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Project Cars Project Cars #181

Project Cars Bikes: a história da minha Harley-Davidson Sportster 883R preparada para cair na estrada

Olá pessoal. Primeiramente, é uma honra ter sido selecionado para essa temporada de Project Cars, ainda que o meu não seja um carro, e sim uma moto. Meu nome é Ubiratã, moro em Brasília/DF, tenho 37 anos, sou servidor público federal, e a moto apresentada é uma Harley-Davidson Sportster 883R, ano/modelo 2009. Por favor, me chamem de Bira, só quem me chama pelo nome é meu pai.

Ao contrário do que possam imaginar, eu não tenho moto “no sangue” desde sempre. Meus pais nunca gostaram de motocicleta, e tirando uma prima que andava de XL 250 nos anos 80 (e que hoje não anda mais de moto), não há outros motoqueiros/motociclistas (não gosto dessa distinção existente no meio, pra mim é tudo a mesma coisa, e eu me intitulo “motoqueiro”, ou como dizem alguns amigos meus, “biker”) na minha família. Para ser absolutamente sincero, eu detestava motocicletas quando garoto. Não via a menor graça. Era daqueles meninos que adorava ganhar carrinho, mas que se ganhasse uma moto de brinquedo, ia direto pra caixinha de brinquedos para doação.  O máximo que eu me aproximava de “gostar de motos” quando pequeno era andar de bicicleta, colocando pedaços de copos descartáveis nos raios pra fazer barulho (quem nunca fez isso?).

Aos 18 anos, em dezembro de 1995, tirei minha habilitação e ganhei meu primeiro carro, um Escort GL 1987 CHT a álcool, que estava na família desde zero km.  O carro era totalmente original e assim foi mantido por mim durante os oito meses em que eu o usei.

Em seguida, veio um Verona LX 1.6 (também herdado do meu pai que havia acabado de comprar um carro mais novo) azul metálico claro, ano 1992. Foi com esse carro que comecei, então, a mexer com alguma coisa de personalização e som automotivo. Nessa época, cheguei a ter um site sobre som automotivo na GeoCities (quem lembra da GeoCities?) , e o carro ganhou, além do som, um jogo de rodas do XR3 2.0.

Tive em seguida outro Escort, um modelo L ano 1994, também herdado do meu pai, que o havia pego fazia seis meses em um negócio, e depois um Tipo 1.6 i.e. ano 1995, preto, quatro portas, com o qual fiquei dois anos. Nessa época criei o site Tipo.net (o conteúdo do site foi depois cedido para os fundadores do Clube do Tipo). Em seguida, tive mais alguns carros, quase sempre mexendo alguma coisa aqui, outra ali, mas nada de performance. Sempre fui muito ligado no visual e na funcionalidade.

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Em 2004, ocorreu o episódio que me fez desistir de vez de mexer em carros. Já havia sofrido alguns furtos no passado, mas nenhum me deu tanta dor de cabeça como este.  Bom, quem conhece Brasília/DF, sabe que para você sair de carro para um boteco ou balada, tem que contar com a sorte, já que nos locais onde se concentra esse tipo de estabelecimento simplesmente não existe a opção de estacionamento pago em local seguro por conta das características urbanísticas da cidade, que vedam a construção de garagens subterrâneas comerciais próximas às áreas residenciais. Meu Celta 1.4 foi arrombado. Ao chegar ao carro encontrei o porta-malas aberto, a porta furada e amassada. Levaram tudo de dentro do carro: o som instalado, as peças que estavam no porta-malas, o estepe, objetos pessoais etc. Só não levaram as rodas Binno B-1000 de 17 polegadas porque não acharam o cachimbo do parafuso anti-furto.

Pior: isso aconteceu às quatro da manhã, e não dava nem pra dirigir o carro, pois cortaram a fiação da bateria para inutilizar o alarme (uma prática comum nos Celtas). Ou seja: não bastou me roubarem e estragarem o carro todo no processo, ainda tive uma tremenda aporrinhação e perdi mais umas três ou quatro horas (no meio da noite) pra rebocar o carro para a oficina, fazer a ocorrência policial e ir para casa.

Depois dessa, desmontei todos os acessórios que restavam no carro (rodas, escape, kit de admissão), vendi tudo a preço de banana e deixei o carro totalmente original, e assim ficaram todos os carros que tive depois dele (Civic 2002 automático, Xsara Picasso, Sandero GT Line e agora um March 1.6 SV). Havia definitivamente jogado a toalha e perdido completamente qualquer  “tesão” pelos carros personalizados. Essa fase da minha vida passava a ser apenas uma lembrança do passado.

Como as motos entraram na minha vida? Eu já havia, no passado, pensado em tirar carta de moto, mas não por gostar de moto, eu pensava em comprar uma scooterzinha para economizar gasolina, já que até 2003 eu não ganhava exatamente bem e vivia no aperto.  Mas nunca levei a idéia adiante, tanto por medo, quanto por falta de apoio de todos à minha volta (pai, mãe, namorada, família da namorada, amigos nerds que achavam que  moto era coisa de maluco etc), que consideravam a idéia absurda porque tinham medo que eu me matasse na moto.

Em 2005, houve uma reviravolta na minha vida. Estava com 28 anos e já tinha começado a adquirir algum juízo. Fui promovido no órgão onde trabalho e estava ganhando um pouco melhor, me permitindo ter um pouco mais de conforto. Estava dirigindo com mais cautela, com mais preocupação com minha própria vida e a alheia. A namorada antiga tinha ido embora e tinha aparecido outra (com quem estou casado e feliz já há oito anos). Tudo mudava para a melhor. Estava fazendo um cursinho preparatório para concursos e encontrei um amigo que já não via fazia algum tempo, o Nelson, que era da mesma turma de “loucos por carros” que eu frequentava em 2001, o grupo de discussão Racecars no Yahoo! Grupos. Batendo papo, ele também comentou que tinha largado mão dos carros e estava andando de moto com uma turma legal e que outro dos nossos velhos amigos do Racecars Brasília também estava nessa turma. Alguns outros conhecidos que também andavam de moto me falavam do quanto era legal, do quanto era gostoso e divertido pilotar uma moto, principalmente para passear em turma e na estrada, e que não se deve criticar as motos sem pelo menos experimentar antes.

Isso me fez pensar, já que eu nunca tinha subido numa moto na vida mas sempre tive curiosidade sobre aquele meio. Então tomei a decisão: vou aprender a andar, compro uma moto baratinha pra não perder muito dinheiro, e se eu achar que é minha praia, vai virar meu hobby. Se eu não gostar, bem… vendo a moto e valeu pela experiência. Ao menos terei tentado.

No começo de 2006 entrei para a moto-escola, totalmente “virgem” de motos, pra aprender tudo errado já que eles só ensinam a passar no exame.  Tive que pedir ao instrutor “pelo amor de Deus me diz como passa marcha nessa bagaça, porque eu nunca andei de moto antes de vir para essas aulas” (o normal era o povo chegar na moto-escola já sabendo pilotar e pegar aulas apenas para pegar os macetes para passar no exame). Com um pouco de má-vontade, o instrutor me explicou o famoso processo da “primeira pra baixo, as demais pra cima”. Mas não entrou nos detalhes mais importantes, como dosar os dois freios e coisa do gênero, que tive que aprender sozinho na vivência depois.

Tirada a carta, comprei minha primeira motocicleta (escondido dos pais mas com a bênção da minha então noiva): uma Suzuki Intruder 250, ano 1998, que me custou R$ 5.500 e foi um verdadeiro achado. Eu queria uma moto estilo “cruiser” por ser mais baixa e mais fácil para iniciantes, e principalmente por não ser confundida com moto de trabalho. Não teve jeito: tomei gosto pelas duas rodas e elas viraram mais que um hobby. Ter uma moto virou paixão, virou estilo de vida.

intruder_250

Depois da Intruder, tive motos de vários estilos (só não tive esportivas, porque realmente não curto as características de pilotagem delas, que exigem giro alto o tempo todo e posição de pilotagem “racer”).

burgman_400

Tive uma big scooter, uma Burgman 400 da Suzuki (que ficou um eano e meio na minha mão). Em seguida, tive três trails: uma Honda Tornado 250 e uma Falcon, seguida por uma XTZ 125 da Yamaha que peguei na troca da Falcon. Em paralelo, enquanto não vendia a 125, comprei uma big naked, uma Bandit 1200N 2006, com a qual fiquei dois anos, e vendi o Civic para um amigo, pegando uma XT 600E 1998 na troca. Ou seja: o maluco aqui chegou a ter três  motos ao mesmo tempo.

bandit_1200n

Vendi a Bandit por necessidade, pegando uma Fazer 250 no negócio, mas rapidamente a vendi e fiquei um tempinho sem moto).  Em 2011, depois de vender a Fazer, fiquei um tempo sem moto (motos eram minha diversão principal), aí minha mãe faleceu repentinamente, e eu precisava de algo pra ocupar a cabeça, e resolvi executar meu primeiro projeto: comprei uma Sahara 350 em “estado de ferro velho” para restaurar. O antes e o depois vocês vêm nas fotos a seguir (sim, é a mesma moto).

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Ficando pronta a Sahara, passou a ser minha moto de uso diário, mas comecei a ficar muito abusado naquela trail (ignorando buracos, pulando lombadas, as trails dão margem pra isso) e achei melhor vendê-la (consegui pagar a despesa da restauração, mas não ganhei nada além disso) para pegar algo que me fizesse maneirar a mão (ou seja, voltar para as cruisers), pegando uma  Mirage 250 da Kasinski, que foi totalmente customizada (mas de forma totalmente reversível).

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Tomei gosto pelas cruiser e falei: “agora só saio dessa aqui para uma Harley… nem que seja uma Sportster”.  Um ano depois de pegar a Mirage fui contemplado no consórcio que estava pagando com essa finalidade. Com a carta de crédito de um Fiat Mille zero km peguei minha moto atual, a Sportster 883R ano 2009, a peça central deste Project Cars!

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A Sportster 883 ainda original

 

A compra

A história da compra da moto foi interessantíssima. Eu já estava de olho nela fazia um tempão num site de classificados de motos. Ela era de uma cor que nem todo mundo gosta mas que eu curto bastante e acho que fica muito bem nas Harley: H-D Orange, um laranja que parece sólido, mas revela o perolizado da pintura sob luz direta.

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Na minha opinião, Harley , se não for preta tem que ser laranja. Além disso ela vinha recheada de excelentes acessórios, alguns de performance, como o enriquecedor de mistura Suricato e o filtro de ar esportivo Figure Machines com elemento K&N; outros raríssimos no Brasil, como o painel digital da marca Dakota Digital e o assento solo da Roland Sands; e outros originais H-D bem caros, como o escapamento esportivo Screaming Eagle, as pedaleiras originais H-D, o marcador de combustível digital e a lanterna traseira de LED.

Pra completar, era pouco rodada, com apenas 8.000km. Não é raro ver esse tipo de moto usada pouco rodada, mas juntando tudo — a baixa quilometragem, a quantidade de acessórios, a cor e modelo que eu queria, e ainda na minha cidade — era a moto perfeita. O único problema é que estava muito cara: o dono pedia R$ 25.000, e o preço médio delas variava entre R$ 21.500 e R$ 22.000. Imaginem minha surpresa ao descobrir que, na mesma semana em que eu tinha sido contemplado numa carta de R$ 23.500 o dono resolveu baixar o preço da moto para R$ 22.000.

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Fechamos o negócio, ele me voltou o troco da carta de crédito, e me entregou todas as peças originais da moto embrulhadas em panos para não arranhar,  um guidão “mini ape hanger” de oito polegadas de altura (que ele havia comprado mas não tinha instalado) e um manual de serviços da Sportster da editora Clymer, que se provou muito útil na minha vida como dono de Harley. Esses acessórios todos que vieram na moto custariam uns R$ 4.000 se os tivesse comprado separado, trazendo dos EUA. Ou seja: na prática a moto saiu mesmo por R$ 18.000.

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Logo após a compra levei a moto ao mecânico para instalar o guidão e fazer uma revisão. Foi quando a encrenca começou… mas isso é um assunto para o próximo post. Até lá!

Por Bira Muniz, Project Cars #181

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