O motor soava toda sua cacofonia a diesel enquanto a última fração de seus sessenta e quatro cavalos-vapor eram espremidas pelo meu pé direito cravado ao fundo. A gravidade ajudava, uma longa descida de baixa inclinação ladeada por pinheiros altos, que pareciam estar ali há séculos, muito antes daquela comprida faixa preta de estrada ser colocada ali por funcionários vestindo suásticas. O rádio captava uma rádio americana; mesmo mais de 50 anos depois da guerra, e sete anos depois da queda do muro que separava Berlin em duas cidades, tropas e bases americanas estrategicamente espalhadas pelo país permitiam uma travessia da Alemanha de carro ouvindo rádios em inglês, com sotaque forte de Michigan.
Sim, estava numa autobahn, cruzando a Alemanha o mais rápido que podia, completamente sozinho, rumo a um templo sagrado para aqueles de nosso credo: o Nürburgring Nordschleife. Mas não o de hoje, mundialmente conhecido, e com alguma infraestrutura (apesar de ainda estar localizado num fim-de-mundo lá no meio da floresta das montanhas Eifel): corria o ano de 1997, e aquilo era um remoto circuito antigo esquecido, algo conhecido apenas por gente iniciada, que lia revistas especializadas e conhecia o nome de pelo menos umas três ou quatro das 154 curvas do Inferno Verde.

Não estava na Alemanha para isso. Pouco tempo antes, tinha sido contratado por uma companhia alemã de processamento de termoplásticos por causa de minha experiência na indústria automobilística, e assim me tornara um fornecedor de peças injetadas e estrudadas para automóveis. A empresa criava peças em plástico de todo tipo imaginável, não só para automóveis: para construção civil, equipamentos médicos (injetados na sala de injeção plástica mais limpa que já vi na vida), e produtos caseiros como baldes e mangueiras de jardim. As mangueiras de jardim eram tão populares na Alemanha que em alguns lugares, o nome da empresa era sinônimo delas, como Gillette para lâminas de barbear.
No Brasil, a divisão de produtos automobilísticos estava começando, e eu era efetivamente toda a sua engenharia. Por isso, a empresa me mandou passar três meses na sede, numa cidadezinha na Baviera, pertinho da fronteira com a República Tcheca. Um fim de mundo, mas onde um batalhão de 300 engenheiros da divisão automobilística me ensinaria como era o negócio. Fui muito animado e motivado claro; mas seria uma decepção. O povo daquela cidade e daquela empresa me tratou como um alienígena — e um com uma doença contagiosa perigosa, mantendo distância segura. Posso dizer, sem medo de errar, que aprendi nada ali, a não ser como tratar mal estrangeiros visitantes. E pior: se ninguém me ensinava nada tinha nada a fazer. Alguns dias olhei longamente para meu cartão de crédito pensando em pegar um trem até Stuttgart, chegar no balcão da Varig e comprar uma passagem de volta. Foi realmente uma experiência profissional, e pessoal, das piores.

E estávamos em 1997. Hoje parece a idade da pedra: existiam telefones celulares, mas eram raros, caros e não saíam de seu país de origem. Computadores existiam, mas não eram comuns em escritórios em geral, normalmente apenas um deles era de uso comum de pelo menos 10 pessoas. Internet também já existia, mas nunca tinha visto de perto, nem sabia para o que servia. Se quisesse descobrir onde ir aos fins de semana, tinha que apelar para guias turísticos e um arcaico sistema de navegação analógico chamado “mapa”.
E é por isso que estava ali naquele Golf diesel básico, emprestado pela frota de vendas de equipamentos de jardinagem da companhia, branco e com a faixa colorida e marca da empresa na lateral, cruzando o país rumo as montanhas Eifel na manhã de sábado de 26 de julho de 1997. Cruzando o país literalmente: a cidadezinha onde estava ficava a 517 km de Nürburgring. A antiga pista era o lugar que mais queria conhecer na Alemanha, e depois de duas semanas numa cidade de oito mil habitantes em que os nativos trocavam de calçada ao me ver chegando, resolvi ir até lá. Era, pelo menos, bem longe daquele lugar.

O carro impedia qualquer noção de uma épica viagem a alta velocidade pela autobahn sem restrição de velocidade, mas isto, claro, não me impediu de tentar. O acelerador daquele pobre Golf foi tratado como um botão liga-desliga o fim de semana inteiro. Não que isso desse muito resultado: embora hoje pesquisando tenha descoberto uma velocidade máxima declarada de 156 km/h para os Golf Mk3 com este motor diesel de 1,9 litro sem turbo, nunca consegui passar de 140 no velocímetro. Em descida. E ao fazer isso, o pobre motor ativamente tentava suicídio, se chacoalhando com todas as suas forças, tentando se livrar das amarras dos coxins, efetivamente pedindo para pular para fora de um veículo a alta velocidade, rumo à morte certa.
Em cima do porta-luvas do Golf, um adesivo da empresa avisava, em alemão: “Este veículo não está segurado para velocidades acima de 120km/h”. Pelo menos, pensei, meus conhecimentos pífios da língua serviriam para algo: podia dizer que não entendi aquilo. Mas por vias das dúvidas me mantive sempre o mais rápido que podia: se acontecesse algo, melhor que resultasse numa morte gloriosa numa imensa bola de fogo abastecida por óleo diesel, visível de fora do planeta. “Morreu tentando chegar ao Nürburgring Nordschleife o mais rápido possível” não é um epitáfio ruim, afinal de contas.
A cidade de Nürburg
O que dizer do que senti, ao chegar naquele vilarejo perdido em montanhas verdes saídas de um conto de fadas, aparentemente isolado do resto do mundo? Parecia que literalmente tinha morrido e chegado ao céu. Foi como encontrar minha casa: até ali nunca tinha conhecido ninguém tão obcecado por automóveis quanto eu mesmo, naqueles tempos antes de redes sociais e amigos remotos. Ali, parecia que todo mundo era obcecado por automóvel. O ar que se respira em Nürburgring tem 99 octanas.

Foi algo totalmente surreal, ainda mais pelo fato de estar sozinho e não falar alemão: parecia um espectador, um espectro pairando sobre o que acontecia ali, sem ser perturbado, e sem ter companhia para conversar sobre aquilo. Viajar sozinho não é sempre legal, mas as vezes, vale a pena.
Meu primeiro indício do que viria adiante foi já em um posto de gasolina chegando ao circuito. Uma turma de jovens com vários Polo velhinhos, obviamente acertados para pista, e todos eles com o traçado do circuito impresso no capô: algum tipo de clube de algum lugar próximo. Motos esportivas modernas também começaram a passar voando pelo Golf, seus ocupantes de capacete e body-suit , parecendo Power-Rangers correndo esbaforidos para salvar Tóquio.

Mas nada te prepara para o circuito, e o ambiente à sua volta. Nürburg, onde fica o castelo, é minúscula, uma vila de menos de 200 habitantes. O circuito, imenso, com mais de 20 km de extensão, passa por várias cidadezinhas, as principais Quiddeelbach e Adenau. Anda-se em estradinhas por ali, cruzando o circuito aqui e ali. Indo para Adenau, paro em Quiddeelbach para uma foto: em frente a uma casa, um Kadett C (nosso Chevette) obviamente acertado para pista, na frente de um Seven. Em meio aquele plano campo de trigo, parecia realmente que tinha morrido e chego ao paraíso.

Lá em cima, perto de onde ficava a Zakspeed (ahhhh, Zakspeed, oooohhh), um monte de carro clássico: Porsche 356C de verdade, não Envemo, e aos montes! Um Opel Admiral conversível! MGA! Minha cabeça brasileira até então isolada no terceiro mundo deu um duplo carpado reverso.
Em Adenau, estaciono e vou andar um pouco: cruzo com um casal recém-casado saindo da igreja, em festa, para entrar num Lotus Elise amarelo, com direção à direita. Ao me aproximar, escuto conversas em inglês britânico: vieram da ilha se casar em Adenau, à sombra do circuito. Por todo lugar ali em volta da pista, se falava inglês, e as pessoas eram simpáticas e prestativas; que diferença do resto da minha experiência alemã!

O circuito tem uma ponte por cima da rua principal de Adenau, e ali era onde se entrava no circuito em 1997. Pagava-se apenas uma taxa, e se entrava: tudo era permitido, capacetes não eram requeridos, e nenhuma vistoria era feita: gente entrava de SUV rebocando trailer, literalmente. O garçom do bar em frente a entrada, onde almocei, me explicou: o Nürburgring é tecnicamente uma estrada, e a entrada, pedágio. O que vale para aqui fora, vale lá dentro: todo mundo pode entrar. Nem carteira de motorista era checada.
O lugar todo parecia uma ilha de liberdade em um país extremamente civilizado, mas que também, por causa disso, é incrivelmente chato. Ali, os alemães, e os turistas, estão todos à sua própria responsabilidade, conta e risco: ninguém cobra nada, ninguém policia nada, ninguém põe regra alguma. Era libertador, uma lufada de ar fresco para todos ali. Não vi um guarda ali no fim de semana inteiro.

Ali em cima da ponte de Adenau tinha uma “arquibancada”; na verdade uma escada levava do bar ao barranco, e no barranco a maioria do povo ficava olhando o pessoal andando na pista. Fiquei por ali assistindo também, por um tempo. O mais legal que vi naquele dia foi uma VW T2, a Kombi de segunda geração, obviamente com um motor Porsche pelo barulho, e baixa, com pneus enormes, perseguindo Porsches 911. Olhar aquele tijolão colado na traseira dos super-esportivos, e até os passando, foi demais. A turma no barranco fazia a ola quando ela passava, toda volta.
O circuito fechou por algum tempo, e assim me sentei no bar em frente à entrada, bem debaixo da ponte de Adenau, para o almoço. Comi um belo Kassler e depois dele, fiquei ali sentado, tomando um café e fumando um cigarrinho, enquanto observava o movimento.

E no tal barzinho em frente à entrada, todo mundo estava bebendo cerveja a vontade. Todo mundo ali obviamente estava dirigindo, mas isso não parecia importar. Parece estranho hoje, mas era como éramos então. Os alemães então, nem se fala: cerveja era comprada no chão das fábricas, geladinhas, durante o expediente, em máquinas do tipo que aqui despejam latas de refrigerante. Ao perguntar se não tinha problemas com gente bêbada no serviço, me responderam: “Como assim? É só cerveja! Ninguém fica bêbado com cerveja só, precisa de schnapps junto. A gente dá para criança isso. Pão líquido!”
Mas voltando ao meu cigarrinho depois do almoço (não fumo regularmente desde 1999; tudo mudou mesmo), de repente, começa um movimento danado no bar. Todo mundo começa a se levantar, pedir conta, sair. Os motoqueiros colocam as roupas e capacetes. Em poucos minutos, o bar está vazio, só eu sentado ainda, e uma fila se forma na entrada do circuito: “a pista abriu”, era o que todos diziam em alemão.

O que se apresentava então para mim era um dilema. Estava em Nürburgring, e tinha um carro estacionado ali perto. Sim, Golf diesel é também classificado como “carro”, seus engraçadinhos. Mas obviamente era algo verboten: se o carro não era nem segurado a mais de 120 km/h, quiçá em pista. Mas se o ‘Ring é uma estrada fechada, é só manter-me a menos de 120… A quem você está tentando enganar, meu? Se você entrar ali vai andar no que der! Mas o risco era grande: algum alemão maldito podia tirar uma foto e mandar para a conhecida empresa, e estaria perdido, mesmo se o exercício não acabasse na proverbial bola de fogo.
Um milhão de motivos para continuar fumando um cigarrinho ali no bar passaram pela minha cabeça, e me agitava sozinho na cadeira ali, sem saber o que fazer, sentimentos diversos colidindo em conflito em minha mente, enquanto minhas pernas e corpo, embora ainda sentados na cadeira, faziam uma convincente imitação do urso Colimério. O que fazer?

Mas de repente, a mente clareou como se por intervenção divina. Estava sozinho, com um carro, em Nürburgring. Os portões do Nordschleife estavam literalmente na minha frente, e tinha a carteira cheia de marcos prontos para comprar algumas voltas. Quando isso vai acontecer de novo? Levantei-me resoluto em direção ao Golf. Mesmo se der tudo errado e eu acabar que nem Niki Lauda com orelhas fritas, um pouco adiante do Flugplatz, vai valer a pena.
Então eu fui. Dei umas cinco ou seis voltas no imenso circuito sagrado. De Golf Diesel com sessenta e quatro cavalos vapor, branco e com a marca da empresa de mangueira de jardim nas portas, feito um Uno da Telemar versão germânica. Colando o acelerador ao fundo sem tirar o tempo todo, quase. Uma verdadeira chicane ambulante, não só para os Porsche e as BMW, mas também para os Kadett, Polo e Golf da molecada local, que me passavam de vez em quando feito um enxame de abelhas furiosas, e sumiam adiante, um passando o outro num balé hipnotizante.

Minhas voltas obviamente foram sem eventos, eu dando o que tinha, a velocidade (se é que aquilo pode ser chamado assim) em curvas meio que debelada mais pelo subesterço quicante do flácido veículo, que pelos freios propriamente ditos. Seria algo totalmente sem nada de mais para contar a não ser o prazer de conhecer aquele solo sagrado, se não fosse uma coisa: o carro de firma. Obviamente os alemães reconheceram o carro da empresa de mangueira de jardim, e adoraram. Na segunda volta, o povo do barranco em Adenau já estava fazendo a ola para mim! Que emoção!
Nada de errado aconteceu no fim, não morri nenhuma vez, bolas de fogo não apareceram em satélite algum, ninguém mandou foto ou reclamação para a empresa. Nem sei qual foi meu tempo, e francamente, não me importo. Foi um passeio memorável. Depois dele as coisas até melhoraram em minha estada na Alemanha: um inglês entusiasta veio fazer o mesmo treinamento que eu, ficamos amigos. Voltamos ao Nürburgring, desta vez para ver o Oltimer Grand Prix, quando o circo europeu do carro antigo estava lá, com magníficas barracas de peças, livros, revistas, e mais um monte de coisa legal, mas com a pista fechada para os mortais.

Depois ganhei uma perua Mondeo e, com ela, fui passar o último mês na filial francesa, em Metz, uma linda cidade cosmopolita e à beira de um rio. Não podia ser mais diferente: mulheres seminuas na piscina do hotel, gente alegre e simpática, almoços franceses de duas horas e meia seguidos de siesta. Como dois países tão próximos podem ser tão diferentes? O delicioso caos controlado da França me fez um bem danado.

Mas ordem e controle germânicos também têm suas vantagens. As fotos que posto aqui são de baixíssima qualidade, mas não existiriam sem a eficiência alemã. Na cidade de Hof, passeando, um moleque me roubou a câmera fotográfica, que estava pendurada na mão, com as fotos do Nürburgring. Lembrem, fotos eram físicas, precisavam de câmera, e não havia celular. Por isso, minha segunda visita ao circuito não tem fotos. Mas alguns meses depois, já no Brasil, recebo a câmera na empresa, junto com as fotos todas reveladas, minúsculas, numa folha A4. A polícia de Hof achou a câmera, revelou as fotos, que os levou a empresa. Deixaram as fotos e a câmera na empresa, que enviou para Herr Olivêirrra no Brasil. É mole?

Olha como são as coisas: quase de 20 anos depois, o Juliano Barata, ao visitar o inferno verde, tirou uma foto de um BMW no mesmo lugar que tirei a do Golf, em Nürburg, em frente a um restaurante onde ambos comemos pizza, separados por alguns anos. Existe algo de eterno naquele lugar. Nos dois hotéis que fiquei, fotos de pilotos famosos de 10, 20, 50, 60 anos atrás adornavam as paredes. É um lugar onde se respira um ar diferente, um misto de gasolina, óleo, liberdade e Kirschwasser que nunca mais encontrei em lugar algum.

E numa coisa estava certo: nunca mais voltei para Nürburgring depois daquela viagem. Já pensou se tivesse desistido de andar? Arrependimento pode não matar, mas certamente ainda hoje, tanto tempo depois, ainda ia doer!


