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Quando a Dacia transformou o Duster em um carro de corrida – duas vezes

Você deve ter visto o Dacia Sandero de rali sobre o qual falamos há pouco aqui no FlatOut – um monstrinho com tração integral e um motor 1.6 turbo de 270 cv que está pronto para disputar a categoria R4 do WRC no ano que vem. Mas o Sandero não foi o único carro feito sobre a plataforma B0 da Renault-Nissan a ser preparado para competições: há cerca de dez anos, a Dacia transformou o Duster, nosso velho conhecido, em um carro de corrida. Na verdade, em dois carros de corrida: um para provas sobre o gelo, e outro para subir a famosa montanha de Pikes Peak, no Colorado.

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Não é difícil entender a motivação. Embora seja um carro maior e mais pesado que o Sandero, o Dacia/Renault Duster compartilha com ele diversos elementos – incluindo a origem na plataforma B da Nissan, utilizada desde 2002 para diversos modelos: Nissan March, Renault Captur, três gerações do Renault Clio (II, III e IV). A versão da Dacia, com entre-eixo mais longo e construção simplificada, é aproveitada no Sandero, no Logan e no Duster, além do Renault Captur vendido no Brasil.

Assim, em 2010 a Dacia decidiu colocar a Duster para participar do Trophée Andros, campeonato nacional francês de corridas no gelo – instalando nele um belo motor V6 de 360 cv.

Um pouco de contexto: o Trophée Andros foi criado no fim da década de 1980 por Max Mamers, campeão francês de rallycross em 1982 e 1983. Em 1985, Mamers conheceu Frédéric Gervoson, que era fã de automobilismo e acompanhava a carreira do piloto. No inverno daquele ano, a dupla reuniu outros amigos para disputar corridas sobre o gelo, iniciando uma pequena tradição.

Não demorou muito tempo para que a brincadeira ficasse mais séria. Foi Mamers quem teve a ideia de transformar seu hobby em uma competição organizada, enquanto Gervoson encarregou-se de financiar a empreitada através de sua companhia – ele era dono da Andros, fabricante de geleias, compotas e outros alimentos em conservas. Nasceu, assim, o Trophée Andros, cuja primeira edição foi realizada em 1990. Em 1992, a série já contava com sete provas e, em 2003, foi incluída a primeira etapa internacional, no Canadá.

Um dos nomes mais proeminentes da história do Trophée Andros é o de Alain Prost. O tetracampeão de Fórmula 1 aposentou-se da maior categoria do automobilismo em 1993 (ano de seu último título, conquistado pela Williams), mas não afastou-se das pistas: em 1997 ele assumiu o comando da equipe Ligier, rebatizada Prost Grand Prix, a qual comandou até 2002.

A Prost revelou alguns nomes relevantes na Fórmula 1, como Jarno Trulli e Nick Heidfeld, e até conseguiu acumular três pódios, mas teve sua trajetória marcada por problemas técnicos e financeiros, encerrando suas atividades ao fim da temporada de 2002. Desiludido, Prost decidiu voltar para o volante – mas, desta vez, participando de corridas no gelo em sua terra natal a partir de 2003. E ele foi muito bem sucedido no Trophée Andros: o na temporada de 2006/2007, ele foi campeão pilotando pela Toyota. No fim de 2009, Prost foi contratado pela Dacia – ao mesmo tempo em que a fabricante anunciava a entrada do Duster no campeonato, começando no ano seguinte.

Verdade seja dita, porém: o Duster que corria no gelo não utilizava o monobloco original – em vez disso, foi construído um chassi tubular que, por sua vez, vestia uma carroceria de fibra de vidro com as linhas do Duster. Por mais que isto seja meio que “trapaça” no contexto deste post, era uma exigência do regulamento, e permitia um carro completamente distinto do Duster de rua.

Para começar, o motor era um V6 de três litros VQ30, emprestado da Nissan, com comando duplo no cabeçote e preparação para entregar 350 cv a 7.500 rpm e 36,7 kgfm de torque a 5.500 rpm. A força do motor central-traseiro era levada para as quatro rodas através de uma caixa sequencial Sadev, de seis marchas.

Pesando 950 kg, o Duster que competiu no Trophée Andros ainda tinha suspensão por braços triangulares sobrepostos nos quatro cantos, rodas de 16×5,5 polegadas com pneus Continental, e freios com discos de 260 mm na frente e 265 mm atrás. Além disso, o entre-eixos era de 2.500 mm – 173 mm a menos que a versão de rua.

Em sua estreia, na temporada de 2010/2011, o Duster de Alain Prost ficou em segundo lugar no campeonato, atrás do Skoda Fabia conduzido por Jean-Philippe Dayraut. Aquela, porém, foi a última participação da Duster no Trophée Andros – a partir da temporada de 2011/2012, a Dacia passou a competir com uma versão especial da minivan Lodgy, com a qual Prost conquistou o título da edição 2012/2013.

Paralelamente, porém, a Dacia decidiu aproveitar que já estava com parte do trabalho feito e, em 2011, decidiu levar o Duster para um lugar totalmente diferente: a colina de Pikes Peak, no estado do Colorado. Naquele ano, o Duster participou da competição na categoria Unlimited, de topo, em uma variante ainda mais extrema, apropriadamente batizada “No Limit”.

O chassi tubular e parte da carroceria empregados no Trophy Andros foram mantidos, bem como o esquema de suspensão. Contudo, o motor era outro – a Dacia aproveitou a conexão da Renault com a Nissan e pegou emprestado o VR38DETT do GT-R, novamente em posição central-traseira e preparado para entregar nada menos que 850 cv e 91,8 kgfm de torque. Novamente a transmissão ficava por conta de uma caixa sequencial da Sadev, de seis marchas.

Com acerto de suspensão específico para Pies Peak e os aparatos aerodinâmicos característicos da categoria Unlimited, o Duster usava rodas de 18 polegadas com pneus Pirelli e freios com discos de 353 mm.

O Duster No Limit competiu em Pikes Peak no último ano em que a subida contou com trechos de terra batida – a partir de 2012, o percurso de 20 km passou a ser completamente asfaltado, o que reduziu consideravelmente os tempos obtidos pelos participantes.

O carro franco-romeno chegou ao topo em 10min17s707, ficando em terceiro lugar na classificação geral com Jean-Philippe Dayraut – que, como vimos mais acima, já havia pilotado no Trophy Andros. Naquele ano, o vencedor foi Nobuhiro “Monster” Tajima, que fez 9min51s278.

No ano seguinte, o Duster No Limit retornou a Pikes Peak com Dayraut ao volante, mas o francês não conseguiu chegar ao fim da prova.

Sugestão de Rodrigo Leite

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