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Car Culture

Volkswagen EDP: a série de conceitos que previu o futuro – e hoje vive no museu

A Volkswagen inaugurou, nesta semana, a ampliação de sua “Garagem Volkswagen” na fábrica da Via Anchieta em São Bernardo do Campo/SP. O espaço foi criado em 2022 para abrigar o acervo histórico da marca, composto por mais de 100 protótipos, conceitos e modelos especiais feitos em série, mas até agora ele só poderia ser visitado por convidados da fabricante ou pela imprensa. Com a inauguração do novo anexo de 400 m², a Garagem agora ganhou mais 13 modelos expostos e também passou a ser aberta ao público.

Entre os 13 carros está um velho conhecido nosso, do qual já falamos por aqui, mas que fez parte de uma série de conceitos apresentados no Salão do Automóvel na segunda metade dos anos 1990, os modelos Engineering Design Prototype, ou simplesmente EDP. Você deve lembrar dele, porque falamos desse carro em 2016, quando ele saiu do acervo da Volkswagen e foi levado até Águas de Lindoia para o Bubblegun Treffen, em comemoração aos 20 anos do conceito e 40 anos da carreira de seu criador, o designer Luiz Alberto Veiga. Estou falando da Parati EDP 200, de 1996.

Olhando hoje, depois de quase 30 anos desde sua apresentação, ele parece datado — especialmente devido aos excessos da era tuning, surgida cinco anos depois de sua criação. Mas se considerarmos que ele foi desenvolvido ao longo de 1996, fica evidente que era algo muito alinhado com o que havia de preparação aftermarket na Europa — vindo de preparadoras como Oettinger e Abt. Os faróis com máscaras e elementos circulares, por exemplo, era um acessório comum na época, inspirado nos modelos de pista e rali.

Quanto ao bodykit, resista à tentação de compará-lo aos modelos tuning dos anos 2000. Repito: isso aconteceu antes. E embora a inspiração tenha sido claramente os carros de pista e o tuning alemão da época, lembre-se que ele era uma vitrine do futuro — um futuro do pretérito, mas ainda um futuro. Quem viveu os anos 1990 lembra dessa visão. E quem viveu a época também lembra o impacto visual que esse conceito provocou. Não havia nada minimamente parecido com esse bodykit nas ruas de nenhum lugar do mundo — talvez o Omega 500 Evo, na Europa?

E detalhe: os para-lamas foram mesmo cortados para abrir espaço para as rodas maiores. Falando nelas, estas rodas BBS de 17 polegadas, hoje banais, na época eram gigantes — basta lembrar que o grande supercarro contemporâneo, o McLaren F1, usava rodas do mesmo diâmetro. A Ferrari 355 usava rodas de 18 polegadas. O Escort RS Cosworth usava rodas de 16 polegadas. E esse tamanho todo se justificava, porque a Parati EDP usava discos maiores nas quatro rodas — e com sistema ABS, já presente na Parati GTI.

Sob o capô, a Parati trazia o motor AP 2000 16V com cabeçote retrabalhado no fluxo e equipado com duplo comando da Crane, sistema de escape redimensionado sem catalisador e remapeamento na injeção e ignição para chegar aos 200 cv. Com isso, sua máxima era de 230 km/h, depois de acelerar de zero a 100 km/h em 7,4 s. O conjunto de suspensão teve carga redimensionada. Era basicamente o conceito dos Volkswagen R aplicado a uma Parati GTI de 30 anos atrás — com direito à hoje famosa bolha no capô.

Por dentro ela ficou igualmente datada, mas muito agressiva para a época: o painel foi revestido com pintura soft-touch e os bancos Recaro Style eram semelhantes ao que veríamos mais tarde nos Audi S4 e S3. O assoalho foi inspirado em carros de pista também e, com isso, adiantou uma tendência que desgastou permanentemente esse tipo de acabamento: as placas de alumínio lavrado, que seriam usadas e abusadas na onda tuning cinco anos mais tarde, passando a ser conhecidas pejorativamente como “chão de busão”.

No lugar do banco traseiro, outra tendência da época — e que hoje não faz o menor sentido: uma instalação de som premium com módulos de potência Clarion de 1000W alimentando 16 alto falantes que abrangem todo o espectro audível — dois subwoofers, dois woofers, oito mid-rangers e quatro tweeters — tudo isso reproduzindo a música tocada pelo CD changer (magazine) de 18 discos.

Menos lembradas — e ainda guardadas no acervo da Volkswagen, mas não exposta na Garagem —, são suas sucessoras: a Parati EDP 2 e a Saveiro EDP.

A Parati EDP2 foi feita para a edição seguinte do Salão do Automóvel, realizada em 1998. Se a primeira era uma perua esportiva de alto desempenho, a segunda mudou completamente o foco e, mais uma vez, antecipou uma tendência que já circulava nos bastidores da indústria: as peruas aventureiras.

Novamente, não olhe para ela com os olhos de 2025: pense em como era o mercado em 1998. SUV? Só os modelos de raiz — ou os recém-chegados Toyota Rav4, Honda CR-V e Mercedes ML. A GM havia apresentado o Corsa Tonga na Europa e trouxera o Tonga 2, baseado no Corsa Wagon, para o mesmo Salão de 1998, enquanto a Fiat colocou em produção a Palio Weekend Adventure no ano seguinte. O caminho para o futuro parecia apontar para essa direção, e foi o que a Volkswagen fez.

A Parati EDP II, contudo, antecipava mesmo outra novidade: a reestilização da família Gol, que chegou meses depois, no início de 1999. Ela já tinha os faróis retangulares, o capô com a borda reta e linhas mais retilíneas no para-choques, além do novo painel que seria adotado no modelo que, mais tarde, ficaria conhecido como “G3”. Além disso, a pintura amarela (Amarelo Solaris) — no conceito com a base cinza —, faria sucesso na linha Gol a partir de 1999, principalmente no Gol Sport e no Gol Copa.

Curiosamente, a Volkswagen nunca embarcou pra valer na onda dos soft roaders. Apesar dos pneus customizados e a suspensão elevada sugerirem uso fora de estrada, o mais próximo que a Volkswagen chegou disso foi com a Parati Crossover e a Parati Track & Field, lançadas em 2004 e 2008, respectivamente, e bem mais comportadas que a rival da Fiat — que chegou a sair com pneus de uso misto e quebra-mato, além do diferencial com bloqueio eletrônico, mais adiante.

Dois anos depois, em 2000, veio o último dos conceitos da série: a Saveiro EDP. A picape já havia sido transformada em conceito em 1997, em um evento concorrente do Salão do Automóvel chamado Brasil Motor Show. Talvez por ser menos prestigiado que o Salão, a Volkswagen fora mais modesta em seu conceito, limitando-se a customizar uma Saveiro com rodas BBS Motorsport Edition iguais às da Parati EDP 200, pintura exclusiva e interior com acabamento mais refinado, combinando marrom e preto. Seu nome era Saveiro Street.

A Saveiro Street no Brasil Motor Show de 1997

Para o Salão de 2000, contudo, a Saveiro recebeu um tratamento especial. Pudera: ela ainda não havia sido reestilizada e só ganhara o visual novo (“G3”) naquele ano. Fazer um conceito EDP sobre ela foi uma forma de destacar a picape renovada.

Talvez por já ser baseada em um estilo bem consolidado no mercado, a Saveiro EDP foi a mais modesta da série, mas também o conceito que mais trouxe elementos que chegaram à linha de produção. O conjunto dianteiro era o mesmo dos carros de série, mas o pára-choques era exclusivo, com uma proximidade estética dos Audi da época, e era pintado na cor da carroceria assim como as máscaras internas dos faróis. As rodas eram de 16 polegadas, com seis raios, e a suspensão também era elevada como na EDP II.

Como as outras duas, ela também foi concebida por Luiz Alberto Veiga, e tanto os faróis quanto as rodas e a cor do conceito (Azul Fun), foram parar na série especial Fun, vendida entre maio e julho de 2001 e disponível para Gol, Parati e Saveiro. Apesar da cabine da série Fun ter elementos exclusivos da versão, ela não replicava a cabine da Saveiro EDP III, que tinha volante do Golf Mk4, bancos Recaro Style e revestimento de couro e camurça, além de uma tela no topo do painel — algo que se tornou padrão em todos os modelos VW lançados nos últimos 10 anos.

Depois delas a Volkswagen levou vários outros conceitos para o Salão do Automóvel — caso do Polo Exclusiv em 2002, Saveiro Rocket em 2010, Gol GT em 2016 e a picape Tarok em 2018. Nenhum deles com o impacto que estes três conceitos do século passado tiveram — o Gol GT principalmente, pois se baseava mais em nostalgia do que em antecipação do futuro. Como já dizia o velho Millôr Fernandes, “já não se faz mais futuros como antigamente…”


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