pára-lamas pretos, motor 6 cilindros a gasolina. Meu pai e meus tios aprenderam a dirigir nele, mas quando a propriedade foi vendida ele não tinha mais serventia e foi vendido a preço de banana terminando seus dias em uma carvoaria. Que triste destino.

Sempre fui uma criança um pouco diferente! Não gostava muito de programas infantis, preferia ouvir música, ler e desenhar, principalmente carros. Um dia meu irmão apareceu em casa com uma revista Quatro Rodas que tinha na capa o carro que era especulado para ser o substituto do Opala na época, o Opel Senator na capa de setembro de 1989, ainda bem que veio o Omega no seu lugar que é bem mais bonito. A partir desse dia juntava todo o dinheiro que ganhava para comprar a revista, nisso foi crescendo o interesse.

Nesse meio tempo um médico da minha cidade doou para a escola onde eu estudava, uma coleção de Auto Esporte e Quatro Rodas, desde o início dos anos 70, não é difícil saber o que eu fazia nos intervalos das aulas. No meio dessas revistas encontrei uma Auto Mecânica com uma F100 na capa, e eu tive a certeza de qual era o carro que eu queria, aquele desenho arredondado, motor V8, caçamba de madeira, mas com 12 anos de idade era só o sonho. Sempre via nos classificados algumas a venda mas ainda tinha um caminho bem longo pela frente, precisava estudar e trabalhar muito, então acabei não seguindo a engenharia mecânica sendo apenas um curioso,  mas sou engenheiro agrônomo, que é bem diferente mas acabo trabalhando com máquinas, pena que são bem mais lentas…

Agora vamos quase voltar ao assunto do projeto, em 1999 passei no vestibular e no primeiro dia de aula chego na faculdade um professor tinha uma F100 entre 59 e 61 preto para uso diário, descaracterizada mecanicamente com motor diesel que devia ser de trator mas achava muito legal.

Passaram-se os anos me formei, comecei a trabalhar, mas a vontade  de ter uma F100 não deixou de existir, sempre ficava na internet procurando, mas o dinheiro era curto e até conseguir um bom emprego e me estabilizar as prioridades eram outras.

Com muito trabalho consegui entrar na empresa que eu queria desde estudante, graças a Deus trabalho com o que eu gosto, já havia conseguido construir uma casa, tinha a caminhonete da empresa para uso a trabalho e particular, então decidi que era hora de ir atrás do sonho de criança.

Tentei comprar uma que tem na cidade que eu morava, mas descobri que era um Frankeinstein, chassi de F100 dos anos 70, motor de D20, e outras coisas mais, além disso o dono não queria vender no momento, então ficava durante a noite e aos finais de semana procurando anúncios na internet  junto com minha namorada na época atual esposa e mãe da nossa filha.

Fui selecionando os anúncios até que separei três do jeito que eu queria, motor V8 e câmbio na coluna, ano de 53 até 61. Liguei para os proprietários, todos no Rio Grande do Sul (conselho: se alguém quiser comprar carros antigos é o lugar), liguei para o meu chefe, pedi autorização pra viajar, comprei passagem, liguei pro meu pai pra ver se podia ir comigo de carro da nossa cidade no Paraná até Panambi, Gravataí e São Sebastião do Caí que era onde estavam as caminhonetes.

Saí de Campo Novo do Parecis onde morava, dirigi 400 km até Cuiabá, peguei o vôo até Londrina num sábado, domingo cedo eu e meu pai  pegamos a S10 e caímos na estrada,  900 km depois estávamos em Panambi. Chegamos no hotel a temperatura era de 1° e a ansiedade era grande para ver a primeira F100,  isso era junho de 2014, eu morando desde 2004 no Mato Grosso, então estava um pouco desacostumado com o frio. Segunda-feira de manhã fomos sair do hotel, a vista era bem bonita, aquela geada branquinha no jardim, e nada da S10 pegar, motor diesel pesado e a bateria não agüentou, resumo: dois caras que não conheciam ninguém, procurando bateria pra comprar em uma cidade estranha e duas horas perdidas.

F100 2014-06-04 às 11.21.21

Após a troca da bateria fomos para o estacionamento onde ela estava guardada para ver o estado em que a F100 se encontrava: pintura totalmente queimada, algumas batidas, carroceria de madeira, sem estepe, macaco, extintor, etc. Mas apesar da temperatura pegou na primeira tentativa, nada de óleo queimando, marcha lenta estável, mas suspensão e freios sem qualquer condições, parecia a bateria de uma escola de samba, mas mesmo assim gostei dela e achei que era promissora.

Então liguei para o proprietário da segunda caminhonete, que era um pouco mais cara, mas a que estava em melhores condições, nisso a decepção, ele havia vendido no sábado. Enquanto eu estava dentro do avião e não me avisou.

Mas paciência, tinha mais uma opção, então pegamos a estrada novamente. Dessa vez sentido a Gravataí, mais uns 300 km e chegamos em torno das 3 da tarde. Fui ver a F100 que havia restado. Ela estava em pior estado, painel com um furo pra radio, assoalho  e caçamba podres, bem mais cara e mais destruída, além disso o motor não quis pegar. Agradeci a atenção, e decidi ficar com a primeira.

 

Entramos na S10 e liguei imediamente para o dono da F100 de Panambi, a que eu havia visto pela manhã, conversamos um pouco, então me tornei o feliz proprietário de uma caminhonete de 53 anos. Que eu não fazia idéia do histórico de manutenção e que estava parada há dois anos, mas que eu era de terceiro dono contando comigo.

Voltamos para Panambi e fomos novamente para o hotel, terça pela manhã fui fazer a transferência bancária, e pegar o recibo, além de procurar uma cegonha pra transportar ela para o Mato Grosso, mas o preço era absurdo para um assalariado. Por muita sorte o dono do estacionamento em que ela estava guardada é muito gente boa e conhecia um senhor que iria viajar, dentro de uns 15 dias, para Jaciara/MT com um caminhão vazio para fazer a colheita de milho em uma fazenda que por coincidência era de um conhecido da minha namorada. Acertamos o frete, deixei o documento da F100,  levei apenas o recibo de venda assinado, voltamos para o Paraná, quarta-feira de manhã peguei o avião em Londrina e voltei ao trabalho.

Mas como os dias eram longos até a chegada da F100, a ansiedade lá em cima, enquanto isso eu ia tentando arrumar frete de Jaciara até Campo Novo do Parecis. Como eu locava todo ano um caminhão guincho pra transportar as máquinas da empresa para plantio e colheita, acabei fazendo amizade com o dono do guincho que trabalhava pra mim, e ele  me arrumou um frete de volta mais barato. Enquanto isso fui nos dois melhores funileiros da cidade,  e vi qual se encaixava melhor no tipo de serviço que eu queria que fosse feito e fiquei aguardando a chegada da sonhada F100 V8.

Capô

Se passaram mais de 30 dias e nada da caminhonete chegar. Como o recibo estava assinado em meu nome e não tinha a F100 pra fazer a vistoria, isso me gerou uma multa. Mas então ela chegou, desceu no pátio e fui ver como estava, levei no funileiro para ele dar uma olhada, e segundo ele tinha bastante serviço de baixo custo (pra não dizer porco), e muita coisa para ser feita.

Agora era a hora de começar o trabalho, o plano inicial era fazer aos poucos, mas como sou ansioso, não agüentei e começou logo o desmonte, ao mesmo tempo comecei a caça às peças. Muita pesquisa na internet, na época a vontade era fazer um projeto para placa preta, mas não fazia idéia do carro que eu tinha comprado, nem do trabalho que dá encontrar as peças necessárias, não sabia a diferença entre um motor Y-Block e um Windsor , não sabia o preço dos acabamentos que estavam ruins e que não seriam recuperados.

Durante o processo mudei de idéia algumas vezes, em relação a cor e estilo que seria feita, muitas vezes tinha que escutar educadamente os palpiteiros do dinheiro alheio dando opinião totalmente sem noção, mas o prazer de conhecer pessoas do meio, pesquisar e aprender sobre ela não tem preço. Importei varias  peças que não encontrei no Brasil ou que quando encontrava eram muito caras, apesar de ser estuprado pela receita federal, ainda saia mais em conta que comprar aqui, e sem contar o prazer da procura, para mim isso como uma válvula de escape dos problemas do dia-a-dia.

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Então ela se tornou amontoado de peças de um quebra-cabeças bem grande, mas isso é assunto para o próximo post.

Por Marco Aurélio G. Peres, Project Cars #409

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