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16 cilindros, 12,3 litros, quatro turbos e 4.577 cv: seria este o motor mais insano do mundo?

Claro, esta é uma pergunta retórica. O conceito de insano não é algo claramente definido, e sim uma daquelas coisas que variam de acordo com a percepção de cada um. Além disso, ao longo da história, certamente há outros motores que merecem o título de “mais insano do mundo” (vamos falar disso em um instante). Hoje, porém, estamos a fim de dizer que é este aqui.

E temos motivos para isto. Trata-se, como você já percebeu, de um V16 de 12,3 litros (750 pol³!!) que, sobrealimentado por quatro turbocompressores, é capaz de entregar mais de 5.000 cv. Ou ao menos é isto o que a Steve Morris Engines diz sobre seu mais recente projeto. Isto porque o dinamômetro usado para medir a potência só consegue suportar pouco mais de 4.500 cv…

Você já deve ter visto motores parecidos com este aqui mesmo, no FlatOut. A Steve Morris Engines é uma das várias empresas americanas especializadas em motores de grande deslocamento e altíssimo desempenho — feitos sob medida para projetos de arrancada, por exemplo.

Normalmente, estes motores usam projetos conhecidos, como o big block Chevrolet (BBC) e componentes reforçados. Raramente sua potência fica abaixo dos 2.000 cv — lembra daquele Bentley Continental GT de arrancada, com um V8 de dez litros e 3.124 cv? Foram os caras da Steve Morris Engines que o fizeram!

No entanto, os caras garantem que não se trata de um motor de arrancada — ou seja, nada de acelerar de 402 metros em 402 metros, trocando componentes com frequência e operando com foco no desempenho, e não na durabilidade. É exatamente o oposto: a Steve Morris Engines desenvolveu o V12 para uso em um futuro hipercarro. What?

Pois é: apesar de todo o jeito de motor de arrancada, o V16 de 12,3 litros da SME está sendo, supostamente, desenvolvido para um hiperesportivo chamado Devel Sixteen. Dá uma olhada no protótipo dele, abaixo:

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Fotos: DriveArabia.com (como está escrito na marca d’água…)

O Devel Sixteen foi apresentado em 2013, no Salão de Dubai. Dá para perceber que trata-se de um exercício da típica extravagância árabe. Apesar do jeitão de maquete (o acabamento daquela asa traseira é quase imperdoável), a fabricante Devel apresenta alguns números quase inimagináveis.

O V16 que, dizem, ocupará o cofre do Sixteen é todo feito em billet de alumínio é sobrealimentado por quatro turbocompressores de 81 mm. Tem 32  válvulas de titânio, cabeçotes feitos sob medida, com um único comando de válvulas e um único virabrequim, também de billet de alumínio. Dito isto, é bem provável que na prática se tratem de dois motores V8 em fila indiana.

Considerando que um motor de oito cilindros como este dificilmente pesa menos de 200 kg, não é tão surreal assim pensar que o V16 pese pelo menos 500 kg com todos os periféricos, pronto para ser instalado. Tanto o alto peso quanto o bloco extremamente longo acabam afetando a durabilidade de componentes como o virabrequim e o comando de válvulas — além, é claro, de todo aquele torque aplicado sobre eles o tempo todo.

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Mas, afinal, de quanto estamos falando? De acordo com a SME, o V16 produz 4.577 cv a 6.900 rpm e 486,5 mkgf de torque (!!!) a 6.600 rpm operando em sua capacidade total, com 2,5 bar de pressão nos turbos e combustível de competição C16, de 117 octanas. Com gasolina comum e 1,3 bar nos turbos, são 3.043 cv a 6.900 rpm e 332,7 mkgf de torque a 6.400 rpm. Eles dizem que, assim, é possível manter o motor em uso diário.

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Mas quanto anda um carro tão potente? A Devel fala em 100 km/h em 1,8 segundo, com máxima de 560 km/h. Honestamente, meio difícil de acreditar, por mais de um motivo.

Primeiro, há diversos aspectos técnicos que dificultam bastante o uso regular de um motor como este — componentes superdimensionados, sistema de arrefecimento ultra-eficiente, desgate e manutenção de componentes, por exemplo. Outro hipercarro que pode ser considerado insano, o Bugatti Veyron, é prova disso: para que o W16 quadriturbo de oito litros e até 1.200 cv seja capaz de levá-lo além dos 400 km/h, são necessários dez radiadores, um sistema de arrefecimento impecável e um acerto eletrônico bastante complexo.

O que nos traz ao segundo motivo: o Bugatti Veyron trouxe de volta uma marca lendária e, para isso, tinha os recursos da Volkswagen, uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo. O Devel Sixteen, no entanto, não tem nada disso (na verdade, alguns comentários que correram a web desde sua apresentação falavam sobre o aspecto não muito bom do protótipo). Na verdade, por maiores que sejam seus números, o V16 da SME não tem muito mais tecnologia do que um V8 Chevrolet LS3. Em um tempo de supercarros híbridos com sistema de recarga de energia e injeção direta, o Sixteen rema na contramão.

A fabricante diz que o Sixteen é um supercarro único que precisa de um motor único. Não duvidamos que algum sheik esteja financiando esta empreitada só porque não sabe mais o que fazer com seu dinheiro, mas uma coisa é bancar o desenvolvimento de um motor de 5.000 cv e transformá-lo em algo viável em termos práticos e comerciais. Aliás, nem a Volks fez isto: o Veyron, em comparação, é bem mais plausível.  Mais do que isto: ele foi o supercarro que deu início à guerra dos números — que, atualmente, anda sendo vencida pela Koenigsegg, com os 1.500 cv do Regera.

Não estamos fazendo uma ode ao Veyron, e muito menos descendo a lenha gratuitamente no Devel Sixteen. Até porque, lá no fundo, isto não importa. Não vai ser a primeira vez que o Oriente Médio promete ao mundo um supercarro quase surreal e jamais cumpre a palavra (ainda que às vezes isto aconteça, caso do Lykan Hypersport). O que importa é que o tal motor de 5.000 cv realmente existe, e que ele é animal. Vai dizer que você não gosta de exageros mecânicos como este?

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