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Car Culture

Ghost Car, o Camaro 79 que foi para a guerra

Nestes tempos em que qualquer discussão de Twitter parece prever o fim do mundo para a semana que vem, é tentador enxergar guerra apenas como prenúncio do caos. Mas guerras também deixam para trás histórias que sobrevivem ao cinismo, histórias que parecem grandes demais para caber na realidade. E poucas soam tão improváveis quanto a de um Chevrolet Camaro 1979 que atravessou a Guerra da Bósnia como se tivesse sido convocado por algum diretor visionário, e não por um dinamarquês teimoso que se recusou a assistir aos noticiários de braços cruzados.

A Bósnia dos anos 1990 era um território esfacelado: cidades inteiras respiravam poeira, ruas eram assombradas por tiros soltos, e cada viagem curta precisava ser negociada com o destino, o medo e a sorte. No meio desse cenário, um muscle car americano passa a fazer parte da paisagem. Quase sempre de madrugada, quase sempre sozinho. Sempre com o ronco grave, com os faróis apagados, com a pintura opaca. O tipo de historia que parece mais mito do que realidade.

Dentro dele, ao volante, estava Helge Meyer, ex-atirador de elite do Jaeger Corps. Ele já estava aposentado quando a guerra estourou, morando na Alemanha, levando uma vida que deveria ser mais tranquila do que tudo que tinha vivido até então. Mas não foi o que aconteceu. Meyer diz que sentiu um chamado — alguns chamariam de empatia, outros de fé, ele chama de obrigação moral. Seja qual for o nome, foi isso que o levou a pedir ajuda informal à Força Aérea dos EUA para transformar seu Camaro amarelo em algo que pudesse atravessar uma zona de guerra sem parecer um alvo móvel.

Os militares atenderam. Nas horas vagas, modificaram o carro para deixá-lo mais silencioso, reforçaram o assoalho, instalaram proteção metálica no lugar do vidro traseiro e revestiram as portas com Kevlar. A pintura virou preto-fosco para refletir menos as luzes infravermelhas dos equipamentos de visão noturna. Na frente, ele ganhou faróis auxiliares invisíveis a olho nu. No porta-malas, espaço para suprimentos, ferramentas, dois estepes. No cofre, dizem, o V8 foi preparado pelos mecânicos do exército americano. Dizem que ele também ganhou um kit nitro, mas é nesse tipo de relato que começa a estrada tênue entre mito e realidade. Há quem jure que ele tinha 300 cv. Outros falam em 440. Meyer não confirma, apenas sorri nas raras entrevistas. É o tipo de detalhe que a guerra não se importa em registrar com muita precisão. E nem precisa, afinal.

O que se sabe é que, noite após noite, ele se aventurava por vales escuros e cidades que já não tinham luz elétrica, guiado por mapas improvisados, dicas de soldados americanos e uma espécie de coragem que beira a imprudência — ou a devoção. Levava comida, remédios, roupas, brinquedos. Levava o que coubesse. Levava também o risco de trombar com bandos armados que não respeitavam nada além da mira de seus próprios fuzis. Meyer não carregava armas. Sua defesa era o carro. E um maço de cigarros. E uma Bíblia.

Às vezes o Camaro voltava com marcas de tiros. Uma vez, o próprio Meyer voltou com uma bala alojada no capacete — milímetros que separaram a vida da versão trágica que esse relato poderia ter tomado. Em outras ocasiões, o cupê surgia diante de uma casa e a cena parecia saída de algum livro antigo: um homem trazendo o pouco que podia, oferecendo comida, oferecendo cuidado, oferecendo a lembrança de que havia humanidade mesmo ali, onde tudo parecia se desintegrar.

Com o tempo, o carro ganhou apelidos. Ghost car. O Fantasma. O Camaro que surgia e desaparecia como se obedecesse a sinais que ninguém mais conseguia enxergar. Crianças corriam para perto dele quando ouviam o V8 roncar. E aqui a história começa a se misturar ainda mais: há relatos de que algumas famílias ouviam o carro antes de ouvirem os tiros, como se o ruído do motor anunciasse a chegada da salvação.

Meyer continuou fazendo suas viagens mesmo depois que o conflito se estabilizou. Continuou até 2005, já na região de Kosovo. Depois levou o carro para casa. Hoje ele está em sua garagem, ainda equipado, mas repintado de laranja. Afinal, o veterano que não precisa mais se esconder das câmeras noturnas, nem das histórias que brotaram ao seu redor.

Parte do que se conta sobre o War Camaro é documentado. Parte foi exagerada pelas reportagens. Parte nasceu nas memórias emocionadas de quem o viu surgir quando mais precisava. E parte — talvez a melhor parte — simplesmente nunca poderá ser provada.