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Uma retrospectiva dos esportivos da Fiat em seus 40 anos de Brasil – Parte 1

Foto: Aleixo Photo

Em 1976 a Fiat lançou no Brasil o 147, em uma história que contamos recentemente aqui no FlatOut. Foi o primeiro modelo da marca no Brasil, e o responsável por uma série de pioneirismos. Com seu motor transversal na dianteira, suspensão independente e aproveitamento de espaço exemplar para seu tamanho, o 147 plantou a semente dos carros populares e fez com que sua fabricante ficasse conhecida por carros pequenos — e, vale lembrar, teve o primeiro motor a álcool em um carro produzido em série no mundo.

Dito isto, a Fiat também teve modelos esportivos bem interessantes e cobiçados vendidos aqui — a maioria deles, desenvolvidos localmente. É deles que vamos falar agora, homenageando quatro décadas de atuação da marca italiana no Brasil!

 

Fiat 147 Rallye

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Foto: Messias Ferreira

O primeiro deles é justamente uma versão esportiva do 147. Quando ele foi apresentado, em 1976, só havia um motor de 1.050 cm³ e 55 cv — no limite do suficiente para um carro pequeno com cinco lugares e problemas de durabilidade nos primeiros carros. Foi questão de tempo até que os defeitos fossem sanados e o brasileiro passasse a aceitá-lo. E certamente que o lançamento da versão esportiva Rallye, em 1979, deu sua contribuição para isto.

Com um aumento noo curso dos pistões de 57,8 para 71,5 mm, o motor 1.050 passou a deslocar de 1,3 litro e entregar 72 cv. Assim, o 147 Rallye era capaz de acelerar até os 100 km/h em 16 segundos, com máxima de 145 km/h. OK, não era um carro potente, mas o fôlego extra fez bem ao carrinho e evidenciou o bom comportamento dinâmico proporcionado pela suspensão independente do tipo McPherson nas quatro rodas. Também agradava no visual, com faixas decorativas nas laterais, spoiler do tipo lip na dianteira, rodas de aço de desenho diferenciado e faróis auxiliares. Por dentro, tinha revestimentos diferenciados, volante exclusivo e painel com conta-giros, voltímetro e manômetro de óleo. Em 1980, o Fiat 147 foi reestilizado com a frente inclinada conhecida como “Europa”, e o modelo Rallye acompanhou a mudança.

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Pode não ser um hot hatch com as mesmas credenciais dos modelos europeus da época, mas isto não significa que ele não tenha importância histórica — afinal, ele foi o primeiro esportivo da Fiat.

 

Fiat Uno Turbo

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Em 1992, a Fiat apresentou o Fiat  apresentou o Uno Turbo i.e.. O nome orgulhoso da versão denotava a adoção de um turbocompressor Garrett T2 operando a 0,8 BAR, medida mais do que suficiente para sobrealimentar o motor de 1.372 cm³ e oito válvulas — da mesma família do Sevel, projetado por Aurelio Lampredi — e desenvolver 118 cv e 17,5 mkgf de torque. Pode não parecer muito hoje, mas na época era um salto e tanto — ainda mais colocados em perspectiva: eram mais de 86 cv por litro.

 

 O hatch turbinado ia de 0 a 100 km/h em 9,2 segundos, com velocidade máxima de 195 km/h. O turbo se fazia perceber, em termos de potência, aos 3.000 rpm, quando o motor alcançava a potência máxima. O pico de torque vinha aos 3.500 rpm quase repentinamente, acentuando o comportamento arisco do carro. E o Uno Turbo era tão elaborado quanto o esportivo da matriz, com o qual compartilhava o motor — que além do turbo recebia também um intercooler e, para adequar a temperatura ao regime de funcionamento mais intenso, um radiador de óleo.

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O carro passou a receber discos de freio ventilados na frente, com 257 mm de diâmetro, emprestados do Tempra. Dele também vinham os cubos das rodas de 14 polegadas calçadas com pneus 185/60. Por causa dos pneus mais largos e do motor maior, o estepe de tamanho integral não cabia mais no cofre, e foi transferido para o porta-malas — melhorando “sem querer” a distribuição de peso. A suspensão foi recalibrada, recebendo novos feixes de molas na traseira e molas helicoidais mais firmes na dianteira, bem como amortecedores com mais carga. A altura em relação ao solo era 10 mm menor. A traseira também recebia uma barra estabilizadora, e outra ficava entre as torres de suspensão na dianteira. Todas estas medidas melhoravam ainda mais o comportamento dinâmico do Uno Turbo.

 

Fiat Tipo Sedicivalvole

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O Fiat Tipo Sedicivalvole foi um dos poucos esportivos da Fiat a não serem desenvolvidos e fabricados no Brasil. Vinha da Itália, e tinha um motor 2.0 16v (herdado do sedã médio Lancia Thema) com comando duplo no cabeçote e 148 cv. Para efeito de comparação, o motor Duratec do Ford Focus da geração passada — também um 2.0 16v — rende 147 cv. O Sedicivalvole ia de 0 a 100 km/h em 8,2 segundos, com máxima de cerca de 210 km/h.

Em dezembro daquele ano, o brasileiro também passou a poder comprar a versão nacional do Fiat Tipo Sedicivalvole. Mesmo com 137 cv — onze a menos do que o modelo italiano —, seu motor 2.0 16v de funcionamento suave fazia dele um dos carros mais rápidos do Brasil na época, com velocidade máxima de 204 km/h. Sua vocação esportiva ficava clara pelos frisos vermelhos nos para-choques e saias laterais, rodas de 15 polegadas e bancos envolventes com forração diferenciada (os Recaro eram opcionais, e são bem raros de se achar hoje em dia).

Fiat Tipo 16V

Apesar do bom desempenho, o Tipo Sedicivalvole sofreu com a onda de incêndios que, literalmente, queimou a reputação do hatch da Fiat ao afetar todos os exemplares importados. Quando começou a produção nacional, em 1995 — o que tirou o Sedicivalvole de linha —, o Fiat Tipo já era um mico no mercado e saiu de linha sem maiores cerimônias em 1997.

 

Fiat Coupé

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Feito sobre a plataforma do Tipo, o Fiat Coupé é mais um dos cupês europeus de tração dianteira que vieram para o Brasil na década de 1990, como o Chevrolet Calibra, o Mitsubishi Eclipse, o Chevrolet Tigra e o Mazda MX-3. Ele foi importado entre 1995 e 1996 e vendeu cerca de 1.500 unidades, todas equipadas com um motor de dois litros com comando duplo no cabeçote e 137 cv — muito parecido com aquele que equipava o Tipo Sedicivalvole, diga-se.

Lá fora, havia versões mais empolgantes, como o 2.0 16v turbo de 190 cv e um cinco-cilindros Fivetech de dois litros com cabeçote de 20 válvulas, turbo e 220 cv. Apesar de ser a versão mais mansa, o Coupé vendido no Brasil ainda era um carro impressionante, com interior projetado pela Pininfarina (o que leva muitos donos a decorarem seus carros com adesivos da Ferrari) e carroceria assinada por Chris Bangle — de desenho marcante, com dois cortes inclinados em cada lateral, na altura dos para-lamas, e proporções futuristas.

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Além disso, não dá para reclamar muito de um carro capaz de chegar aos 100 km/h em 9,3 segundos com máxima de 206 km/h vendido no Brasil há vinte anos. Era um dos mais rápidos que se podia ter.

 

Fiat Marea Turbo

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Quem viu o Fiat 147 Rallye nas concessionárias certamente não imaginava que, duas décadas depois, a Fiat entraria para a história com um sedã esportivo. Em 1999, o sedã Marea ganhou a versão Turbo, equipada com o lendário Fivetech 2.0 20v turbinado e calibrado para render 182 cv. Ele já foi, com isto, o carro mais potente do Brasil por alguns anos, e um dos mais velozes, também — 0-100 km/h em menos de oito segundos, máxima de 223 km/h. E o ronco daquele motor era realmente apaixonante, olha só:

Um clássico

O Fiat Marea Turbo foi vendido até 2007, morrendo junto com as outras versões — e, para um modelo de nicho, até que vendeu bem, com mais de 1.600 sedãs e mais de 1.000 peruas emplacadas. Dito isto, sofreu tanto quanto os outros Marea por causa do motor Fivetech, que era avançado demais para o mercado brasileiro na época.

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Poucos dispunham de tempo, dinheiro ou disposição para manter um Marea como se deveria e, como consequência, muitos exemplares (muitos mesmo, e não só do Marea Turbo) acabaram tendo sua vida útil abreviada e acabaram puxando os preços para baixo. Assim, não ficou difícil ver bons exemplares do Marea Turbo caindo nas mãos de quem não tinha condições de cuidar e, por isso, é muito raro achar um carro original em bom estado hoje em dia.

 

Fiat Punto, Linea e Bravo T-Jet

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A Fiat sempre foi adepta de tecnologias inovadoras no Mercado — vide sua aposta nos modelos turbinados em lá na década de 1990, muito antes de se falar em downsizing. E, entre as fabricantes brasileiras, foi a única a seguir apostando nos turbos desde então — uma prova disso é o Fiat Punto T-Jet, que foi lançado em 2009 (olha só, apenas dois anos depois do fim do Marea Turbo) e vinha com um motor 1.4 16v turbo importado da Itália, capaz de entregar 152 cv a 5.500 rpm e 21,1 mkgf de torque a baixas 2.250 rpm. Com câmbio manual de cinco marchas, o hot hatch era capaz de chegar aos 100 km/h em 8,4 segundos, com máxima de 203 km/h. Era um conjunto e tanto, do qual nos despedimos neste ano com o fim das versões T-Jet e Sporting do Punto.

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Acontece que o motor também foi usado em outros carros — o irmão maior Bravo também veio na versão T-Jet, com o mesmíssimo conjunto mecânico, no lançamento em 2010. Sendo um carro maior e mais de 100 kg mais pesado, o Bravo T-Jet surpreendeu por seu bom comportamento dinâmico e desenvoltura, além de ser mais refinado e melhor acabado que o Punto. Infelizmente, o Bravo jamais vendeu bem no Brasil — quem dirá em uma versão esportiva com motor turbo…

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Agora, se você quiser ser discreto, o Linea T-Jet certamente é seu membro favorito da família. O sedã turbo baseado no Punto só teve o motor 1.4 turbo no Brasil e se dava bem com ele — tinha a mesma desenvoltura do Punto em um pacote mais maduro e de três volumes. Veio como versão de topo com apelo luxuoso, e não esportiva, mas não decepcionava na hora de acelerar: além do bom acerto de suspensão, chegava aos 100 km/h em 8,5 segundos, com  máxima de 203 km/h. Saiu de linha em 2012, enquanto o resto da família deixou de ser produzido no mês passado.

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