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Pensatas

Uma modesta proposta – para resolver de uma vez por todas o problema da faixa da esquerda


É motivo de melancolia, para aqueles que se deslocam por nossas grandes cidades ou que viajam pelas longas estradas deste país, verem motoristas pela faixa da esquerda, seguidos por uma série de cinco, seis ou oito carros,

Estes motoristas, não sendo capazes de trafegar vagarosamente pela espaçada e pouco frequentada faixa da direita, veem-se forçados a seguir pela esquerda, submissos ao ritmo de viagem de terceiros, em um desafio constante para equilibrar sua velocidade e a distância para o carro à frente. E este, mesmo diante do sentimento misto de angústia e ansiedade, tende a agir agressivamente com qualquer outro que tente acessar a faixa por ele escolhida.

Tal panorama, ora, subverte a ordem do trânsito e a finalidade da determinação do sentido de circulação, o qual destina a faixa da esquerda aos carros em maior velocidade e/ou ultrapassagens. Enfileirados e mais numerosos que os veículos lentos à direita, não há modo de circular em velocidade compatível com o trajeto, o projeto viário e — por que não? — a época em que vivemos.

Penso que todas as autoridades de trânsito estão de acordo que este número prodigioso de motoristas — em carros, motos, picapes ou caminhões e, frequentemente, em SUV — na atual e deplorável situação desta malha viária, é uma lástima suplementar.

Portanto, quem quer que possa encontrar um método justo, barato e fácil para solucionar tal moléstia motorizada, deverá não só merecer a aprovação do público, como ver ser-lhe erguida uma estátua como salvador do trânsito.

No que me diz respeito, tendo dedicado meus pensamentos a este importante assunto durante muitos anos e tendo ponderadamente pesado as várias propostas de autores de outros projetos, achei-os sempre grosseiramente errados na análise de causas e soluções.

Um motorista que acaba de ser habilitado, passará um ano solar limitado em sua possibilidade de cometer erros de aprendizagem, uma vez que não é, de fato, habilitado, mas permitido, conforme a nomenclatura vigente do processo de habilitação. Após este ano solar, quando estiver definitivamente habilitado, este motorista terá sua habilidade chancelada pelo estado, que lhe concederá o direito de usufruir irrestritamente do sistema viário de acordo com a lei.

Este motorista de pouca destreza, depois de um ano, invariavelmente se tornará mais um naquela série enfileirada da faixa da esquerda. A própria existência desta série enfileirada da faixa da esquerda é a materialidade de que as propostas anteriores estão equivocadas relativamente à habilitação e aos projetos.

Há ainda grande vantagem em minha modesta proposta: além do baixo custo e facilidade de implementação por considerar os fatores sócio-culturais, ela também se baseia na auto-organização dos motoristas por seu perfil de condução, o que facilita a adaptação da população às modificações.

Veja: diante das condições encontradas nas rodovias brasileiras de norte a sul, de leste a oeste, em seu vasto território de 8.516.000 km², proponho que o governo inverta a mão de circulação do trânsito brasileiro pois, considerando que a legislação deve atender os anseios, os hábitos e costumes da população, sendo um reflexo da cultura de seu povo, devemos adequar a legislação de trânsito aos hábitos dos motoristas brasileiros.

Em qualquer rodovia observada notar-se-á uma velocidade moderada praticada pelos transeuntes da esquerda, de forma truncada; na direita, notam-se veículos em velocidade constante, com fluxo livre e maiores distâncias entre si, o que beneficia a segurança viária.

Sendo comum e recorrente a situação observada da série de carros enfileirados na esquerda, é notório que os motoristas brasileiros têm preferência pela circulação à esquerda. Desta forma, propõe-se que a faixa da esquerda seja destinada à circulação e a faixa da direita às ultrapassagens.

Além de tal alteração estar de acordo com a prática comum dos motoristas, ela também seria auxiliada pela segmentação do perfil de condução, como já mencionei acima: preferindo circular em comboio, controlando constantemente a velocidade e o espaço, estes motoristas da esquerda não teriam ímpetos de saltar para a faixa ao lado, mais liberada, permanecendo como já dirigem atualmente, em série enfileirada.

Por outro lado, os motoristas com perfil diverso, que não dirigem em comboio e preferem uma pista mais liberada e distâncias maiores, estes já circulam naturalmente pela direita, desviando apenas de caminhões e outros veículos lentos que, eventualmente, aparecerem pela frente. Neste caso, a ultrapassagem seria feita pela esquerda, porém “encaixando-se” entre o comboio da esquerda por um curto.

Isso, porque os caminhões continuariam a trafegar pela direita. Afinal, esta é a razão para que os motoristas prefiram seu comboio à esquerda. É fundamental para a excelência da modesta proposta que caminhões e comboios da esquerda sejam segregados, o que se adequa ao conceito de respeitar a cultura dos motoristas. Caminhões têm preferência pela direita. É sensato, portanto, que os mantenhamos nesta metade da pista. A questão financeira também se impõe neste caso: velhos caminhões não precisariam ser trocados por novos caminhões com o volante no lado contrário, permitindo que caminhões com relevo histórico sejam mantidos em circulação — à mente me vêm a família Alligatoridae sueca.

Minha modesta proposta tem outra vantagem além da adequação do trânsito ao perfil psicológico dos motoristas: adotando a mão de circulação invertida, poderíamos até mesmo reduzir o custo dos carros. Como hoje a indústria segmenta seus produtos para países desenvolvidos e países em desenvolvimento como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, a inversão da mão de circulação faria com que o Brasil pudesse receber os projetos originais da Tailândia, da Índia e da África do Sul sem a necessária inversão do painel/volante/servo. E não apenas isso: os modelos produzidos no Japão e no Reino Unido poderiam ser vendidos por aqui sem adaptações, também. E haveria ainda um importante papel geopolítico que reforçaria o papel do Brasil como líder da América do Sul: poderíamos exportar carros para a esquecida Guiana, antiga colônia britânica que manteve a mão direita em seu sistema de trânsito.

Como supra-mencionado, o custo de implementação de tal modesta proposta seria igualmente modesto, sem a necessidade de inversão de sinalização, bastando apenas atualizar textos legais — o que já é realizado naturalmente pela formalidade ritual das proposições legislativas.

Minha modesta proposta ainda tinha, originalmente, um sistema de bonificação para controladores de velocidade, novamente baseado no princípio de que a legislação deve ser um reflexo da cultura e dos anseios da população. Com a notória realidade de motoristas que praticam velocidades significativamente inferiores às impostas pelos controladores de velocidade, eles poderiam ser bonificados com a diferença entre a velocidade aferida e a velocidade limite, desta forma, teriam créditos para passar mais rapidamente nos controladores vindouros. Mas vos recordo de que a modesta proposta precisa ser financeiramente viável — a modéstia, afinal, não está apenas na falta de pretensão da proposta.

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